O
presidente Bolsonaro escolheu bons parceiros para a tarefa de produzir
vacinas contra a Coronavid: o Imperial College, de Oxford, centro
mundial de excelência, e os laboratórios anglo-suecos AstraZeneca, cujo
trabalho na área farmacêutica é muito respeitado. No Brasil,
trabalhariam com o Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, com mais de cem anos
de trabalho competente.
O
Governo brasileiro assinou contrato de compra de vacinas. Então, cadê
as vacinas? O Reino Unido já utiliza as vacinas de Oxford, a Anvisa já
deu sinal verde ao imunizante, e por que não aparecem as vacinas prontas
nem o material ativo para que a Fiocruz o prepare em seus laboratórios?
Oxford e AstraZeneca cumprem seus contratos. Pode ser que, no contrato,
determinem que vacinas e materiais destinados ao Brasil sejam
produzidos no Instituto Serum, da Índia. Tudo bem. Mas como explicar a
Operação Tabajara em que Bolsonaro e o general da Saúde envolveram o
Brasil, pedindo que a Índia quebrasse nosso galho, alugando um avião e
no fim não conseguindo nada?
Há
várias versões correndo. Uma delas diz que as vacinas seriam enviadas
ao Brasil 60 dias após a assinatura do contrato, e falta tempo para
completar esse prazo. Mas há um documento que resolve todos esses
problemas: que é que diz o contrato? O Brasil teria mesmo comprado só
dois milhões de doses, quando precisa de 300 milhões (ou 200,
descontando a CoronaVac)?
Alô, parlamentares, STF, Governo: cadê o contrato? É a chave da história.
Aos fatos
Como
dizem o presidente e seus assessores, o governador João Doria usa calça
apertada, sapatênis, gravatas de marca. Mas, sem as “vachinas” que o
Governo paulista e o Butantan contrataram, não haveria vacina nenhuma no
Brasil. E o que há por aqui é pouco: o total de compras do Butantan
atinge 46 milhões de vacinas, das quais seis foram entregues e mal dão
para iniciar a imunização. Até ontem, boa parte do material já comprado
pelo Butantan estava parada na China, sabe-se lá por que (também está lá
o lote destinado à Fiocruz).
Que
é que está acontecendo? Produtos destinados à produção de remédios não
podem simplesmente ficar parados, sem explicação. Há quem diga que é
retaliação chinesa às declarações provocativas do presidente e de seus
assessores. Não importa: é inadmissível.
Por onde anda o Itamaraty?
Às alternativas
É
preferível imaginar que o problema seja outro. Mas, se for retaliação, o
Brasil também vende à China produtos de que necessitam. O comércio é
bom para os dois lados, e sua redução é ruim para ambos. De qualquer
forma, há alternativas no mercado para vacinação: a Índia tem produtos
que não fazem parte de sua vacinação nacional, a Rússia tem a Sputnik 5 –
e na semana que vem inicia testes conjuntos com a AstraZeneca e a
vacina de Oxford. As duas vedetes do mercado, Pfizer e Moderna, com
vacinas produzidas sem vírus, talvez não tenham produção suficiente para
o Brasil. O problema é que tudo isso atrasa a vacinação, já atrasada.
Melhor seria o Itamaraty entrar no jogo.
Do chão não passa
O
final da ajuda de emergência (o coronavoucher) já está custando caro ao
presidente Bolsonaro: os que aprovam sua administração caíram de 38%
para 32%. A avaliação negativa já supera a positiva: subiu de 35 para
40%.
A
queda coincide com a má opinião sobre a luta contra a Covid: 52%. O
número vem subindo desde dezembro – a alta agora foi de 4%.
Bolsonaro
já caiu e já subiu. Faz parte da oscilação das pesquisas. Parece,
porém, que nas atuais circunstâncias, visto como pouco eficiente na
gestão da pandemia, e quando desaparece o coronavoucher, seja pouco
provável uma oscilação positiva. Algo semelhante ao coronavoucher é do
que precisa.
A eleição
Se
as eleições fossem agora, Bolsonaro provavelmente ganharia. Nada de
avassalador, mas sólido: 28%. Bem longe, seguem-se Sérgio Moro (12%),
Ciro Gomes e Fernando Haddad (11%), Luciano Huck (7%), Guilherme Boulos
(5%), João Doria (4%), João Amoêdo (3%) e Luiz Mandetta (3%).
Em
segundo turno, a pesquisa indica que Moro venceria Bolsonaro, mas num
quase empate, dentro da margem de erro: 36% a 33%. Nas últimas
pesquisas, Bolsonaro vencia Moro por 36% a 34%. Mas é só Moro: outros
candidatos seriam todos derrotados pelo atual presidente. Haddad (42 a
37), Ciro (40 a 37), Boulos (44 a 31) e Huck (38 a 34). Importante: em
alguns casos, a diferença pode se ampliar ou se desfazer durante a
campanha.
A surpresa
A
pesquisa foi realizada pelo IPESPE a pedido da corretora XP, que tem
interesse em manter informados seus investidores. A surpresa foi Luciano
Huck, que não tem partido, não sabe se vai ser candidato, mas que só
perderia de Bolsonaro por 38 a 34 – na verdade, empate técnico, dentro
da margem de erro. Mas faltam dois anos, até lá tudo pode (e deve)
mudar. Afinal, lá por 2016, quem imaginaria a disparada de Bolsonaro?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário