Se eu pudesse, batizaria este período iniciado com a pneumonia de Wuhan como Guerra de Nervos. Bruna Frascolla via Gazeta do Povo:
Otimista
que sou, acho que no futuro, após o colapso da China, iremos lançar luz
sobre o que acontece por agora. Algo como a queda do Muro de Berlim,
talvez a queda do Firewall da China, marcará esse colapso, e virá à tona
a documentação sobre grandes operações de espionagem e propaganda
chinesa, com parceiros no Ocidente. E, se eu pudesse, batizaria este
período iniciado com a pneumonia de Wuhan como Guerra de Nervos.
O medo do apocalipse indefinido
Anos
atrás, quando pós-graduanda, descobri um método inofensivo de vingança.
Se a turma do #NãoVaiTerGolpe era a dona do pedaço e mandava no
ambiente que eu frequentava, eu dava um pulo nas redes sociais daquele
povo e via que o sistema de crenças fazia deles uns coitados.
Imagine
ser uma mulher e achar que, não obstante seus títulos acadêmicos e
emprego vitalício, você nunca vai deixar de ser uma inferior por causa
do patriarcado.
Imagine
crer que estamos sempre à beira de um apocalipse difícil de conceituar
(golpe, ditadura, turbotecnomachofascismo), nunca descrito com precisão,
mas que é certamente horrível. Eles viviam no mesmo lugar que eu,
tinham até poder sobre mim, mas nada podia aplacar o seu desespero nem
trazer felicidade. Então eu pensava que saúde mental vale ouro, e eu não
pagaria aquele preço para ascender na profissão.
Por
que entrei na academia, então? Ora, todo mundo era assim meio de
esquerda, ou de esquerda inteira, mas não reinavam o desespero e a
loucura na universidade. Se antes a esquerda remetia àquele povo festivo
afeito às artes, a partir de 2016 ela se tornara uma multidão de
desesperados. E destruíra qualquer verniz intelectual da universidade.
Agora,
em 2021 eu observo o mesmo clima de desespero se espalhando por nichos
da sociedade que antes não tinham nada a ver com a esquerda, nem com a
universidade, exceto talvez o fato de serem nichos urbanos.
Do Twitter de Freixo à televisão
Vamos
a um causo ilustrativo. Abro as redes sociais e vejo que Freixo está
denunciando a tentativa de compra de vacinas na Índia por laboratórios
privados brasileiros. Nada de novo sob o sol: Freixo é um estatista tão
despudorado, mas tão despudorado, que defende a CEDAE. (A estatal de
saneamento que deixou a população do Rio de Janeiro com água marrom.)
Não
vendem para nós há meses a ideia de que, se Bolsonaro fizesse uma
campanha de vacinação com qualquer vacina experimental, o apocalipse
iminente seria cancelado?
Ou
bem você quer agilizar a entrada de vacinas a qualquer custo, ou bem
você faz questão absoluta de uma vacinação estatal centralizada, coisa
sempre mais demorada do que compras pontuais por agentes privados. Eu
entendia que o discurso no telejornalismo tradicional era focado na
vacinação, pouco importando se privada ou estatal, de modo que Freixo
podia ser encarado, nesse quesito, como um esquisitão minoritário, um
dinossauro dos anos 70.
No
entanto, um ou dois dias depois, uma familiar vem correndo me perguntar
horrorizada se eu sabia o que os laboratórios estavam fazendo. Ela
acabara de ver na TV que eles queriam comprar vacinas para o setor
privado, de maneira que só os ricos poderiam se vacinar; que eu ia
morrer e ela ia morrer, no que dependesse dos laboratórios. Minha cara
de paisagem, minhas perguntas e respostas, só serviam para enfurecê-la.
Ela sabia, com certeza inabalável, que o setor privado brasileiro faria
com que o preço da vacina subisse lá na Índia, e nos deixaria à morte.
Fui
então ao Twitter daquele divulgador pró China, Átila Iamarino, para ver
a quantas ele andava, e eis que estava a toda carga contra a importação
de vacinas pelo setor privado. De Freixo para Átila, de Átila para a
TV, da TV para a boca de uma mulher normal que nunca votou no PSOL.
O credo antibolsonarista
O
pensador oficial da mania da covid é Átila Iamarino. (A covid não é
gripezinha, nem matou milhão até agosto do ano passado.) A mania da
covid faz parte de um credo oficial de boa parte do jornalismo que pode
ser fixado assim: Bolsonaro e Trump — não a China com seus campos de
extermínio racial, nem as Big Techs com sua espionagem em massa — são o
pior problema do Brasil e o mundo. Mas “pior problema” talvez ainda soe
comedido demais. Bolsonaro e Trump são questão de vida ou morte para o
cidadão comum, e devem ser combatidos diuturnamente, do contrário um
apocalipse indefinido irá se instalar entre nós. Assim como o petista
não sabia dizer se o apocalipse era o impeachment, nem quantas fases
tinha o “golpe”, o antibolsonarista não sabe dizer ao certo em que
consiste o apocalipse.
Mas
o credo é tão certo quanto o fato de que 1 + 1 é igual a 2, ou de que o
diabo é ruim. Daí inferem que todo mundo que não pensa como eles só
pode ser alguém teleguiado por Bolsonaro, que teria um poder
inexplicável de teleguiar todo mundo que não adote o credo.
