O PCP não está ofendido por ter sido considerado criminoso, está
ofendido por ter sido considerado tão criminoso como os nazis. Acha-se
vítima de uma falha de consideração. Artigo de José Diogo Quintela,
publicado pelo Observador:
No dia 19 de Setembro, o Parlamento Europeu passou uma resolução em
que compara os crimes do nazismo aos do comunismo. Como não podia deixar
de ser, o PCP reagiu instantaneamente com um daqueles clássicos
comunicados cheio de queixinhas de anti-comunismo, fanfarronice da
Guerra Fria e o costumeiro “sem nós, os Aliados tinham perdido a
Guerra!” – um argumento que também pode ser usado pelas bombas de
Hiroshima e Nagasaki, sem que isso as torne mais recomendáveis. No
comunicado, o PCP critica a “deplorável tentativa de equiparar fascismo e
comunismo, minimizando e justificando os crimes do nazi-fascismo”. Bem
diz o povo que quem não se sente, não é filho de uma ideologia que gosta
de matar boa gente.
Portanto, o PCP diz que, para equiparar nazismo e comunismo, é
preciso minimizar os crimes do primeiro, pondo-os ao nível dos crimes do
segundo. Ou seja, o PCP admite que o comunismo cometeu crimes. Confesso
que desta não estava à espera. Não são “erros”, “desvios” ou
“exageros”, como eufemisticamente costumam admitir as marotices
marxistas-leninistas – aquelas que são mesmo impossíveis de esconder,
claro. Não, não, o PCP refere mesmo crimes. Das duas, uma: ou o Partido
está a mudar, ou os meus pêsames à família do infeliz autor do
comunicado.
O PCP não está ofendido por ter sido considerado criminoso, está
ofendido por ter sido considerado tão criminoso como os nazis. Acha-se
vítima de uma falha de consideração. É como o marido que é apanhado com
uma amante e a quem a mulher diz “és uma vergonha, igual ao teu pai!” E
ele, melindrado: “Como te atreves? O meu pai tinha duas amantes, eu só
tenho uma. Não menorizes a infidelidade do meu pai”.
O PCP admite crimes praticados pelo comunismo, mas avalia-os numa
escala mais modesta do que os do nazismo. Por exemplo, Hitler matou 6
milhões de judeus. Já Mao Tse-tung, só no Grande Salto em Frente, matou
45 milhões de chineses. Ou seja, por cada judeu morto por Hitler, Mao
matou 7 chineses e meio. Apesar disso, o PCP garante que os crimes não
têm comparação. Logo, para o PCP, a vida de um judeu vale mais do que as
vidas de quase 8 chineses. E ainda há quem diga que o comunismo é
anti-semita.
Concordo com os comunistas. Não se pode comparar o incomparável. O
nazismo só teve 12 anos para brilhar, enquanto o comunismo tem um
percurso muito consistente de mais de um século a bater recordes. É como
cotejar o Dani com o Cristiano Ronaldo. O Dani foi dos melhores
futebolistas que vi jogar, mas teve uma carreira muito curta. Já o
Cristiano mantém-se num nível superlativo há mais de 15 épocas. O
nazismo é como o Dani. Com mais sorte, se tivesse tido mais tempo,
sabe-se lá onde poderia ter chegado? E o comunismo é como Ronaldo, que
se aperfeiçoou ao máximo, tornando-se numa eficiente máquina de enganar.
No caso de Ronaldo, defesas e guarda-redes. No caso do comunismo, as
pessoas em geral.
O que a União Europeia fez foi responder à imorredoira questão de
crianças em todo o mundo: quem ganhava uma luta entre um velociraptor e
um tubarão branco? A EU declara que seria um empate. Só não diz que,
sendo ambos caçadores temíveis, o dinossauro já não ferra o dente há
algum tempo, enquanto o peixão continua a abocanhar por aí.
Não há muito mais a dizer sobre a equiparação do comunismo e do
nazismo enquanto duas ideologias desagradáveis, de maneira que vou
continuar com as metáforas primárias, para reforçar o argumento. O
leitor está familiarizado como conceito de “one hit wonder”? Trata-se do
artista que é conhecido por ter uma única música de sucesso. Nesta
pouco imaginativa – ainda que certeira – analogia, o nazismo é o duo
espanhol Los del Rio, autores da irritantemente popular “Macarena”, uma
canção singular que lhes garante o reconhecimento eterno. Já o comunismo
são os Rolling Stones: uma carreira longa, dezenas de êxitos, milhões
de fãs e o elogio da crítica. Está bem que os Stones são musicalmente
mais evoluídos, são estilosos e as pessoas não têm vergonha de serem
apanhadas em público a trautear as suas canções, mas, quando se vai a
ver, quer os Los del Rio, quer os Rolling Stones, são ambos
cançonetistas.
Agora, é preciso dizer que, além de fúria indignada, a reacção do PCP
tem ali um cheirinho a ciúme. O PCP não aceita que, passados mais de 70
anos da sua derrota, o nazismo continue a fazer sombra ao comunismo.
Quantos mais mortos serão necessários? Quantos mais países na miséria?
Quantos mais ditadores sanguinários até ao comunismo poder ocupar o seu
lugar de destaque, sem ser ex aequo? O nazismo é como aquele ex-namorado
por quem a nossa mulher continua a suspirar, apesar de já sermos
casados há décadas. Talvez o comunismo se deva esforçar mais na cama.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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