Joice não é boazinha, não. É agressiva, raciocina rápido, devolve em
dobro os desaforos que recebe. E já mostrou que tem nas mãos a denúncia
que pode causar problemas ao presidente – até um impeachment, considera Carlos Brickmann em sua coluna de quarta-feira. O blogueiro aqui acrescentaria: é uma pessoa pouco confiável:
O presidente Bolsonaro abandonou no caminho seu antigo aliado Magno
Malta. Sem problemas: Malta é pastor, é bonzinho. Fez pouco de seu braço
direito na campanha, Gustavo Bebbiano, e o abandonou. Mas Bebbiano era
muito amigo, e se calou. Tentou demolir Luciano Bivar, presidente
nacional do PSL, que lhe cedeu o partido para candidatar-se. Sem
problemas: Bivar é compreensivo, acertam-se lá na frente. E disparou
contra Joice Hasselmann, afastando-a do cargo e permitindo que a
atacassem por sua aparência física. Terá problemas: Joice não é
boazinha, não. É agressiva, raciocina rápido, devolve em dobro os
desaforos que recebe. E já mostrou que tem nas mãos a denúncia que pode
causar problemas ao presidente – até um impeachment.
Joice postou mensagem em que acusa os filhos de Bolsonaro de montar
uma máquina de produzir perfis falsos nas redes sociais. E disse à
GloboNews que parte do esquema operou dentro do gabinete presidencial,
no Palácio do Planalto. Os filhos 01, 02 e 03 de Bolsonaro, segundo ela,
são responsáveis por no mínimo 20 geradores de notícias falsas no
Instagram, que alimentariam uma rede de 1.500 páginas e perfis falsos – o
que Joice chama de “milícia digital” (para quem a conhece, o nome
“milícia” não foi escolhido ao acaso). Disse que levará a informação ao
Ministério Público.
E, não esqueçamos, está para se iniciar a Comissão Parlamentar de
Inquérito da Câmara e do Senado para investigar fake news e assédio
virtual. Na hora H.
Por falar em assédio
Sejam quais forem os defeitos de Joice, a campanha de insultos
virtuais desencadeada contra ela, por estar acima do peso, é
inaceitável. Ser gordo não é crime. Na Segunda Guerra Mundial, que
Eduardo Bolsonaro tanto cita, Churchill era gordo, Hitler era magro.
Quem estava do lado certo era o gordo.
Mas, entrando no caso, usar o gabinete presidencial para divulgar
falsas notícias contra adversários pode ser visto, no mínimo, como abuso
de poder. Joice, lembremos, até domingo era líder do Governo no
Congresso. Deve saber de mais coisas. Goste-se ou não dela, é uma fera
ferida que ruge alto. Imagine seu depoimento na CPMI das Fake News. Caso
pequeno? Maior ou menor que o das pedaladas fiscais? Ou do Fiat Elba
que depôs Collor?
Atenção aos detalhes
O tempo volta, torcida brasileira. Passados uns dois mil anos, mais
ou menos, o debate político no país volta a utilizar hieróglifos, como
na época dos antigos egípcios. O que mudou foi o nome dos hieróglifos,
agora “emojis” – e foi por emojis que Joice Hasselmann e Carlos
Bolsonaro, o filho 02 do presidente, duelaram nas redes sociais. Os
emojis podem ser genéricos (como o coraçãozinho, para demonstrar afeto),
e podem ser bem específicos.
No caso, de ambos os lados, foram usados com significado específico.
Aliás, considerando-se o nível do debate político no país, para que usar
palavras?
Subsolo
A propósito, Joice tem mantido dois discursos distintos: no primeiro,
em palavras, diz que os filhos de Bolsonaro são meninos mimados e
deveriam se abster de atrapalhar o governo do pai. No segundo, com os
emojis, mostra que ainda há muitas escadas para descer até se dar por
satisfeita.
Quem é quem
A propósito, sabe-se por que Bolsonaro e Bivar tanto lutam pelo PSL?
OK, sabe-se – mas alguém conhece outro motivo ideológico ou patriótico?
Na hora em que está saindo do forno a nova Previdência, em que a reforma
tributária provoca discussões, em que o desemprego não cede, em que o
país não cresce, é preciso perder tempo discutindo se um está queimado e
o outro é vagabundo? Que é que o peso de Joice tem a ver com a saída de
dólares, exatamente quando se imaginava um dilúvio de investimentos
estrangeiros? Por que Bolsonaro se preocupa com isso, no momento em que
visita países comercialmente importantes para o Brasil?
Só se pode dizer, a favor da briga, que se disputa um partido autêntico – autenticamente partido.
Maluqueceram
A cidade se chama Aparecida, lembrando a imagem de Nossa Senhora ali
encontrada por pescadores, no rio Paraíba do Sul. Ali está a maior
basílica do Brasil. A cidade vive do turismo religioso – como, no
Exterior, Fátima e Lourdes. A 180 km de São Paulo, é famosa como destino
de romarias. Mas a Justiça de Aparecida proibiu a construção de uma
grande estátua de Nossa Senhora, e ordenou a retirada de cinco obras em
sua homenagem de áreas públicas do município. A Justiça atendeu a pedido
da Atea, Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. A Prefeitura
informou que vai recorrer.
A Atea acha ilegal doar área pública para monumentos religiosos. As
obras foram pagas pela Prefeitura com verba da Secretaria estadual de
Turismo. Correto: a cidade recebe 13 milhões de turistas por ano, e
todos vão por motivo religioso. A estátua, que terá 50 metros de altura,
está ainda desmontada e suas peças se acumulam num terreno da
Prefeitura.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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