A deputada americana é a figura mais importante do Partido Republicano a apoiar o impeachment de Trump, num sinal de independência. Vilma Gryzinski:
Irá
Donald Trump levar junto, no naufrágio, outros líderes de natureza
populista e enterrar a nova direita que despontou antes, durante e
depois dele?
Na
França e na Itália, os dois principais políticos da direita simpática
ao trumpismo, Marine Le Pen (“Fiquei extremamente chocada”) e Matteo
Salvini (“A violência nunca é solução”), pularam fora.
Fizeram
muito bem. Seja por motivos éticos, seja por interesse político, dizer
que o errado é errado, mesmo quando é a sua turma que faz besteira, é um
sinal de QI político.
Nos
Estados Unidos, a deputada Liz Cheney foi o nome mais importante do
Partido Republicano a assumir publicamente que a besteira pesou demais.
O
líder do partido, Kevin McCarthy, também responsabilizou Trump pela
invasão do Congresso, embora defendendo, em vez do impeachment, um voto
de censura, de relevância apenas simbólica.
Outros
nomes acima deles, como o presidente do Senado, Mitch McConnell, e o
vice-presidente Mike Pence, estão plantando aceleradamente que não
aguentam mais Trump, nem que seja apenas por mais seis dias – o tempo
que falta para deixar a presidência.
Mas
não assumem publicamente. Liz Cheney foi a única a correr
ostensivamente o risco de queimar o filme, considerando-se que 76% dos
eleitores republicanos continuam do lado de Trump (no geral, a aprovação
dele caiu para 34% depois da baderna da quarta-feira passada, um índice
semelhante ao de George Bush filho, depois da desgraça da invasão do
Iraque e da grande crise financeira de 2008).
A
deputada é filha de Dick Cheney, o vice de Bush que foi tratado – e
odiado – como a eminência parda que tramou a intervenção no Iraque.
Os
Cheney, pai e filha, são da ala intervencionista, conhecida na época do
governo Bush como neoconservadores. Trump fez campanha contra as
“guerras inúteis”, alucinadamente caras e contraproducentes até mesmo
para a hiperpotência americana.
Liz
Cheney é tão de direita que desencadeou uma ruptura com a própria irmã,
Mary, que é casada e tem filhos com outra mulher, ao se declarar contra
o casamento gay.
Mas
é importante ressaltar que pertence à ala republicana que nunca
simpatizou com Trump. O clã Bush o abomina, tendo levado de volta várias
lambadas de Trump.
Repudiar
métodos espúrios, mesmo sendo de seus próprios partidários, é uma das
características mais raras no mundo político. Quando a esquerda fala em
autocrítica, geralmente é autocrítica dos outros.
Sempre
é mais confortável procurar uma desculpa. Os líderes democratas, por
exemplo, demoraram semanas para admitir, com enorme má vontade, que os
métodos violentos dos partidários exaltados do Black Lives Matter que
incendiaram cidades americanas eram condenáveis.
Além de Liz Cheney, mais nove deputados republicanos votaram pelo impeachment. A aprovação estava garantida pela maioria democrata na Câmara.
Por
causa de seu voto, Liz Cheney pode perder seu posto como presidente da
Conferência Republicana, o terceiro mais importante do partido.
“Foi um voto de consciência. Existem opiniões diferentes a respeito”, disse a deputada.
“Agora
ela está do lado dos democratas que queriam botar seu pai na cadeia”,
ironizou um dos milhares comentários negativos que sua atitude provocou
no mundo digital.
Não faltaram, claro, ameaças a ela.
O
ambiente político nos Estados Unidos é de altíssima volatilidade, com
centenas de militares da Guarda Nacional dormindo nos salões e
corredores do Congresso, como se a coisa pudesse explodir a qualquer
momento.
Como
presidente eleito, Joe Biden deveria estar demonstrando o tipo de
liderança segura e calma que o momento exige, mas simplesmente
desapareceu do mapa.
Se aderir ao clima de vingança que predomina entre os democratas, irá começar muito mal o seu mandato.
Os
74 milhões de americanos não vão desaparecer magicamente nem passar, em
massa, à condenação de Trump, com seu status de figura pop folk
diminuído, embora longe de eliminado.
Mas
quem tem achar respostas mais urgentes é a direita, marcada, nos
Estados Unidos, pela aversão ao excesso de governo, de regulamentações e
de dívida (bandeira chutada para o espaço sideral na era Trump).
Tão
ou mais importante é a defesa da liberdade de expressão, causa
tradicionalmente esquerdista que no momento atual de políticas
identitárias e de cassação de plataformas – até no sentido literal, no
caso do degredo de Trump do Twitter e do Face – se transformou numa
pauta da direita.
Sem Trump no panorama internacional, o grande arco nacional-populista que se desenhou fica obviamente mais fraco.
Seus
motivos, no entanto, permanecem os mesmos: migração em massa e
violência jihadista na França, na Holanda e na Itália, segurança pública
no Brasil, confrontação com o Irã em Israel.
São questões que continuam a ter exatamente a mesma dimensão de antes da autodestruição de Donald Trump.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário