Dar uma pausa ou “buscar novos desafios” são as opções dos aposentados comuns; certamente não a do homem mais rico do mundo. Vilma Gryzinski:
Jeff
Bezos não vai parar. Mas só de ter anunciado, aos 57 anos, que não será
mais o executivo máximo da Amazon já foi suficiente para embasbacar o
mundo dos mortais comuns e até impressionar o rarefeito universo dos que
entendem o que é ter 185 bilhões de dólares.
Os
seres humanos são naturalmente impressionados com grandes fortunas e
saber que existe um sujeito que ganha 222 mil dólares por minutos, 13
milhões por hora e 321 milhões por dia – numa conta aproximada, visto
que os números mudam constantemente – provoca uma mistura de fascínio e
repúdio.
É bom ou ruim ter tanto dinheiro?
Como
Bezos construiu sua fortuna prodigiosa por esforço próprio, desde que
deixou um emprego bom no mercado financeiro em 1995, mudou para Seattle e
começou a vender livros – físicos – pela internet, da garagem de sua
nova casa, ele pode ser visto como o mais perfeito exemplo das
recompensas com que o sistema capitalista abençoa os inventivos e
arrojados gênios que descobrem um negócio como numa existiu antes.
E
mais um, e outro, e aquele ali também – todos os múltiplos ramos em que
se desdobrou, desde os “armazéns” na nuvem, que reproduzem os os
armazéns reais da “maior loja do mundo”, até a aventura espacial da Blue
Origin.
Além
de continuar como presidente executivo do conselho da Amazon, Bezos
disse que vai se concentrar mais no negócio das viagens espaciais,
exatamente o ramo em que está experimentando a estranha sensação de ser
superado por um concorrente, a SpaceX de Elon Musk, também arrancando
para, conforme o dia, disputar o título de homem mais rico do mundo.
Musk,
mais do que Bezos, fala muito mais sobre a missão de salvar a raça
humana avançando para a colonização do espaço, já dando por perdido o
nosso lindo planeta. Bezos joga com as cartas coladas na camisa.
A
Blue Origin existe desde o ano 2000 e só mais recentemente saiu um
pouco do ambiente de segredo com que desenvolvia suas atividades.
Bezos
tem uma visão de longo prazo das viagens espaciais, como se estivesse
construindo a base de uma pirâmide ou o esqueleto de uma catedral que só
as futuras gerações fruirão.
Tem mais dinheiro, mas talvez menos poder, do que os Medici em Florença ou os papas em Roma.
A
exploração espacial é o apogeu do mecenato, a explosão renascentista ou
a Capela Sistina dos bilionários que querem imprimir sua marca na
história.
Ser
um pioneiro das viagens espaciais tem certamente mais força histórica
do que ser o dono da “loja de tudo”, mesmo que se trate de um
supermercador que mudou a forma de consumo.
Nem
todo o dinheiro que tem protegeu Bezos do escândalo e da baixaria com
que seu caso extraconjugal com Lauren Sanchez foi tratado – mensagens
melosas, fotos íntimas, divórcio caríssimo.
Já
passou. Os 38 bilhões de dólares que a ex-mulher ganhou já foram
amplamente superados. Donald Trump, que virou seu inimigo por causa do
tratamento implacável que lhe foi reservado por um de seus brinquedinhos
prediletos, o Washington Post, perdeu a reeleição. A nova sede da
Amazon já tem um projeto pronto, um estranho edifício helicoidal em
Virginia.
A
pandemia foi boa para a Amazon, por motivos óbvios. Com todo mundo
trancado em casa, as compras online ferveram. A receita do gigante
passou de 1 bilhão de dólares em 2020. Por dia. O total foi de 386
bilhões.
Bezos
não tem a aura de Steve Jobs, a modéstia estudada de Bill Gates, a
ebulição narcisista de Elon Musk, o bom-mocismo de Mark Zuckerberg. Como
todos eles, é amado e odiado. Atrai antipatias da esquerda, como é
natural quando se trata de um dos maiores capitalistas de todos os
tempos e um que arranca o couro do pessoal – e são mais de um milhão de
empregados – , e se enfrentou com a direita trumpista.
O
amazônico bilionário, que escolheu o nome do nosso rio porque soava
“diferente e exótico”, também carrega a marca do monopólio, a mesma dos
outros do mundo high tech; dos métodos implacáveis de esmagar os que
ousam fazer concorrência e dos recursos maquiavélicos para nos tirar
informações e ainda agradecer à doce voz de Alexa.
Talvez
esteja acima do bem e do mal. Talvez não tenha que provar mais nada,
mesmo para um filho abandonado pelo pai ainda bebê e adotado pelo
padrasto, o imigrante cubano Miguel Bezos.
Talvez tenha que se cobrar cada vez mais.
Hoje
existem cinco pessoas com fortunas acima de 100 bilhões de dólares:
Bezos; Gates; Zuckerberg; Bernard Arnault, do conglomerado francês de
luxo e varejo, e Musk.
Qual
deles será lembrado daqui a cem ou duzentos anos? Não será como dono de
armazém, ainda que o maior da história, que Jeff Bezos estará lá.
No
prazo mais curto, ele deverá se transformar no primeiro trilionário
logo mais, em 2026, se a Amazon continuar a crescer 34% por ano.
Não estará, certamente, de bermuda e chinelos, o traje oficial da aposentadoria.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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