Publico aqui, a propósito dessa distinção, um trecho do segundo capítulo de meu livro sobre A Cruzada contra as Ciências (Quem tem medo do conhecimento?), publicado em 2010 pela Editora da UFSC:
É
importante distinguir ciência e tecnologia, cujas motivações são
diferentes. Ambas estão hoje tão imbricadas que já se tornou comum
aplicar-lhes a sigla C&T, ofuscando algumas diferenças fundamentais.
Em poucas palavras, ciência produz ideias, teorias, informações;
tecnologia produz objetos, bens, voltados para as necessidades e
demandas do mercado. Uma busca simplesmente conhecer; outra, visa a fins
práticos. Ambas envolvem processos cognitivos, mas seus resultados são
diferentes. O produto final de uma atividade científica inovadora, em
geral, é uma declaração escrita, um paper anunciando uma descoberta
experimental ou uma nova teoria. Já o produto final de uma inovação
tecnológica é, tipicamente, um acréscimo à realidade material: um
relógio, uma máquina, um aparelho de barbear, um telefone celular.
Fundamental, para a tecnologia, é o artefato - artefatos são seus meios e
seus fins.
Convém
observar que a tecnologia é muito mais antiga que a ciência e possui
uma história própria. O historiador da tecnologia George Basalla lembra
que ela é tão antiga quanto a própria humanidade, sendo um equívoco
defini-la como aplicação de teorias científicas para a resolução de
problemas práticos. A tecnologia não é “serva da ciência”. Para ficar
num só exemplo, a tecnologia egípcia era superior à dos gregos,
criadores da ciência. Igualmente sem o auxílio de conhecimento
científico, a antiga tecnologia chinesa realizaria expressivas
conquistas (o papel, a imprensa, a bússola e a pólvora, entre outras).
No entanto, embora fossem hábeis engenheiros e atentos observadores dos
fenômenos celestes, os chineses deixaram poucas contribuições em termos
de conhecimento científico. O fato é que eles cultivavam uma “visão
mística do mundo”: o universo é concebido como algo organizado
hierarquicamente, em que cada parte reproduz o todo. “O homem é um
microcosmo que corresponde ao inteiro universo: o corpo humano reproduz o
esquema do cosmo.” Joseph Needham, o grande estudioso e entusiasta da
cultura chinesa, também se refere a essa concepção holística. “A
concepção mecânica do mundo”, escreve ele, “não se desenvolveu no
pensamento chinês e, pelo contrário, a idéia organicista segundo a qual
cada fenômeno está conectado a todos (...) os demais, segundo uma ordem
hierárquica, foi universal entre os pensadores chineses”.
A
investigação racional sobre o homem e sobre a natureza, como ressalta
Pellicani, “é uma criação especificamente e exclusivamente grega”, fruto
da ruptura entre mito e razão (Logos), que possibilitou o florescimento
do pensamento filosófico e científico e a passagem da sociedade fechada
à sociedade aberta. Trata-se de um rompimento com os valores sacros da
tradição - a fé dos ancestrais - de que não se tem notícia em outras
culturas. A análise é corroborada pelo historiador das ciências Charles
Gillispie:
A ciência deriva, em últimas palavras, do legado da filosofia grega. É certo que os egípcios desenvolveram técnicas de agrimensura e realizaram certas operações cirúrgicas com notável finesse. Os babilônios dispunham de artifícios numéricos de grande engenhosidade para prever os modelos dos planetas. Mas nenhuma civilização oriental foi além da técnica e da taumaturgia para chegar à curiosidade sobre as coisas em geral. Entre todos os triunfos do gênio especulativo grego, o mais inesperado, o mais verdadeiramente novo foi precisamente a concepção racional do cosmo (....). A transição grega do mito para o conhecimento foi a origem da ciência e da filosofia.
Num
livro tão admirável quanto provocativo, o matemático e historiador das
ciências Lucio Russo compartilha essas interpretações sustentando que
não havia “ciência” nos antigos impérios, nem mesmo na Grécia do século V
a.C. e nem sequer nas obras de Platão e Aristóteles, embora este último
tenha antecipado algumas características das ciências empíricas. O
método científico só despontaria no curso do século III a. C., sendo
“uma característica essencial da civilização helenística”, cujo ponto de
origem é o império de Alexandre Magno. Traçando um panorama histórico
da ciência grega desde o nascimento até a decadência, com o advento do
Império Romano (e a conseqüente regressão da civilização a um estado
pré-científico, que perduraria até o século XVII), o autor demonstra que
a revolução científica moderna - a partir de Copérnico, Galileu e
Newton - foi em parte uma retomada do que se perdera com a destruição da
civilização grega: Aristarco de Samos, por exemplo, já desenvolvera a
hipótese heliocêntrica no referido século III a. C.
Em
resumo, todos os povos produziram tecnologias, mas só o povo grego
criou a ciência e a filosofia de que somos herdeiros. Basalla demonstra
que, até o século XIX, a ciência exerceu pouco impacto sobre a
tecnologia. Sem auxílio da ciência, a tecnologia gerou a agricultura, os
artefatos de metais, as conquistas da engenharia chinesa e até mesmo as
catedrais do Renascimento. Essas imponentes catedrais, com suas enormes
cúpulas e altas naves, foram erguidas por engenheiros que se baseavam
na experiência prática, aprendendo diariamente com os erros, e não em
teorias científicas. Prevalecia então, como sugere outro autor, o
“teorema dos cinco minutos” – se uma estrutura permanecesse de pé por
cinco minutos depois de retirados os suportes, presumia-se que se
manteria de pé para sempre.
O
recente matrimônio entre ciência e tecnologia pode ser ilustrado com a
história da comunicação radiofônica. As ondas eletromagnéticas não foram
descobertas por experimentação, mas a partir das equações elaboradas
pelo físico escocês Maxwell (1831-79). Em 1887, Hertz (1857-94)
demonstraria a propagação de tais ondas, sem atentar, contudo, para a
sua importância para as comunicações. Coube ao italiano Marconi
(1874-1937), um autodidata, lançar as bases para seu aproveitamento
industrial e comercial: foi ele o primeiro a estabelecer comunicação
entre a Europa e os Estados Unidos. Desde o final do século XIX,
portanto, C&T andam de mãos dadas – com as bênçãos da indústria, que
na mesma época fundaria as primeiras empresas baseadas em conhecimento
científico (nas áreas de química e eletricidade). Hoje, nada de
realmente novo existe que não seja resultado da pesquisa científica.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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