O desprezo das classes mais abastadas pelo casamento é tão sincero
quanto Maria Antonieta bancando a camponesa, embora o fingimento delas
seja mais nocivo do que o de Maria Antonieta. Artigo de Theodore
Dalrymple, publicado pela Gazeta:
Uma mudança paradigmática é uma mudança repentina em suposições
fundamentais ou na forma de olhar o mundo. A senadora Elizabeth Warren
personificou uma das mudanças mais impressionantes dos últimos anos com a
resposta que ela deu a uma pergunta que lhe foi feita na televisão.
“Como a senhora reagiria”, perguntaram, “a um apoiador que lhe
dissesse: ‘Sou uma pessoa antiquada e minha fé me diz que casamento é a
união entre um homem e uma mulher’?”. Warren respondeu: “Bom, suponho
que tenha sido um homem que disse isso. E vou lhe dizer para, então, se
casar com uma mulher. Não tenho problemas quanto a isso. Supondo que ele
consiga encontrar uma”.
A plateia supostamente riu. O jornal The Guardian dizia que a
aplaudiram por sua perspicácia, mas claro que foi outra coisa que não a
esperteza ou sua resposta subwildeniana o que fez com que a plateia
risse.
Durante séculos, supôs-se que o casamento era a união entre um homem e
uma mulher. Mas nós mudamos tudo isso, como disse Esganarelo
(personagem de uma comédia de Molière), fingindo ser um médico, quando
lhe dizem que o coração fica do lado esquerdo e o fígado, do lado
direito. E mudamos tudo isso num piscar de olhos histórico.
A resposta semidebochada da senadora Warren foi uma obra-prima de
desonestidade negável. Neste sentido, ela é digna de admiração pelo
emprego sutil dos velhos truques retóricos do suppressio veri e
suggestio falsi. O que a suposição dela de que quem fez a pergunta era
um homem quer dizer? Quer dizer, claro, que os homens são os principais
beneficiários do casamento e que as mulheres são suas vítimas — sob a
ideia de que as relações humanas são um jogo de soma zero.
Num caso, a ideia por trás da fala da senadora faz sentido: no caso
dos casamentos forçados praticados, digamos, pelas pessoas de
ascendência paquistanesa no Reino Unido. O casamento forçado dá aos
homens liberdade para traírem enquanto as mulheres ficam em casa como
uma escrava, seja para trabalhos domésticos ou sexuais ou ambos. Mas é
improvável que a senadora tenha essa situação em mente, já que isso
entraria em contradição com sua sensibilidade multiculturalista e a
sensibilidade de sua plateia politicamente correta.
Na verdade, há várias provas de que o casamento é benéfico, e não
prejudicial, às mulheres, sem falar nas crianças. Se eu fosse marxista,
diria que o comportamento de Warren foi a forma que ela encontrou para
proteger os interesses e o poder da classe média-alta contra os
interesses e poder das classes mais baixas, uma vez que, à medida que
você sobe na escala social, mais sólida a instituição do casamento se
torna, apesar de todas as suas hipocrisias e traições. O desprezo das
classes mais abastadas pelo casamento é tão sincero quanto Maria
Antonieta bancando a camponesa, embora o fingimento delas seja mais
nocivo do que o de Maria Antonieta, já que ninguém jamais foi encorajado
a se tornar um camponês por causa das mentiras dela. Já com as mentiras
das classes mais abastadas é diferente.
Mas talvez o aspecto mais destrutivo (e certamente mentiroso) da
resposta de Warren foi a ideia de que hoje é preciso tolerância para
aceitar o casamento, o que quer dizer que o casamento é algo anormal e,
portanto, digno de repreensão — a necessidade de tolerância implica em
repreensão, uma vez que não há necessidade de tolerar o que já tem
aprovação.
Quando a ideia da senadora de que homens com opiniões tradicionais
têm dificuldade para encontrar uma mulher com a qual se casar — e até
problemas para conseguir um segundo encontro depois de expressarem suas
opiniões deploráveis no primeiro — minha experiência no tratamento de
mães solteiras é a de que elas esperam que suas filhas não sigam seus
passos na vida, e sim que elas encontrem um homem responsável e com uma
vida estável para ser o pai dos filhos delas. O problema é que esses
homens são escassos na esfera social delas.
A risada da plateia significa que ao menos parte da população está
disposta e talvez ansiosa para se cúmplice da desonestidade de Warren.
Se criticada, ela pode sempre dizer que só estava brincando, mas por
trás da piada ela estava falando muito sério. Ou eu deveria dizer “muito
frívola”?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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