Os dois políticos mais próximos da vitória na próxima eleição já foram, eles mesmos, anticandidatos. Alexandre Borges para a Gazeta do Povo:
"Primeiro ganhe a discussão, depois ganhe o voto."
Margaret Thatcher
Todas
as sextas, como hoje, costumo abrir um canal de perguntas e respostas
no Instagram e mais da metade dos questionamentos, há várias semanas, é
sobre a "terceira via", uma candidatura que rompa a polarização binária
Lula x Bolsonaro que sequestrou o imaginário político do país desde a
queda de Dilma Rousseff em 2016.
Quem
sairá candidato? Quem tem chance? Vai haver divisão ou união? O Novo já
decidiu se é oposição ou governista? O PSDB vai continuar rachado entre
Doria, Leite, Jereissati e ninguém, como quer Aécio Neves? O DEM de ACM
Neto foi mesmo engolido pelo bolsonarismo ou Mandetta ainda tem
chances? Existe espaço para Ciro Gomes no "centro democrático", como
sugere Rodrigo Maia? Moro pode rever sua decisão de não participar da
eleição? O apoio de Luciano Huck transfere votos? O que, afinal, pode
esperar o eleitor sufocado entre lulistas e bolsonaristas para 2022?
É
claro que não tenho (ninguém tem) respostas definitivas para estas
perguntas mais de 450 dias antes da eleição, mas a questão política mais
importante para quem deseja uma novidade viável na urna em outubro do
próximo ano parece estar em segundo plano: o que, afinal, defende e
representa a tal "terceira via"? Qual conjunto de ideias será oferecido
ao eleitor que não foi mentalmente aprisionado pelo populismo? Enquanto
partidos se reúnem, analistas fazem conjecturas e nomes são cogitados,
quem está preocupado com o que pensa e deseja este eleitor? Quem está
falando o que ele quer ou precisa ouvir? Sem uma boa conversa, qualquer
sedução não passa de uma aventura frívola.
Muitos
dos que levantam questões sobre a terceira via não eram nascidos em
1973, quando o país vivia o auge da repressão política durante o governo
Médici (1969-1974), de triste memória. Um momento histórico em que um
regime autoritário era também popular pelo enganoso "milagre econômico" e
a uma oposição acuada, minoritária e, na prática, inofensiva. Médici
conduzia pessoalmente sua sucessão naquele ano, contando com a maioria
absoluta no Colégio Eleitoral, o que fazia da disputa um mero formalismo
com final mais que conhecido.
Foi
neste contexto que Ulysses Guimarães conseguiu unir o MDB, rachado até
então entre moderados e radicais, combalido pela censura e pela mão de
ferro do regime, em nome de sua "anticandidatura", uma ideia corajosa,
inspiradora e brilhante que representou o primeiro movimento real de
enfrentamento político de uma candidatura situacionista desde 1964.
Contando
com Barbosa Lima Sobrinho (ABI) como vice na chapa, Ulysses Guimarães
entendeu que, apesar de não ter chances reais de vitória eleitoral em
1973, uma campanha presidencial, mesmo que simbólica, seria uma
oportunidade única de percorrer o país e ao menos mostrar ao eleitor que
era possível um novo Brasil, com um regime democrático, direitos civis
garantidos, eleições livres e alternância de poder.
A
ideia de "anticandidatura" vem do reconhecimento explícito de que
Ulysses Guimarães não tinha qualquer possibilidade de vencer aquela
eleição e, mesmo assim, não fugiria de seu papel político, cívico e
moral de abrir o diálogo com o país e explicar a todo cidadão disposto a
ouvir como desenvolvimento social e crescimento econômico são
perfeitamente compatíveis com liberdade e democracia, um debate que
voltou em tempos atuais com a ascensão da China, controlada por um
regime de partido único e antiliberal. Algumas ideias nunca morrem e,
como disse Ronald Reagan, a liberdade está sempre a uma geração da
extinção.
Ao
parar de se preocupar com a viabilidade da vitória, que naquele momento
não existia, Ulysses Guimarães começa a mudar as regras do jogo
político brasileiro. Assumindo uma postura de estadista, mirando "na
próxima geração e não na próxima eleição", o líder do MDB, que viria a
ser conhecido como "Sr. Diretas" e, depois, o patrono da Constituição de
1988, tira da oposição o caráter mesquinho, oportunista e imediatista
de só se mostrar interessado no Brasil e no seu povo com a garantia de
chances reais de vitória num pleito de araque.
Com
o ideário popular atual do país acorrentado entre Lula e Bolsonaro, uma
"anticandidatura" começa do reconhecimento de que é preciso, antes da
dança das cadeiras de centro e da discussão sobre nomes, abrir um espaço
no imaginário popular para a mudança. É só depois da avenida aberta, é
possível cruzar o deserto de ideias que assola o Brasil. Quando um
político se mostra mais preocupado em avançar uma agenda do que apenas
vencer a qualquer custo, ele passa a ser, na prática, uma opção viável.
Lula
perdeu três eleições presidenciais antes de 2002, Bolsonaro passou a
liderar a corrida de 2018 após a prisão do principal adversário e sofrer
um atentado. Os dois políticos mais próximos da vitória na próxima
eleição já foram, eles mesmos, anticandidatos.
Se
o Brasil quer uma alternativa eleitoral, que ofereça antes uma nova
proposta política e conquiste quantos corações e mentes for possível,
acreditando no valor da jornada em si e deixando o resultado, seja qual
for, nas mãos do eleitor.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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