Assim,
a batalha e a competição intelectual nos proporcionam ao menos a opção
de que as boas ideias derrotem as más. A esquerda, no entanto, parece
ter admitido derrota neste aspecto. Artigo do professor Juan Ramón Rallo
para o Instituto Mises:
Permita-me começar com uma proposição controversa: o Twitter possui o direito de suspender permanentemente a conta de Donald Trump.
Quem
mantém uma conta nesta rede social não emite opiniões no vazio, mas sim
dentro de uma plataforma que é propriedade privada. Tal propriedade é
fornecida ao público, mas é gerenciada internamente pelo Twitter. Na sua
casa, suas regras.
Ninguém
tem o "direito" de ter uma conta no Twitter à margem das condições e
dos critérios fixados pela empresa que é proprietária, fornecedora e
gestora da rede social.
A
propriedade privada e a livre iniciativa, em suma, amparam a
auto-regulação que visa a bloquear aqueles perfis que, por diversas
razões subjetivas, são considerados incompatíveis com a missão da
plataforma.
Tendo
tudo isso em mente, afirmo: foi uma péssima notícia — para o mundo e
principalmente para a própria esquerda — que o Twitter tenha optado por
suspender a conta de Trump.
E
foi uma péssima notícia não porque Trump seja o presidente dos Estados
Unidos (algo que é absolutamente irrelevante para se julgar a decisão do
Twitter). E não porque creio que as ideias políticas, sociais ou
econômicas de Trump merecem ser ouvidas por todos os confins do mundo. E
não porque creio que a atitude do Twitter nos aproxime de uma espécie
de comunismo censor chinês administrado por uma Big Tech privada.
Foi uma péssima notícia porque a medida inaugura uma tendência muito perigosa nas redes sociais: a compartimentalização ideológica.
Câmara de ressonância
Uma das maiores críticas feitas até o momento contra as redes sociais é que elas criam um efeito do tipo "câmara de eco":
as pessoas somente seguem, leem e escutam aquelas outras pessoas que
seguem sua mesma linha ideológica, e, consequentemente, não se expõem a
ideias distintas que contrariem seus conceitos.
Ou
seja, as pessoas apenas buscam reforçar aquilo que já pensam, mesmo que
seja por meio de "fake news", as quais raramente são desmentidas dentro
dessa câmara de ressonância de pensamentos homogêneos e acríticos.
Este
sectarismo explicaria, segundo a própria esquerda, a ascensão da
chamada "extrema-direita", ao permitir que os cidadãos predispostos à
sua mensagem somente recebam informações de seus congêneres ideológicos e
midiáticos.
No entanto, embora esta seja uma crítica corriqueira às redes sociais, isso não significa que seja uma crítica correta. As evidências mostram
que o efeito "câmara de ressonância" é sensivelmente menor nas redes
sociais do que em outros formatos de trocas de informações políticas,
como a mídia tradicional ou mesmo as meras conversas entre amigos
ideologicamente próximos. Nestas, o efeito ressonância é muito maior,
pois as dissidências permitidas são muito menores.
Com
efeito, as redes sociais podem acabar por expor os usuários a opiniões
contrárias às suas, e de maneira involuntária: os retuítes, as
publicações sugeridas, os compartilhamentos ou os debates abertos
constituem uma janela que conecta pessoas de ideologias muito diversas.
No entanto, para que isso ocorra, todos os usuários têm de integrar uma mesma rede social.
Quanto mais isolamento, menor a difusão
A expulsão de Trump pelo Twitter ameaça fragmentar as redes sociais de acordo com as ideologias.
Muitos seguidores de Trump anunciaram que deixarão de utilizar o Twitter e passarão a usar o Parler ou o Gab — uma reação perfeitamente lícita perante a decisão igualmente lícita do Twitter de fechar a conta de Trump.
(Parêntese: Amazon, Apple e Google suspenderam o acesso ao Parler,
o que mostra que realmente estão desesperados. Mas isso é reversível
judicialmente, pois houve uma explícita quebra de contrato. Na "pior"
das hipóteses, novas plataformas podem ser criadas por empreendedores.
Se uma pessoa como Elon Musk anunciar uma nova plataforma, certamente metade do mundo migraria para ela).
O
fato é que o efeito desta possível migração em massa será o de que, no
Twitter, haverá cada vez menos pessoas "de direita", ao passo que
Parler, Gab e futuras outras redes estarão repletas de direitistas. Ou
seja, o Twitter irá se tornar cada vez menos interessante para pessoas
de direita, e Parler, Gab e outras plataformas não serão nada atrativos
para pessoas de esquerda.
Consequentemente,
se cada tribo ideológica se isolar em sua própria rede social, a
comunicação (e o debate) entre tribos irá se extinguir. O debate estará
terminado.
Neste
arranjo, aí sim todos de fato estariam em câmaras de eco perfeitas, as
quais apenas reforçariam a ideologia própria sem contestação por parte
de outros ideologias (uma espécie de "espaço seguro" virtual).
Logo,
se a intenção da esquerda era evitar que as pessoas se convertessem a
ideologias que ela considera "radicais", o banimento de perfis do
Twitter irá gerar o efeito exatamente oposto: ao irem para outras
plataformas, e ao não mais estarem expostas a ideias contraditórias, as
pessoas poderão ainda mais facilmente ser "doutrinadas" por essas
ideologias "radicais".
Se
o Twitter estivesse realmente preocupado com as "implicações violentas"
que os tuítes de Trump supostamente estavam estimulando, bastava apenas
submetê-los a um sistema de supervisão e aprovação prévia em vez de
abolir uma conta com mais de 80 milhões de seguidores. Havendo outras
opções, a suspensão deveria ser algo totalmente de última instância.
No final, a atitude do Twitter — cujo CEO declarou abertamente se tratar de uma plataforma de esquerda
— foi simplesmente uma admissão de derrota no debate ideológico. "Se
não podemos vencer com argumentos, venceremos pela remoção física."
Ainda
que a suspensão de Trump acabe não gerando uma migração maciça de
usuários de direita para outras plataformas, o fato é que o Twitter se
institucionaliza como uma "plataforma esquerdista" (o que, vale repetir,
vai ao encontro das ideias de seus proprietários e funcionários) e censuradora, que suspende cada vez mais contas direitistas por temer o debate aberto.
Consequentemente,
e por necessidade, acabaremos por presenciar o divórcio, e cada vez
mais pessoas migrarão para redes alternativas. E então o debate franco e
aberto, tão defendido pela esquerda em nome da "liberdade de
expressão", terá sido exterminado exatamente por ela.
É o debate que faz a civilização
Para
que uma sociedade progrida intelectualmente, o choque de ideias é
fundamental em todos os níveis, principalmente entre as massas.
Expressar-se livremente é o mecanismo por meio do qual o ser humano
mantém a sociedade funcionando.
É
em decorrência da liberdade de expressão e da capacidade de articular
idéias que as pessoas conseguem apontar problemas, explicá-los,
solucioná-los e tentar chegar a um consenso.
O
debate aberto e sem censura é exatamente o que evita a predominância do
"pensamento de manada", garantindo uma voz para os grupos mais
marginalizados e excluídos — os quais, em tese, são o alvo da
preocupação da esquerda.
Assim,
a batalha e a competição intelectual nos proporcionam ao menos a opção
de que as boas ideias derrotem as más. A esquerda, no entanto, parece
ter admitido derrota neste aspecto.
Já
a compartimentalização ideológica serve apenas para consolidar as
ideias ruins em amplos setores da população (ainda que certamente também
possa proteger terceiros de serem intoxicados por más ideias).
E
para que essa batalha de ideias e essa competição intelectual possam
ocorrer, é necessário diminuir (e não aumentar) os custos de comunicação
entre ideias heterogêneas. Expulsar Trump — e outros possíveis
"direitistas" do Twitter não só não facilita, como, na realidade,
dificulta o diálogo entre ideologias.
Isso é uma péssima notícia para a civilização.
E
o fato de a esquerda ter em peso comemorado essa decisão significa
apenas uma admissão explícita de derrota na seara do debate público.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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