Sem o discurso de ódio que dizem combater, as redes sociais seriam um deserto. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta do Povo:
Na
sexta-feira (15), um grupo promete fazer um protesto algo inusitado nas
redes sociais. Em defesa da tal liberdade de expressão, os
manifestantes farão silêncio. A ideia é não publicar, curtir ou comentar
absolutamente nada durante 24 horas. Mas quero só ver se as pessoas
conseguirão mesmo ficar em silêncio diante de mais uma bobagem dita por
nossos lindos influenciadores e suas tuitadas maravilhosas.
Na
verdade, o #SilenceDay nada mais é do que uma greve dos produtores de
conteúdo. Afinal, somos nós, com nossos memes, nossos vídeos de gatinho,
nossos trocadilhos, nossos aforismos, nossos emojis e, last but no
least, nossos xingamentos, obscenidades e, por que não, ódio é que damos
forma ao que de outro modo seria apenas um deserto aqui e ali visitado
por matilhas de tumbleweed – aquelas plantas rolantes que vemos em
filmes de faroeste.
Faz
tempo que questiono não só as redes sociais como também meu papel
nelas. Digo, não há nada que eu ou você ou o presidente dos Estados
Unidos possamos fazer contra esses megaconglomerados de tecnologia. Eles
existem. São um dado do universo. Neste momento, é impossível imaginar
qualquer força capaz de deter o Facebook, o Twitter, o Google, a Apple e
a Amazon. Nem mesmo uma iminente tempestade solar conseguiria
destruí-los, uma vez que muitos têm megaservidores protegidos sob
montanhas e até no fundo do mar.
O
problema é quando a gente começa a pensar que é impossível existir sem
estar nas redes sociais. Penso, aqui, no velho e bom (?) existencialismo
sartreano adaptado à Era da Informação. Se só existo quando sou
reconhecido pelo outro, como dizia o filósofo francês, então é natural
que eu queira aumentar as minhas chances de existir me expondo a
milhares de outros. Ainda que esses outros sejam apenas avatares gerados
por uma fazenda de curtidas no interior da China.
Todos
os dias eu evoco o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, para me
perguntar se eu, que não sou nada, quero de fato ser algo além de um
tolo que tem em si todos os sonhos do mundo. E, como já estou ali diante
do espelho mesmo, aproveito para me perguntar que preço estaria
disposto a pagar pelo privilégio duvidoso de existir.
Hiperbólico
Claro
que a censura a Donald Trump e a outros líderes conservadores é um
movimento orquestrado absurdo. Não só antidemocrático; eu diria – num
arroubo hiperbólico – que é até anticivilizacional. Há um quê de
barbárie nessa coisa de calar oponentes políticos. Os hunos de hoje só
trocaram a espada e a guerra sangrenta pelos microprocessadores e a
poética da linguagem de programação.
Mas
pelo que estamos lutando de fato? Digo, o que estaríamos sacrificando
se abdicássemos totalmente das redes sociais ou se, melhor ainda, elas
não tivessem sido inventadas? No plano político, pode-se argumentar que
se ausentar das redes sociais é o mesmo que se ausentar do debate
público. E os espaços precisam ser ocupados. E coisa e tal.
Só
que o homem é muito mais do que um ente político. Essa é uma premissa
marxista que a esquerda absorveu com naturalidade e usou para convencer
conservadores e liberais. Me interessa, portanto, saber dos indivíduos
por que eles estão lutando por uma liberdade de expressão que, no fundo,
serve mais às redes sociais do que a uma palavra vazia como
“democracia”. Afinal, é a “expressão” dos usuários, seja ela um tuíte de
revolta, um post indignado no Facebook ou um vídeo colérico no YouTube,
o que dá poder financeiro e político às Big Tech.
Talvez
o silêncio imposto aos poderosos e, por extensão, a seus seguidores
seja uma bênção disfarçada. Uma oportunidade de perceber que as redes
sociais são simulacros de vida, e nunca a vida. De que somos, sim,
capazes de existir num mundo muito real, sem a necessidade de milhares
de followers. Talvez no silêncio autoritário percebamos que o hospício
precisa de nós muito mais do que nós precisamos dele.
Hospício
Não
uso a palavra “hospício” à toa. Na verdade, eu a uso porque preciso
reproduzir um trecho de “Uma Confissão”, de Liev Tolstói, aquele que
antigamente também se chamava Leão. É um trecho extremamente relevante
para a reflexão que proponho aqui, mas, veja só, de algum modo não se
encaixou nos parágrafos anteriores.
Tolstói,
já idoso, reflete sobre sua luta pela liberdade no ambiente intelectual
na Rússia do século XIX. E conclui que talvez todo aquele ímpeto
juvenil cheio de boas intenções não fosse tão virtuoso assim. Se eu não
soubesse que o trecho foi escrito por Tolstói, juraria que era alguém
falando sobre redes sociais e liberdade de expressão. Escreve ele:
“Estávamos
todos convencidos de que era necessário falar, escrever e publicar o
mais rápido possível e o máximo possível, e que tudo era para o bem da
Humanidade. E milhares de nós, discordando e humilhando uns aos outros,
publicávamos e escrevíamos – ensinando outros. E, sem perceber que não
sabíamos nada, e que para perguntas simples da vida, como “o que é o bem
e o que é o mal?” não tínhamos resposta, falávamos todos ao mesmo
tempo, sem ouvirmos uns aos outros, às vezes nos apoiando e elogiando,
só para recebermos apoio e sermos elogiados, às vezes nos enfurecendo –
exatamente como num hospício”.
Duvido
que o #SilenceDay sirva para alguma coisa na prática. E até de seu
efeito simbólico eu desconfio. Mas não de seu potencial como uma espécie
de ritual de purificação. Ao fim do dia, é possível que você descubra,
com algum espanto, que o silêncio também tem esta vantagem: nos impede
de responder afirmativamente quando diante de uma tentação.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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