Será que Ruy Castro insistiria em sugerir suicídio (real ou simbólico) se soubesse que há tanto para corrigir dentro de si? Via Gazeta, a crônica diária de Paulo Polzonoff Jr.:
Foi
com algum espanto, para não dizer decepção, que li a crônica “Saída
para Trump: matar-se”, em que Ruy Castro diz, sem nem uma pitadinha da
elegância que lhe é característica, que Donald Trump deveria se matar. E
Jair Bolsonaro deveria imitá-lo. “Para o bem do Brasil, nenhum minuto
sem Bolsonaro será cedo demais”, terminava o panfleto indigno do autor,
mas digno do Prêmio Hélio Schwartsman de consequencialismo.
Castro
(cujo bisneto fictício já figurou nestas páginas falando de funk)
compara o suicídio de Trump (e, por extensão, de Bolsonaro) ao de
Getúlio, que teria transformado o ditador do Estado Novo num mártir do
próprio ego. Ele imagina as potenciais viúvas de Trump e Bolsonaro como
as viúvas do getulismo, que ignoram as prisões, as torturas, as
perseguições do fascistinha tupiniquim, preferindo exaltar feitos como a
CLT e outras excrescências.
Não
consigo alcançar o nível de indignação paranoica que leva uma pessoa a
arriscar todo o seu legado intelectual numa crônica, a ponto de defender
que um ser humano se mate com um tiro no coração (pelo efeito
simbólico). O raciocínio de que a ação política e até mesmo as palavras
tortas de um líder sejam mais importantes do que o ato de respirar e
comer e rir e dormir é algo que me escapa. Ainda mais vindo de alguém
como Ruy Castro, que sempre transbordou uma mistura de inteligência e
leveza muito próxima da ideal.
O
mais triste desse episódio é que, como toda tentativa de suicídio, a
crônica de Ruy Castro soa como um pedido de ajuda do autor. Quer ele que
o abracemos em sua indignação desesperada? Ou que nos solidarizemos com
uma visão de mundo (a meu ver pequena) que põe a culpa por todos os
nossos males em indivíduos que acreditamos (equivocadamente) ter um
poder absoluto? Ou será que o que Ruy Castro quer é que seu desejo
perverso seja realmente levado a cabo e ele entre para a história como o
Homem Que Fez Fulano Se Matar?
Seja
lá o que for, dá pena ler a crônica de Ruy Castro. Ao chegar ao ponto
final, a sensação para mim foi a de encontrar o bom texto, aquele que
antigamente colocávamos a serviço da informação, da verdade e de outros
valores nobres, caído no chão, os pulsos abertos em mais uma tentativa
vulgar e frustrada de estudar empiricamente aquilo que Camus chamou de o
único “problema filosófico verdadeiramente sério”.
Por que ainda mantenho uma conta no Twitter
A
indignação extremada de Ruy Castro, essa revolta capaz de nublar o
talento e anular a graça, encontra eco no niilismo inerente ao
progressismo contra o qual Trump, o Abominável, se posiciona. O curioso é
que essa mesma indignação extremada é capaz de contaminar os que lutam
contra o progressismo niilista. No final das contas, portanto, tudo o
que resta é o desespero impotente.
Aos
indignados & revoltados de plantão, irmanados nesse niilismo
necrófilo, restam as palavras da escritora Etty Hillesum, a “Simone Weil
judia”. Assassinada em Auschwitz com apenas 29 anos, Hillesum foi mais
um entre milhões de cadáveres, produto do eugenoconsequencialismo (me
deixa que acordei neologista) suicida de Adolf Hitler – aquele mesmo do
bigodinho, e cuja maldade ainda está distante da do homem alaranjado ou
do que fala “talquei”.
Palavras
que, para o bem da minha sanidade mental nesta segunda-feira de chuva,
foram compartilhadas pelo escritor Rodrigo Duarte Garcia no Twitter, em
meio à eterna guerra de insultos, ameaças de debandada para o Parler e
um ou outro vídeo de gatinho. Fico imaginando se Ruy Castro teria
coragem de expor sua “teoria da virtude do suicídio alheio” depois de
ler o que escreveu uma vítima real de crimes reais de um tirano real – e
não uma vítima emocional de bazófias ditas por um bufão.
É
a Ruy Castro que ofereço as palavras de Hillesum, escritas no diário
que ela nos legou. Mas não só a ele. Eu as ofereço também a todos os que
diariamente se descabelam diante do ícone do passarinho azul. Todos os
que vivem apontando a imundície alheia (entre os quais me incluo) sem
jamais refletir sobre a sujeira que se acumula todos os dias nos cantos
cheios de musgo da nossa alma:
“A
imundície dos outros está também em nós. E eu não vejo nenhuma outra
solução, nenhuma solução, mesmo, que não seja olhar para dentro e
arrancar tudo o que há de podre em nossa alma. Eu não acredito que
possamos corrigir qualquer coisa no mundo exterior que não tenhamos
ainda corrigido em nós mesmos. A única lição que essa guerra nos ensinou
é procurar dentro de nós mesmos, e não em outro lugar”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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