Às vezes confundo a lua cheia com o sol e me levanto no meio da noite para acordar as abelhinhas. Via Gazeta, a crônica de Paulo Polzonoff:
Estava
eu lá quieto, cuidando do apiário e ouvindo a sinfonia de zunzuns das
abelhas quando meu bisnetinho Chico, de nove anos, apareceu correndo e
gritando “Biso, biso, só você pode me ajudar!” como se fosse uma questão
de vida ou morte. Tudo é uma questão de vida ou morte para as crianças.
Me virei e disse para ele ficar onde estava, por causa das abelhas. Daí
fechei a colmeia, me livrei dos insetinhos teimosos grudados no meu
capacete e fui até ele.
Chico
estava ofegante e trazia uma folha de papel na mão. Folha de papel?
Desculpe, é a idade. Ainda não me acostumei aos tablets ultrafinos que
as crianças de hoje em dia usam. De qualquer forma, ele balançava o
tablet branco no ar como um francês que não perde uma oportunidade de se
render. Me aproximei o mais rápido que pude, numa corrida facilmente
vencida por um jabuti. Ao chegar bem perto do Chico, me abaixei para que
ele gritasse no único ouvido que ainda tinha alguma função.
Chico
estuda na Escola Revolucionária Luiz Inácio Lula da Silva. Lá, ele
aprende que gente como o bisavô foi muito má e que o Estado só nos
mantém vivos porque ninguém sabe cuidar das abelhas como os octogenários
– mesmo os mais reaças. O mel é o principal produto de exportação da
República Popular Democrática Vegana do Brasil. Ainda assim, eu e Chico
temos uma ligação especial. Vai ver ele me tem como um herói; vai ver,
como uma máquina de lhe dar generosas mesadas.
Bem
de vez em quando, a professora de Neohistória dele, por motivos que me
fogem à compreensão, manda o Chico me entrevistar. Pode ser que seja
apenas curiosidade acadêmica (duvido), pode ser que a professora seja
até uma rebelde (elas existem), mas o mais provável mesmo é que ela faça
isso para garantir que eu não esqueça quem fui e meu bisnetinho não
esqueça quem sou.
Tiro
o capacete de apicultor e solto meus cabelos brancos e longos (fiz
implante ao completar 50 anos). Chico afasta uma abelha que zumbe, ainda
indignada, e me estende a “folha de papel”. Pergunto qual é o assunto
da vez. Já tive de falar de capitalismo – e de me assumir um
ex-capitalista malvadão explorador dos oprimidos. Já tive de falar de
racismo – e de me assumir um branco incorrigível. Já tive de falar de
democracia – e reconhecer que acreditava nessa história da carochinha. E
assim por diante.
O
assunto da vez é a Grande Pandemia de 2020, também conhecida como
Genocídio Bolsonariano, Ditadura do Negacionismo, Grande Delírio
Cloroquínico ou simplesmente Peste Capitalista. E as perguntas se
sucedem. Tive Covid? Defendi o “tratamento precoce”? Fiz campanha
antivacina? Acreditei nas previsões dos pandeminions (agora chamados de
pandesavers)? Usei a palavra “pandeminion? E, por fim, quando a OMS
declarou o fim da pandemia, comemorei ou chorei?
Fui
respondendo às perguntas uma a uma, me lembrando de quem era naquela
época. Dos debates violentos nas redes sociais. Do amigo que me chamou
de “sarrista” e criticou minha “indiferença cívica”. Do medo de pegar um
aviãozinho e ir ali até São Paulo. Das máscaras de pano. Nos
hectolitros de álcool em gel. Da grande festa que se seguiu ao anúncio
de que estávamos livres do vírus chinês. Justo eu, que às vezes confundo
a lua cheia com o sol e me levanto no meio da noite para acordar as
abelhinhas.
Chico
vai anotando tudo no mandaringuês que me recuso a aprender. Ele parece
feliz em ouvir aquilo. Como se eu fosse de alguma forma especial por ter
vivido um tempo turbulento e mágico, no qual as hashtags representavam
mesmo algum perigo a quem se envolvesse na discussão sanitária. Ou como
se eu fosse um vilão absoluto, daqueles que ele exibe para os amigos com
o mesmo orgulho de quem acabou de tirar um catotão do nariz e diz que
não sente nojo de nada.
O
menino pula do meu colo cansado e volta correndo para a casa, aos
gritos de “o biso era genocida! O biso era genocida!”. Na mochila que
ele leva às costas, vejo o emblema da escola, com a foto do barbudão e
uns caracteres em mandaringuês que o Chico leu para mim, mas cujo
significado fiz questão de esquecer. Ele se perde no abraço materno e
eu... Bom, eu demoro meia hora para me levantar, ouço todas as vértebras
fossilizadas estalarem e, em meu passo de cágado, erro até o apiário,
pensando: “Este texto saiu bem mais triste do que o planejado”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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