Se começarmos a pensar em todo o tipo de “cancel culture”, há um padrão que se torna familiar: quando se começam a abrir brechas na imposição da liberdade, o que surge naturalmente é a sua supressão. Artigo de João Pires da Cruz, publicado pelo Observador:
Naquilo
que é a minha (fraca) atividade enquanto físico, a maior parte do tempo
é dedicada àquilo que se designa por fenómenos emergentes. Fenómenos
emergentes são fenómenos que não se observam nos componentes de um
sistema, mas emergem da correlação/interação desses mesmos componentes.
Ou seja, se olharmos isoladamente para um “átomo” não conseguimos
observar o fenómeno, mas quando olhamos para a “mistura” lá nos aparece.
Coisas que resultam da ligação entre eles. Há quem lhe chame
“complexidade”, que é uma expressão que detesto porque me soa sempre a
“não percebo matemática”. Um bom exemplo disto são os fenómenos
económicos, porque a economia resulta da relação entre as pessoas e não é
observável se olharmos para uma pessoa individualmente.
Estes
sistemas são muito complicados de estudar porque a matemática que temos
começa a falhar. A geometria e o cálculo só “gostam” de coisas
completamente dependentes e iguais, em que um metro é um metro em todo o
lado, e a estatística só gosta de coisas independentes, para que o que é
diferente se possa fazer igual. O “meio termo” é sempre um problema
matemático cabeludo e isso leva, normalmente, a má física e a má
qualquer-ciência-que-daí-derive. O que daí não derivar não é ciência,
logo não tem problemas, só respostas parvas.
Nunca
houve na história um momento tão bom como este para observar fenómenos
emergentes. Porquê? Porque o sistema em que todos os componentes estão
ligados é, por excelência, a sociedade humana. Com o advento das
chamadas redes sociais passou a existir um universo virtual de relações
em que estas se materializam em registos informáticos, conseguindo-se
aumentar facilmente as nossas relações e o diâmetro da nossa influência.
Humoristas sem piada no palco são sucessos enormes no universo virtual a
dizer as mesmas piadas fracas sem nenhum upgrade de inteligência
percetível, tal como pessoas sem qualquer mérito observável são “hubs”
de opinião sem razão aparente (algum mérito terão…).
A
verdade é que em ambiente livre, ou pelo menos mais livre, as relações
entre as pessoas tomam escalas completamente diferentes. Mas estes,
sendo fenómenos emergentes, não são produto da liberdade e facilidade
das relações entre as pessoas. Já existiam “Kardashians” e humoristas da
treta antes de existirem redes sociais informatizadas. Aquilo que é
interessante, é o que se desenvolve a partir da liberdade de relação e
comunicação. Não sendo eu um estudioso destes fenómenos sociais, devo
informar o leitor que o que se segue não tem base científica de facto.
Tal como a Sociologia e outras disciplinas conexas, mas, neste caso,
devo dar essa nota antes de continuar, não vão as pessoas começar a
chamar-me coisas.
Nas
últimas semanas fiz uma experiência no Twitter, uma rede social em que
as interações entre os componentes do sistema, as pessoas, se fazem de
forma quase livre à partida. Não há imposições de regras à cabeça,
qualquer pessoa se pode reclamar como sendo Donald J. Trump – até o
próprio! – e qualquer pessoa é livre de escolher os “tweets” que quer
consumir. Do fascínio inicial que a rede me trouxe, houve algo que me
saltou à vista e que me trouxe a seguinte questão: é a liberdade de
relação uma promotora da liberdade de opinião? Ou, pelo contrário, é a
supressão da liberdade um fenómeno emergente da própria liberdade? Por
outras palavras, é a liberdade o caminho para o fascismo e não o
contrário?
Isto
surgiu-me, porque um amigo meu, sujeito com atividade empresarial de
sucesso, matemático de formação e pessoa mais ativa que o português
normal na busca de um bem comum (entra nos manifestos todos e nos livros
de soluções para o futuro) cometeu o “crime”, num comentário mais
informal sobre os debates presidenciais, de sugerir que uma candidata
estava mais gorda. Não que era gorda, mais gorda. Logo se levantou uma
turba de mulheres de todas as idades e, imagino, de todo o tamanho,
contra o dito comentário, com insultos vários ao autor do “tweet” e
ordenando que o dito fosse imediatamente apagado por se enquadrar num
qualquer crime modernaço de nome inglês.
