Há alguns anos se levanta a suspeita de viés político das grandes redes sociais em suas decisões de remover conteúdos e contas de usuários. Reportagem de Leonardo Desideri para Gazeta do Povo:
A
censura das Big Techs ao presidente norte-americano Donald Trump pode
ter inaugurado um novo capítulo na forma como o Ocidente lida com a
liberdade de expressão. Há mais de uma década se colocam em questão os
riscos do domínio desmedido que Google, Amazon, Apple, Facebook,
Microsoft e Twitter têm sobre a informação que circula no mundo, mas a
decisão de silenciar a liderança política mais influente do planeta
evidenciou a dimensão desse poder.
É
a primeira vez que o líder de uma nação é impedido permanentemente de
postar no Twitter. Há alguns anos se levanta a suspeita de viés político
das grandes redes sociais em suas decisões de remover conteúdos e
contas de usuários, e o banimento ocorrido no último sábado (8) deu mais
credibilidade ao que antes era tratado por alguns como teoria da
conspiração.
A
decisão seguida de Apple, Google e Amazon de impor restrições à rede
social Parler, escolhida pelos trumpistas como alternativa ao Twitter,
agravou a sensação de que há viés político nas Big Techs. Em um tuíte
com mais de 80 mil curtidas, a ativista republicana Candace Owens
afirmou: “Agora, a Apple e o Google estão ameaçando banir o Parler para
impedir as pessoas de usar qualquer plataforma alternativa. Estão
criando um monopólio. Não aceitam nenhuma ideia ou conversa que não
sejam capazes de controlar. Eles não querem os conservadores se
comunicando uns com os outros.”
Também no Twitter, o filho do presidente americano, o empresário Donald Trump Jr., sentenciou:
“A liberdade de expressão morreu e está sob o controle de aristocratas esquerdistas”.
Decisões das Big Techs podem marcar nova era para a liberdade de expressão no Ocidente
Desde
que foi prevista nos artigos 18 e 19 da Declaração Universal dos
Direitos Humanos de 1948 como um dos princípios fundamentais para as
Nações Unidas, a liberdade de expressão cresceu como um valor
incontestável nas democracias ocidentais. No Brasil, por exemplo, a
Constituição de 1988 estabeleceu que “é livre a expressão da atividade
intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente
de censura ou licença” – expandindo o nível de liberdade proposto pela
Constituição de 1946, que dizia ser “livre a manifestação do pensamento,
sem que dependa de censura, salvo quanto a espetáculos e diversões
públicas”.
Pedro
Damazio, especialista em liberdade de expressão e mestre em História
Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-RJ), diz que a abordagem da Declaração Universal e das
Constituições de diversos países sobre liberdade de expressão não
consegue mais dar conta das circunstâncias que a internet gerou. Na
visão dele, as recentes decisões das Big Techs são “o marco de uma nova
era muito assustadora e confusa”, já que “os conceitos que a gente tem
para descrever a situação não estão sendo desenvolvidos com a mesma
rapidez dos acontecimentos”.
Segundo
Damazio, um dos problemas comuns nas redes sociais é a facilidade com
que se criam elos causais entre um discurso e um ato de violência. Para
ele, tentar definir discurso de ódio é se mover no terreno da
ambiguidade.
“Desde
sempre existe a interpretação de que a liberdade de expressão termina
onde a expressão pode causar ou incitar violência. Agora, como que se
define o elo causal entre o que foi dito e a violência subsequente? Isso
é uma coisa muito aberta a interpretação. O Trump não disse
explicitamente 'vão lá e invadam o Congresso’. É um elo causal meio
indireto. A maioria das pessoas que estavam no protesto não estava lá
para invadir o Congresso. Quem invadiu foi uma minoria. E você pode
fazer esse elo causal mais ou menos ambíguo com todo tipo de movimento e
discurso político. Teve muita gente, por exemplo, que culpou o Obama ou
o movimento Black Lives Matter por assassinatos de policiais”, diz.
Para
o especialista, o princípio da liberdade de expressão está sob ameaça
na civilização ocidental. O motivo é justamente a presença de “relações
causais cada vez mais ambíguas que as pessoas fazem entre discursos e as
consequências deles”, que leva a “interpretações feitas quase sempre
por conveniência política”.
“Vai
continuar sendo essa guerra de narrativas, e quem tiver o poder de
colocar a sua interpretação em lei é que vai decidir o futuro da
liberdade de expressão, no fim das contas”, prevê Damazio.
Para
Alexandre Gonçalves, mestre em Mídia Comparada pelo MIT (Massachusetts
Institute of Technology), as Big Techs se beneficiam hoje de uma
indefinição da lei. “Precisamos decidir o lugar das plataformas digitais
nas nossas sociedades. Atualmente, elas são um híbrido de provedor de
serviços e empresa de mídia. Como um provedor de serviços, elas não são
responsabilizadas por conteúdo ilegal que usuários publicam nos seus
sistemas. Como uma empresa de mídia, elas têm liberdade para decidir o
que pode ser publicado e o que não pode. Em suma, um poder editorial
enorme mas sem as obrigações legais que costumam acompanhá-lo.
Precisamos de um marco regulatório que resolva essa ambiguidade”,
afirma.
Censura de Trump pode fortalecer seus apoiadores
O
resultado a longo prazo da censura a Donald Trump pode ser o contrário
do pretendido. Damazio cita o chamado “efeito Streisand”: quanto mais se
tenta suprimir o fluxo de informação sobre um determinado dado, mais
atenção se chama para aquilo.
“Se
o medo deles é a influência que o Trump tem, digamos, para incitar a
violência, é verdade que, banindo o Trump da plataforma, ele vai ter
menos poder de incitar a violência? Tenho muitos motivos para acreditar
que não. Quando você censura alguém, bane alguém de uma plataforma,
politicamente, quem tem a ganhar com isso é o censurado”, opina Damazio .
Para
Paulo Dantas, cientista político da Universidade Laval, a decisão do
Twitter vai ser “um marco histórico muito importante, muito estudado
daqui para frente”. Ele chama a atenção para o paradoxo de Trump ter
dominado com maestria a plataforma que agora resolveu bani-lo.
“Ele
conseguiu usar as redes sociais e o populismo dele para mudar a maneira
convencional como todo o mundo via a política. Inventou uma nova
maneira de fazer política, e o Twitter foi uma ferramenta importante”,
afirma.
Na
opinião do especialista, o banimento definitivo de Trump vai insuflar
seus apoiadores, principalmente aqueles que aderem a subculturas
virtuais nos fóruns da direita alternativa.
“O
Trump vai sair, mas o trumpismo continua. Isso vai fomentar ainda mais
essa massa e empurrar essas pessoas que acreditam em certas teorias
[para a deep web]. Alguém captura isso, manda para o Twitter, e algum
líder populista acaba amplificando ainda mais a mensagem. O grande
efeito colateral vai ser o de reforçar a deep web, e a gente não sabe o
que pode sair lá de dentro", argumenta Dantas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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