Se há 20 anos uma cigana me dissesse que eu estaria escrevendo sobre Lombroso em pleno ano de 2021, não acreditaria. Via Gazeta, a crônica de Paulo Polzonoff Jr.:
Há
bons vinte anos, uma daquelas ciganas que populavam a praça Osório me
pegou pelo braço e, com força incomum para uma mulher de um metro e
meio, disse que queria prever o meu futuro. Com um gesto brusco, tirei
meu braço das garras da adivinha. “Estou com pressa”, disse. “E não
tenho dinheiro”, emendei.
Mas,
por algum motivo que me escapa à memória, não saí do lugar. O que deu a
ela a oportunidade de me pegar pelo braço de novo. Olhei para um lado.
Para outro. Pensei em sair correndo, mas temi ser visto como alguém que
grita “Socorro!” nesse tipo de situação.
Lembrei
que tinha R$10 no bolso de trás da calça e, enfastiado, deixei que a
cigana fizesse o que se esperava dela. Ela espalmou minha mão e começou a
fazer cócegas pelas linhas da vida, do amor e do trabalho. Tudo ia
muito bem (eu seria um bem-sucedido jornalista e estaria casado com a
mulher da minha vida), quando a cigana parou, arregalou os olhos e me
sussurrou num tom ameaçador: “Dia 13. De janeiro. De 2021. Guarde esse
dia”.
“Tem
um papel e uma caneta aí?”, tive vontade de perguntar cinicamente. Mas o
pudor me impediu. Só que devo ter arqueado as sobrancelhas ou
arregalado os olhos num sinal de interesse sincero, porque a cigana
continuou. “Nesse dia, você vai escrever um texto sobre Césare
Lombroso”.
Aí
já era demais. Por que eu escreveria um texto falando de Lombroso, o
doidinho que acreditava que as características físicas influenciavam no
caráter das pessoas? Impossível que a frenologia viesse a prosperar nos
próximos vinte anos. “Moça, eu tenho um compromisso”, menti, na
esperança de que ela se comovesse, pegasse meus R$10 e me deixasse em
paz. Mas ela parecia obcecada. Vai ver era uma estagiária nas artes
divinatórias e quisesse mostrar serviço.
“Você
vai escrever um parágrafo dizendo que a ciência tem muitos motivos para
se orgulhar, mas também motivos de sobra para se envergonhar. E daí vai
citar Cesare Lombroso. Tudo por causa de um tal de Átila Iamarino”,
previu ela. E, a essa altura, eu não estava entendendo nada mesmo. Digo,
aquele eu do futuro estava certo em sua (minha?) platitude. A ciência
tem motivos para se orgulhar e se envergonhar. Dã. Só se eu estivesse
num dia pouco inspirado para escrever uma obviedade dessas. Além disso,
quem é Átila Iamarino?
Já
cansado daquele oráculo, e com certo medinho de vir a furar meus
próprios olhos num futuro nem tão remoto assim, dei por encerrada a
consulta. Paguei o resgate de R$10 e recuperei a liberdade do braço.
Antes de dar as costas e conquistar outro cliente com seus gestos
delicados, a cigana se virou para mim e disse: “Michal Kosinski”.
Frenologia 2.0
Na
segunda-feira (11), a revista científica “Nature” cedeu seu prestigiado
espaço para a publicação de uma pesquisa feita pelo psicólogo Michal
Kosinski. O professor da igualmente prestigiada Universidade de Stanford
afirmou que é possível usar o reconhecimento facial para identificar a
orientação política das pessoas.
“Que
maravilha!”, pensa você. Assim vai dar para detectar o bolsonarista
pelo tamanho do nariz ou o petista pelo formato das orelhas. “Será
possível separar o joio do trigo”, concluirá alguém que sempre se inclui
entre o trigo, nunca entre o joio. De acordo com a Agência Estado,
Kosinski cita uma experiência recente que usou a tecnologia de
reconhecimento facial e a inteligência artificial e que identificou
corretamente a orientação política em 72% dos casos.
Assim,
Kosinski consegue ressuscitar as teorias de Cesare Lombroso. Em meio a
tantos termos bonitos como “inteligência artificial” e “algoritmos”,
quase nem dá para perceber a imoralidade da experiência e as
consequências trágicas da possibilidade, ainda que teórica, de se
identificar “cientificamente”, e por meio das características físicas,
os conservadores e os progressistas.
E,
antes que um leitor mais exaltado comece a sonhar com as aplicações
práticas do neolombrosianismo, vale dizer que, em 2017, Kosinski
publicou um artigo dizendo que era possível usar o reconhecimento facial
para identificar a orientação sexual das pessoas.
E o Átila?
Átila
Iamarino publicou um artigo intitulado “Autoritarismo necessário”. Fui
ler o texto para lá de confuso e encontrei o mesmo catastrofismo
oportunista de sempre. E um uso, digamos, heterodoxo da lógica textual.
Em
compensação, por algum motivo Átila me lembrou Lombroso, que me lembrou
Kosinski, que me lembrou a cigana de 20 anos atrás. E essa história
toda me lembrou que nada é capaz de impedir o homem de repetir os erros
do passado quando ele acredita na virtude de suas ações. Estão aí os
tribunais raciais nas universidades e o “autoritarismo do bem” de
Iamarino que não me deixam mentir.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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