Achei
aquilo um exagero, principalmente porque tinha lido todo o tipo de
insulto a outro candidato, como “facho”, “fascista”, “grunho”,
“aldrabão”, “porco”, etc., sem ter observado que alguém se levantasse de
bíblia na mão a condenar quem insultava o homem. E comentei isso à laia
de constatação, que é mais condenável dizer que uma mulher estava mais
gorda do que dizer que um homem era um porco, grunho ou aldrabão.
Com
isto cometi outro crime. O crime de sugerir que o outro crime poderia
não ser um crime, dado que, segundo os meus atacantes, esse crime era
mesmo crime e o candidato em causa era mesmo um porco, grunho e
aldrabão. Dezenas e dezenas de jovens (aparentemente) que, de livrinho
vermelho na mão, se dispunham a chamar-me de tudo porque fiz aquela
observação. Um “khmer rouge” virtual que se levanta naquele que,
supostamente, seria o mais livre dos ambientes. Em concreto, pessoas em
plena posse de toda a liberdade organizaram-se espontaneamente para
constranger a opinião alheia com a qual não concordavam. Ou, até, uma
simples observação deveria ser condenada.
É
esta, quase de forma pura, a definição de um fenómeno emergente, algo
que acontece pela simples junção de vários componentes do sistema que
não se observam quando estão isolados. Claro que isto é uma observação
sem base científica e com muita base de “fézada”. Mas se começarmos a
pensar em todo o tipo de “cancel culture” que se vai formando, há um
padrão que se torna familiar: quando se começam a abrir brechas na
imposição da liberdade, o que surge naturalmente é a sua supressão. Por
outras palavras, liberdade é uma imposição, não um estado natural de
equilíbrio.
E
se não dá para fazer ciência a partir disto, dá, pelo menos, para
questionar as tentativas de regulação de redes sociais que se vão
criando e que podem ir no sentido oposto daquilo que se pretende. E
falando de redes sociais, falamos da sociedade em geral. Aquilo que se
tem observado são tentativas de limitação de certo tipo de opinião,
sendo que o caso mais gritante nos últimos tempos será o do futuro
ex-presidente dos EUA. Várias pessoas atribuíram as culpas da invasão do
Capitólio a uma regulação relaxada da opinião do sujeito veiculada no
Twitter, talvez esquecendo-se que ele foi, de facto, presidente dos EUA
eleito fora do Twitter por dezenas de milhões de pessoas. Mas se o
fascismo é um fenómeno emergente da liberdade, promover uma regulação
limitativa é apenas um passo em direção ao ponto que se quer evitar. Se
calhar, aquilo que se devia fazer seria exatamente o contrário: impôr a
liberdade de opinião de tal forma que se castigasse fortemente quem a
tenta limitar.
Acho
que boa parte de nós pensa, por razões históricas, que a democracia e a
liberdade são consequências naturais do fascismo e ninguém pensa que a
física do sistema poderá levar a que seja o contrário. A diferença de
perceção não é inócua, já que na tentativa de corrigir um problema,
podemos estar a ir na direção que queremos evitar. A liberdade de
opinião, enquanto direito inalienável, poderá ter de ser imposta pela
força, ao contrário daquilo que hoje acontece, quando toda a senhora que
ache que tem mais rabo do que gostaria se sente no direito de ofender e
calar quem sugere que poderá estar mais gorda.
Tenho
pena que os sociólogos deste país se dediquem a pantominices de achar
que tudo deriva do colonialismo, capitalismo e patriarcado em vez de
fazerem ciência. Eles, mais que eu, deveriam dedicar-se aos fenómenos
emergentes da sociedade e, com isso, trazerem valor àquilo a que
chamamos de lei, mas que no fundo é a regulação das nossas relações.
Relações que se querem livres, obviamente, e não sujeitas a hordas da
criançada estúpida armada em khmer rouge.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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