Sempre tem o trouxa dizendo que é livre concorrência, e que basta trocar de serviço. Acabamos de ver o que aconteceu com a rede social Parler. Numa ação concertada, Google, Apple e Amazon tiraram a rede social primeiro dos smartphones, e depois do ar. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Durante
a II Guerra, Hayek, em seu clássico O caminho da servidão, mostrara
como as diferenças entre fascismo e comunismo são tênues: ambas as
formas de governo centralizam o poder político e econômico nas mãos do
chefe de um agigantado Poder Executivo (seja esse chefe o Partido
Comunista ou a pessoa do Condutor). A diferença é que no comunismo o
chefe do Executivo “expropria” o setor produtivo e transforma tudo em
estatal, enquanto que no fascismo o Condutor arma um concerto entre
sindicalistas pelegos, empresários amigos e a economia de modo geral.
Na
Alemanha, empresas como a Bayer, a Volkswagen, a ThyssenKrupp e a
Bertelsmann tiveram em suas histórias a mão amiga do III Reich
coordenando o mercado teutão para si. Uma coisa engraçada dessa divisão é
que os nossos governos filocomunistas (os do PT) agiram imitando o
nazifascismo nesse quesito: aí estão a Friboi e a Odebrecht, campeãs
nacionais. É possível que se trate de uma imitação da
boliburgesiachavista, e Chávez, como já mencionei, tinha um mentor
neonazista. Por outro lado, os arqui-inimigos do petismo, os militares,
fizeram um governo mais aproximado do comunismo do que eles, abrindo uma
quantidade imensa de estatais. Nossos militares são pupilos de Comte,
que é um irmão mais velho de Marx, ambos filhos espirituais do
excêntrico Conde de Saint-Simon.
Já
a China é ambígua. Ela tem aquela montanha de empresas privadas que
querem negociar com o Ocidente, e juram de pé junto que o seu dono não é
o Partido Comunista Chinês. Por outro lado, é certo que nenhuma empresa
lá cresceu sem a anuência do Partido Comunista Chinês, e no momento em
que o Joesley deles (Jack Ma) resolveu criticar uma política do governo,
desapareceu.
Peculiaridade dos Estados Unidos
Nos
Estados Unidos, estamos assistindo a algo provavelmente sem
precedentes: a mais sólida democracia de massa ter o seu governo
superado, em poder, por companhias privadas. Hitler e Xi adubaram a
Bayer e o AliBaba, e por isso detinham poder sobre tais companhias. Já
os presidentes dos Estados Unidos, até onde saibamos, não adubaram o
Google, nem a Amazon, nem o Twitter, nem o Facebook. Ainda assim, a
prosperidade do seu país permitiu que gigantes se erguessem enquanto se
massificava essa tremenda novidade na história da humanidade que é a
internet.
De
todas essas quatro, só duas atuam na China: Google e Amazon. A China
tem a sua Grande Firewall, uma muralha, uma espécie de Cortina de Ferro
feita para censurar toda a internet estrangeira. Dentro da Grande
Firewall, a internet está sujeita ao controle do Partido Comunista
Chinês, com um exército de censores burocratas. Em português, o melhor
material sobre a censura da internet chinesa provavelmente é o
documentário do Spotniks sobre a covid. Para se ter uma ideia: chinês
não tem WhatsApp, tem um aplicativo paraestatal chamado WeChat, sujeito
ao escrutínio de burocratas, e capaz de censurar automaticamente alguns
termos e expressões, em nome do combate às fake news. Os chineses comuns
(gente que só quer tocar sua vida, como nós) desenvolvem
quotidianamente uma linguagem cifrada para escapar à censura e, à medida
que as gírias vão sendo conhecidas, mais palavras vão sendo censuradas
do aplicativo.
O
Google tem desde 2006 o Google China, sediado na China, e que opera
segundo os ditames do Partido Comunista Chinês. Quanto à Amazon chinesa,
passou a existir quando Bezos comprou uma empresa chinesa chamada Joyo.
Facebook
e Twitter são banidos da China. É digno de nota que, a despeito disso,
as relações exteriores da China sejam entusiastas do Twitter. Antes que
algum ocidental pense que se trate de embaixadores com sangue quente,
leia o texto de Leonardo Coutinho a respeito, neste mesmo jornal. É tudo
coordenado desde Pequim, e os embaixadores vêm dando altos faniquitos
no Twitter mundo afora. O último deles foi contra a Austrália,
acusando-a de assassina de afegãos com uma imagem falsa. Pergunte se o
Twitter pune alguma embaixada chinesa. Nada, pune só Trump.
Será
que o Twitter e o Facebook não podem pensar que vão recuperar o valor
de suas ações se ingressarem na China, que é o maior mercado do mundo, e
além disso o maior mercado regulado do mundo? Mercado regulado é o
sonho do empresário monopolista. E Pequim não aceita empresários
insubmissos.
Acontecendo
isso, teremos mais uma situação sem precedentes nos Estados Unidos:
gigantes monopolistas nacionais submissos a uma potência estrangeira
totalitária.
Espionagem doméstica
Que
o Google é espião, já sabemos desde Snowden, que vazou em 2013 para
Glenn Greenwald a parceria entre Obama e a gigante, usada para espionar
inclusive Dilma Rousseff. (Na época, nossa esquerda ainda era anti-EUA.
De certa forma, talvez ainda seja: está com os norte-americanos fãs das
Big Techs, os quais gostam mais de Xi Jinping do que de Trump, e talvez
até do que de Biden.)
Entre
2013 e 2021, o mundo mudou bastante. O Facebook certamente não era
usado (como é hoje) por cidadezinhas de interior como lugar para
classificados, e o WhatsApp sequer tinha sido comprado pelo Facebook.
Agora, em 2021, o WhatsApp acaba de obrigar seus usuários a, caso
queiram permanecer usando, aceitar o compartilhamento de dados entre as
duas empresas, o que implica um homem – Mark Zuckerberg – tendo acesso a
essa imensa capilaridade de informação provocada pela difusão da
internet móvel, e podendo vendê-la a quem quiser. Os Estados Unidos têm
lei antitruste, e por que o país não age contra esses monopolistas, é um
mistério.
O
fato é que as Big Techs fazem o que querem, sem ninguém as segurar.
Você provavelmente já ficou espantado ao ver que conversou com alguém,
offline, sobre comprar algo, e súbito começou a aparecer propaganda para
você daquilo que pensava em comprar. Então você concluiu que um
smartphone é um instrumento de vigilância, que nos ouve pelo microfone e
nos vê pela câmera.
Já
vi gente em redes sociais brasileiras falando espantada sobre isso, mas
infelizmente só encontrei matérias em inglês sobre o assunto. Aqui está
uma da CBS News do começo de 2018, em que uma ex-gerente do Facebook
diz que isso é apenas “muito improvável”. Nos textos da Fox e da Forbes,
ambos do fim de 2019, lemos taxativamente que as Big Techs estão
espionando, sim, e no da Fox há algumas instruções para mexer nas
configurações e minorar o problema. Este outro site explica melhor o
funcionamento do OK Google. Agora, fica a questão: e se o Google quiser
gravar algumas pessoas e vender isso para a China ou outra ditadura,
como ficamos? Quem vai segurá-lo?
Mais perguntas
Outras
perguntas que temos a fazer são: se normalizarmos a censura das Big
Techs, quem vai impedir os bancos virtuais de pagarem os seus clientes?
Vimos já como há quem peça ao PayPal e PagSeguro o boicote a Olavo de
Carvalho. Agora é com Olavo, depois pode ser com qualquer outro
reacionário que diga coisas “transfóbicas” como “homens têm pênis”, ou
use alguma “racista” como “esclarecer” e “denegrir”.
Nisso,
sempre tem o trouxa dizendo que é livre concorrência, e que basta
trocar de serviço. Acabamos de ver o que aconteceu com a rede social
Parler. Numa ação concertada, Google, Apple e Amazon tiraram a rede
social primeiro dos smartphones, e depois do ar.
O Estado existe por uma série de motivos. Um deles é impedir o arbítrio de quem tem a força da grana, em vez da do voto.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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