Depois de tantas mudanças, a política brasileira se parece tanto ao que sempre foi, escreve William Waack no Estadão:
O que é o governo Bolsonaro dominado pelo Centrão?
É a política brasileira como sempre foi nas últimas décadas, a ponto de
se duvidar se realmente tivemos uma alternância de poder de esquerda
para direita. Talvez a periodização à qual historiadores costumam
recorrer indique como último grande divisor de águas na política
brasileira o processo de redemocratização do período entre 1985 e 1989
(sim, quatro anos decisivos).
Visto
com uma distância de três décadas, o que se iniciou ali foi uma
tentativa fracassada de estabelecer no Brasil um estado de bem-estar
social aos moldes do sul da Europa, sem que cuidássemos que nossa
economia de baixa produtividade e competitividade conseguisse financiar
gastos públicos que subiram sempre acima da inflação, não importa qual
fosse o governo. O encontro com a verdade chama-se crise fiscal.
Com
maior nitidez desde aquele período grupos diversos foram capturando a
máquina de Estado – ou ampliaram o domínio já existente (como ocorre com
a elite do funcionalismo público, espalhada por autarquias, estatais e
Judiciário). A política foi se reduzindo à negociação entre grupos
esparsos, com cada vez menos direção central, para acomodar às custas
dos cofres públicos interesses setoriais e regionais dos mais variados.
Dentro de um ambiente de ideias que o sociólogo Bolívar Lamounier chama de “maçaroca ideológica”.
O
“desenho” do nosso sistema de governo, que opõe o vitorioso num
plebiscito direto (o presidente da República) a um Legislativo
fracionado e de baixa representatividade (mas cheio de prerrogativas),
com partidos dominados por caciques, “funcionou” nesses moldes até a
quebra dos cofres públicos. A atuação desses “donos do poder” foi muito
facilitada pelo fato de os setores privados da economia brasileira não
terem sido capazes de desenvolver um “projeto nacional”, uma visão de
conjunto que fosse muito além do que sempre foi o “norte” para gerações
de empresários e banqueiros: garantir a amizade e a proximidade do rei.
A reforma de Estado ensaiada por FHC
foi tímida, assim como as privatizações. O projeto petista do
“nacional-desenvolvimentismo” (para dar um rótulo aos 13 anos) era uma
obra conjunta com o Centrão, entendido como esse conjunto de forças
políticas setoriais, regionais, unidas apenas no intuito de se apoderar
de pedaços da máquina pública. Como se constata nos índices, a tal
“preocupação pelo social” tão propalada naquele período não alterou
fundamentalmente o País em termos de sua desigualdade e misérias
relativas.
Ironicamente,
a política brasileira parece ter mudado tanto nos últimos quatro anos
(desde o impeachment de Dilma) para desaguar no mesmo lugar: no papel
essencial dessas forças do Centrão, agora carregando consigo um
presidente de escassa capacidade de liderança e que não entendeu onde
reside seu poder: na possibilidade de ditar a agenda política, e não na
tinta da caneta em suas mãos (que, aliás, encolheu bastante nos últimos
dois anos).
Ao
celebrar o entendimento político com os dois novos homens do Centrão no
comando do Legislativo, Bolsonaro voltou a escancarar o fato de não ter
estratégia nem saber o que quer, além de se reeleger. Trinta e cinco
prioridades entregues ao Congresso é o mesmo que dizer que não tem
nenhuma. Nessa “shopping list”, em parte a pedidos de seu ministro da
Economia, estão matérias prometidas desde sempre (como reformas
administrativa e tributária, além de privatização de estatais) que não
progrediram basicamente pela incapacidade ou falta de interesse político
por parte do chefe do Executivo.
É
possível que o dia 1.º de fevereiro de 2021, data da oficialização do
comando do Centrão nas principais esferas da política, talvez sirva aos
historiadores no futuro para marcar o fim de um intenso período nessa
linha do tempo, o da onda disruptiva de 2018. É também a data da
dissolução da força-tarefa da Lava Jato, sem a qual essa onda é
impossível de ser entendida. Talvez os historiadores no futuro
considerem que não foi mera coincidência.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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