por Dartagnan da Silva Zanela (*)
O
filósofo Cornelius Castoriadis dizia que a crença expressa pelas
sociedades democráticas no poder do sufrágio universal seria similar à
crença dos católicos na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no
Santíssimo Sacramento.
Ao
lermos essas palavras do referido filósofo, podemos ficar um tanto
aturdidos com o seu viés anarquista e um tanto anticlerical; porém, suas
observações são, no meu entender, de grande relevância para melhor
compreendermos os assim chamados “ataques à democracia”.
Dito
isso, vem comigo: como todos nós sabemos, há muitíssimos casos de
transubstanciação eucarística que foram cuidadosamente documentados, e o
foram porque, antes de qualquer coisa, são submetidos a uma rigorosa
série de exames. Aliás, este é o procedimento adotado pela Santa Sé
quando o assunto são milagres. Trocando em miúdos, esse babado é levado
muitíssimo a sério.
Agora,
quando o assunto é a expressão cristalina da vontade popular através do
sufrágio universal, nós podemos colocá-lo à prova? Podemos colocar em
dúvida o poder dos votos dos cidadãos? Eis aí uma pergunta que há
séculos é examinada por inúmeros filósofos, a partir dos mais variados
prismas e pontos de vista.
Mas
por que cargas d’água tantos filósofos questionaram — e questionam — a
segurança da democracia? Ora, meu caro Watson, porque não são poucas as
pontas soltas apresentadas pela história dos experimentos democráticos, e
muitos são os descaminhos trilhados por tais experimentos; por isso,
tais questionamentos não representam uma ameaça ao “Estado Democrático
de Direito” — muito pelo contrário, eles são de fundamental importância
para o seu aprimoramento.
Lembremo-nos: nenhuma instituição humana se fortalece se for mantida imune ao exame, em uma bolha asséptica.
De
mais a mais, todo aquele que tem um conhecimento minimamente razoável
sobre a história sabe muitíssimo bem que o questionamento é a principal
ferramenta desenvolvida pela humanidade para o aprimoramento dos
indivíduos e das instituições edificadas por nossas mãos através dos
séculos. Se não houvesse dúvidas (que em sua época eram consideradas
indevidas e inapropriadas), talvez não tivéssemos nos tornado uma nação
independente - e mais ou menos soberana - não é mesmo? Ou, quem sabe, as
ditaduras que assombram a história republicana brasileira poderiam ter
durado muito mais tempo.
Enfim,
por essas e outras que, como nos lembra Sócrates, uma vida que não se
permite ser examinada é uma vida indigna de ser vivida; e isso,
caríssimo, vale também para as obras, ações e instituições humanas.
Se
não levantarmos dúvidas sobre as nossas instituições e a respeito de
nós mesmos, e se virmos a mera possibilidade de crítica como um ataque,
uma ameaça ou algo que o valha, é sinal de que algo morreu em nossa alma
e que, com o tempo, levará à bancarrota tudo aquilo de mais elevado que
foi forjado por mãos humanas através dos séculos.
E,
como diria Stanislaw Ponte Preta, é bom ultrapassarmos de tempos em
tempos a sutil e perigosa linha da galhofa, porque tudo aquilo que não
pode ser satirizado, definitivamente, não merece ser levado a sério —
nem um pouco.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.
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