Esse
credo pegou antipetistas tradicionais e eleitores de Bolsonaro, que
ficam nas redes sociais dando lastimáveis espetáculos de desequilíbrio
mental que me recordam aqueles que eu assistia na esquerda em 2016. O
mundo e a democracia não vão acabar se Dilma sofrer um impeachment, se
Temer fizer a “PEC da morte”, se Bolsonaro for eleito etc. Eu tenho medo
da China, das Big Techs e de certos ministros do STF, mas não acho que o
mundo vai acabar por isso. Enquanto houver o que comer, o que ler, e
com quem conversar, não vejo apocalipse, nem me desespero.
E se fosse ao contrário?
Me
ocorreu então me colocar no lugar daqueles que acham que sou teleguiada
por Bolsonaro. Digo um milhão de vezes que não ligo pra Bolsonaro, nem
acompanho o que ele diz, mas não adianta. Por outro lado, se eu dissesse
à minha parenta que ela é teleguiada por Átila Iamarino, ela, que só vê
TV e não tem Twitter, diria a mesma coisa que eu digo de Bolsonaro, e
estaria correta. Às vezes eu penso algo, e depois descubro que Bolsonaro
disse algo parecido. Qual seria o análogo à TV no meio da história,
aquilo que estaria me teleguiando?
Vou
refazer o percurso da última vez que a minha opinião coincidiu com a de
Bolsonaro. Vi a confusão no Capitólio americano, não entendi nada, e
esperei saírem fontes confiáveis. Eu é que não ia ligar a televisão,
pois sei que está infestada de analistas que repetem a CNN dos Estados
Unidos, que é progressista fanática. (É woke, como dizem lá.) Abro o
YouTube para ver se encontro algo. O TimCast aparece, mas ele próprio
não está entendendo nada, e diz que vai viajar para Washington, para ver
de perto. Depois aparece Tucker Carlson, o famoso comentarista da Fox
News, que comecei a acompanhar desde os protestos do Black Lives Matter.
Ele me ganhou por defender enfaticamente a igualdade de direito de
todos os cidadãos, independentemente de sua cor. Segundo Tucker Carlson,
os protestos no Capitólio atraíram gente comum, não só fanáticos. Ele
reprovava a quebradeira e a violência com toda ênfase, mas não deixava
de chamar a atenção ao fato de que aquilo tinha uma causa, e não eram só
malucões que estavam ali. A causa da invasão era o descrédito da
apuração das eleições, descrédito que tinha que ser sanado para o bem da
democracia. Concordei com Tucker, e pensei que nós não estamos em
condição muito melhor do que o vizinho ao Norte.
Depois,
vi vídeo de Alexandre Garcia, com pensamento parecido, e ênfase no
Brasil. Em seguida Bolsonaro repetiu o raciocínio e causou manchetes que
interpretaram isso como ameaça de golpe. (É possível que ele tivesse
mesmo a intenção de fazer uma ameaça, mas é possível também que
estivesse apenas repetindo Alexandre Garcia. Suspendo o meu juízo a esse
respeito.) Na verdade, depois que eu comecei a assistir a Alexandre
Garcia, comecei a compreender melhor as declarações de Bolsonaro, e acho
plausível que ele tenha encontrado no velho assessor de Figueiredo uma
figura confiável o bastante para embasar as próprias opiniões.
Ao
contrário da minha família, eu busco proativamente informação por meio
da internet. Ela liga a TV e assiste o que está passando. Penso que seja
esse o fator político mais importante para explicar as diferenças de
pensamento.
Leitor ativo da internet X leitor passivo tradicional
Existe
quem assista a TV e leia jornais impressos (que não migraram para o
digital) sem pôr em questão a seriedade da informação, e quem ouça os
acadêmicos sem considerar que valham tanto quanto o menino do DCE. Usam a
internet, é claro, mas fazem isso mais para reforçar suas convicções
formadas em ambiente analógico do que para buscar novas fontes de
informação (ou de desinformação).
Quantos
leitores e espectadores serão proativos na internet? Creio que não
poucos, dado o fato de Bolsonaro ter virado presidente sem tempo de TV, e
ter arrastado consigo para o legislativo ilustres desconhecidos.
Contribuiu para isso, creio eu, o fato de a televisão ter adotado há
muito uma agenda progressista e antievangélica. Os progressistas nunca
foram numerosos na população geral, e os evangélicos só crescem: como
seria possível a TV manter sua credibilidade?
O
jornalismo tradicional, feito para o leitor passivo, está em crise.
Frente a isso, penso em três opções para os veículos quebrados: 1)
seguir com o discurso woke até naufragar, por questão de princípios, tal
como o comandante do Titanic; 2) embolsar dinheiro chinês e seguir com
discurso woke para não naufragar; 3) parar de querer agradar woke e
jogar os progressistas pela janela, para manter o público e não quebrar.
Quem não optou pelo 3 está com o 1 ou com o 2.
Mas
isso é só um pedaço da história. O novo capítulo, recém inaugurado, é o
controle da internet via Big Techs, que fica pra próxima.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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