No gambito da Justiça não há derrotados. O uso de tecnologia e a criação de novas soluções, seja por parte dos tribunais, seja em parceria com empresas de tecnologia jurídica da iniciativa privada, as Lawtechs e Legaltechs, são jogadas de mestre. Artigo de Daniel Marques, publicado pela Gazeta:
A
série da Netflix O Gambito da Rainha tornou-se um fenômeno mundial. Em
apenas 28 dias, foi assistida por 68 milhões de pessoas. As pesquisas
por “tabuleiro de xadrez” no eBay aumentaram em 250%. O romance The
Queen’s Gambit, que inspirou a série, está na lista de mais vendidos do
New York Times depois de 37 anos da primeira edição. Esse é um exemplo
de como as tecnologias baseadas na cultura da quarta revolução
industrial conseguem, por meio das plataformas, ganhar escala, crescer
exponencialmente e atender eficazmente milhões de pessoas, oferecendo
preços mais acessíveis e democratizando o acesso.
Essas
características, somadas a uma boa experiência centrada no usuário,
geram uma revolução no acesso a produtos e serviços, permitindo que
milhões de pessoas usufruam de bens que seriam impossíveis sem essa
estrutura. Vemos isso nas plataformas de streaming, nas empresas de
marketplace, nos aplicativos de mobilidade urbana e nas Lawtechs e
Legaltechs, que são empresas de tecnologia jurídica.
As
despesas totais do Judiciário correspondem a 1,5% do PIB brasileiro,
contra 0,5% do PIB na média dos países da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE). Temos um estoque de processos na
ordem de 77 milhões e, se somarmos as ações novas estimadas para o ano
passado, estaríamos falando de um volume de cerca de 114 milhões de
processos. Temos 91 tribunais com diversos sistemas que não se comunicam
entre si rodando ao mesmo tempo.
Em
vista desses desafios de dimensões continentais, o Judiciário
brasileiro não está parado. Tem iniciativas maravilhosas que buscam
trazer a Justiça para nova realidade tecnológica com o objetivo de
atender melhor as demandas. O relatório anual do Conselho Nacional de
Justiça, o “CNJ em Números”, traz uma radiografia geral dos tribunais,
permitindo ter uma visão global da Justiça para ações estratégicas. O
Modelo Nacional de Interoperabilidade (MNI) busca integrar os diversos
sistemas dos tribunais respeitando suas peculiaridades. Recentemente
saiu uma recomendação do CNJ para os tribunais criarem APIs, uma
interface de aplicação que permite a comunicação e troca de dados entre
os diversos sistemas, melhorando o acesso aos processos judiciais por
parte dos advogados.
O
ministro Luiz Fux, que tomou posse como novo presidente no CNJ em
setembro, apresentou um plano acelerado de digitalização da Justiça. A
Resolução 335 do CNJ cria uma nova plataforma capaz de integrar por meio
de APIs as diversas soluções dos tribunais, gerando sinergia e
colaboração. Há também o incentivo para a resolução de conflitos por
meio da mediação e da conciliação on-line, com a Resolução 358 do CNJ.
Devido
à pandemia, o Judiciário adotou as audiências on-line, gerando um ganho
de eficiência de até 40%, como relatado pelo Tribunal de Justiça do
Paraná. O resultado foi tão positivo que decidiram criar os tribunais
100% digitais, mas sempre dando opção às partes de atuarem
presencialmente, e assim não excluir ninguém do acesso à Justiça. Em
outubro, o desembargador Claudio de Mello Tavares anunciou o Tribunal do
Rio de Janeiro como a primeira corte a implementar o juízo 100%
digital.
O
“gambito da rainha”, além de ser o nome da série do Netflix, é uma
abertura (uma sequência de lances iniciais da partida) onde se sacrifica
uma peça (no caso, um peão) para avançar no jogo. No entanto, no
gambito da Justiça não há derrotados. O uso de tecnologia e a criação de
novas soluções, seja por parte dos tribunais, seja em parceria com
empresas de tecnologia jurídica da iniciativa privada, as Lawtechs e
Legaltechs, são jogadas de mestre.
É
um verdadeiro xeque-mate contra a ineficiência: lança o Judiciário
brasileiro para os moldes de transparência e inovação dos tribunais mais
modernos do mundo; promove ainda mais o preceito constitucional da
publicidade dos processos – onde cada cidadão pode ter acesso e conhecer
os meandros de qualquer processo judicial, desde que não corra em
segredo de Justiça; diminui a assimetria da informação no Judiciário;
traz mais transparência e segurança jurídica – oferecendo subsídios para
que os cidadãos, instituições públicas e privadas possam ter uma
radiografia da Justiça brasileira e tomar decisões estratégicas.
A
união entre o Judiciário e as Lawtechs acelera a criação de um ambiente
tecnológico que democratiza ainda mais o acesso à Justiça, gerando mais
eficiência e criando uma cultura da conciliação que permitirá atender
melhor os anseios da população. Afinal, toda transformação tecnológica
só tem sentido se tiver o ser humano como centro, e qualquer retrocesso
seria tirar o cidadão como protagonista de seus direitos e deveres.
Daniel Marques é diretor-executivo na Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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