Ficar na UE seria dar
luz verde para que Bruxelas fizesse o que quisesse. Pelo contrário, se
bem encaminhado, o Brexit pode resultar numa corrida pela
desregulamentação e a favor do comércio livre. Bom artigo de André
Abrantes Amaral, via Observador:
Por muito que nos
custe o Reino Unido deve mesmo sair da União Europeia. Por muito que a
convocação do referendo de 2016 tenha sido um erro (o futuro de um país
não se deve decidir com uma resposta de ‘sim’ ou ‘não’ a uma pergunta
que pode conter vários significados e diversas consequências), o certo é
que sair da União foi a decisão da maioria dos que votaram no
referendo. A vida é demasiado complexa e foi precisamente devido a isso
que a democracia representativa e liberal se inventou. Esta deveria ser a
primeira lição a retirar deste já longo processo.
Mas o mal está feito e
pouco há a fazer para o reparar. Três anos depois de chumbos no
Parlamento, a decisão da maioria do povo britânico no referendo de 2016 é
dos poucos factos concretos que restam sobre o assunto. Ao ponto de a
solução ideal para o contrapor seria a convocação de outro referendo em
que se votasse entre o acordo firmado com Bruxelas ou a manutenção da
União Europeia. O risco de uma saída sem acordo é, no entanto, demasiado
elevado para que se tente a pergunta que sempre deveria ter sido
colocada: quer sair da UE da forma que o governo negociou com Bruxelas
ou ficar na UE? Não foi assim que sucedeu em 2016, nem se espera que
assim seja em 2019, ou venha ser em 2020. E assim sendo, o melhor é que o
Reino Unido saia de vez.
Até porque o Brexit
pode conter vantagens que não são visíveis nem imediatas. Há dias, em
conversa com um português que trabalha no sul de Inglaterra, este
transmitiu-me dois factos extremamente interessantes: primeiro, que a
insistência de Bruxelas na questão da fronteira irlandesa (que é o ponto
fraco do Reino Unido) está a causar desagrado entre os Britânicos,
principalmente entre os Ingleses. Segundo, e mais importante, que há
entre os Britânicos (e julgo que também entre os outros povos europeus,
burocratas de Bruxelas incluídos) a percepção de que se o Reino Unido
não consegue sair da União Europeia, nenhum outro Estado o conseguirá. O
Reino Unido são duas ilhas (a única ligação terrestre com outro Estado é
de facto uma armadilha) e uma potência. Ora, se mesmo assim os
Britânicos não conseguem sair da UE, se nenhum outro país o conseguirá
fazer, nesse caso Bruxelas terá luz verde para se tornar num
super-Estado. Na verdade, não sendo possível sair, e com o sinal de
impotência que um cancelamento do Brexit transmitiria, ficar
corresponderia a uma quase total submissão a Bruxelas. Se ao fim destes
três anos o Reino Unido desistisse do Brexit a União Europeia
sentir-se-ia livre para carregar no acelerador do processo de integração
europeia. Tal poria em causa as democracias dos Estados-membros e
poderia conduzir a reacções violentas (que não se vêem entre os
Britânicos) com vista a saídas forçadas de uma organização cujos
objectivos iniciais teriam sido largamente ultrapassados. É nesta
perspectiva que, para a maioria dos Britânicos, ficar na UE após este
processo com mais de três anos seria um sinal de fraqueza que não pode
ser consentido. Traduzir-se-ia a dar luz verde para que Bruxelas fizesse
o que quisesse do projecto europeu.
Mas há mais: a saída
do Reino Unido permitirá ainda que este se torne num escape às tentações
centralizadoras de Bruxelas. É conhecido o sonho de Boris Johnson de
criar uma Singapura às portas da União Europeia. Claro que isso é
praticamente impossível, até porque o gasto com o sector público no
Reino Unido se situa entre os 40% e os 45% do PIB enquanto em Singapura
se fica pelos 16%. Mas o governo de Boris Johnson tem intenção de desregulamentar alguns sectores económicos, nomeadamente os portos e os aeroportos,
criando verdadeiras zonas de comércio livre com vista para Bruxelas.
Nesta perspectiva a saída do Reino Unido da União Europeia, não só
obrigaria Bruxelas a ter mais cautela com os seus intuitos de
aprofundamento da integração europeia, como a forçaria a também pôr em
marcha um plano de liberalização. O acordo de parceria económica entre a
EU e o Japão, que se iniciou em 2013 e foi fechado em 2017, é um sinal
disso mesmo. Este acordo de Bruxelas com o Japão é ainda mais
significativo se tivermos em conta que o Japão é um importantíssimo
investidor no Reino Unido, nomeadamente através da Nissan, da Toyota e
da Hitachi. Os Japoneses já pediram mesmo garantias ao Reino Unido de que os seus negócios não serão afectados pelo Brexit, e Londres está desejosa por fechar um acordo com Tóquio.
Como se vê as tensões
não são apenas políticas e com tendência para que os Estados se fechem
em visões proteccionistas e de cariz mercantilista. Do ponto de vista
comercial, as perspectivas até são animadoras, com o Reino Unido e a
União Europeia a competirem no campeonato da desregulamentação. Se
tivermos em conta o que Donald Trump pensa sobre esta matéria e aquela
que tem sido a tendência com a guerra comercial entre os EUA e a China,
as perspectivas de uma saída do Reino Unido não são forçosamente
negativas. Bem encaminhado o processo até pode terminar a bem, ser
libertador e para benefício de muitos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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