Onze mortos, em incêndios provocados por saqueadores, é um número quase
inacreditável para a exceção positiva que o país era na América Latina.
Coluna de Vilma Gryzinski:
Tem volta?
Esta é a pergunta que importa para o Chile, convulsionado por
manifestações súbitas, violentas e totalmente desproporcionais ao motivo
inicial, o aumento na passagem do metrô.
A resposta é provavelmente sim. Apesar da torcida para que o Chile,
com os chilenos junto, se ferre para comprovar que a política
moderadamente de centro-direita do presidente Sebastián Piñera é um
desastre.
A exceção chilena não é obra de Piñera, embora ele tenha uma parte dos méritos, como presidente em segundo mandato.
O Chile conseguiu estabilidade e melhora constante, ou seja, sair da
lista de países de •••••, na definição nada polida, porém realista, de
Donald Trump, por uma multiplicidade de fatores.
O mais importante foi o contrato social, o acordo pactado entre os
partidos mais à esquerda e mais a direita, com apoio da maioria da
população, depois do inesperado fim da ditadura, fruto da certeza que o
general Augusto Pinochet tinha da aprovação do regime no plebiscito que
ele próprio havia convocado.
Apesar dos conhecidos e hediondos métodos de repressão da ditadura, o
mínimo compromisso com a verdade também exige que se reconheça o papel
da política econômica pinochetista.
As últimas três palavras são usadas com liberalidade. Pinochet não
entendia de economia e, como militar, tendia para o estatismo.
Foi o desastre total da experiência de autodestruição do governo de
Salvador Allende – nacionalizações, confiscos, congelamento de preços e
outras pragas – que incentivou o caminho contrário.
O autor do programa de reformas liberais chamado El ladrillo, feito
semanas antes do golpe foi o economista Sergio de Castro, depois
ministro da Economia.
Por motivos conhecidos, seus pontos continuam a ser discutidos até
hoje: diminuir o tamanho do setor público, realismo cambial,
modernização da agricultura, abertura de mercado via corte das tarifas
sobre importações e reforma da previdência social.
O Chile hoje está na faixa dos países de alta renda, com 16 mil
dólares de PIB per capita ou 25 mil pelo critério de paridade de poder
de compra.
Cresceu 4% no ano passado e a previsão é de 3,5% este ano.
Está em trigésimo lugar no índice de competitividade (Brasil: 56.º).
Tem problemas conhecidos, inclusive a dependência das exportações de
cobre. É um país com muitas regiões áridas, desvantagem usada a favor da
produção do vinho, mas que pesa no balanço total.
Tem também uma parte da população que saiu da miséria
consistentemente, mas não chega nem perto da elegante e instruída classe
média.
A esquerda continua a ser forte e faz o que a esquerda sabe fazer
bem. Protestos estudantis, com violência e quebra-quebra, aconteceram em
todos os governos e foram devidamente controlados.
O que mudou em relação à loucura da última semana, quando
participantes das ondas de saque provocaram a própria morte por
incineração e a sede de um jornal tradicional como o El Mercúrio de
Valparaíso escapou por pouco de ser totalmente queimada?
Desigualdade de renda e bronca com o aumento do metrô, rapidamente revertido, não explicam nem de longe a extensão da violência.
Sem metrô, com 41 estações vandalizadas, Santiago simplesmente não
anda, pela falta de alternativa de transporte. Hoje, estava parada, com
aulas suspensas, Exército na rua e comemorações em Caracas.
Pois é, a alegria pela explosão de protestos no Equador e agora no Chile é assumida pelo regime venezuelano.
“O que está acontecendo no Peru, no Chile, na Argentina, em Honduras,
no Equador, é só um ventinho. O que virá pela frente é um furacão”,
avisou, usando uma metáfora já conhecida, Diosdado Cabello, o número
dois da Venezuela.
“Esses países vão se arrebentar porque têm uma superdose de neoliberalismo e isso ninguém aguenta.”
A molecada do segundo grau que entrou pulando a catraca do metrô repetiu, evidentemente, o movimento do Passe Livre.
No Brasil, as manifestações acabaram tomando um caminho totalmente
oposto, com milhões na rua protestando contra a corrupção, com bandeiras
de direita. A onda culminou com a eleição presidencial.
Tirar o gênio da garrafa é fácil. Mas sabemos por experiência própria que ele tem suas próprias ideias sobre que rumo tomar.
Com fundamentos sólidos e muito a perder com a anarquia, o Chile tem
muitos fatores positivos para superar o terrível susto da última semana.
A alternativa é voltar para aquela lista.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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