Em homenagem a Roger Scruton, que nos deixou há exatamente um ano, reproduzo texto publicado com exclusividade neste blog:
O livro A Mentalidade Muçulmana: As Raízes da Crise,
de Robert R. Reilly, tem tradução brasileira pela LVM, São Paulo, 2020
(336 páginas), e conta com versão para Kindle, da Amazon. O prefácio do
saudoso filósofo Roger Scruton é publicado com exclusividade neste
blog:
As raízes da
civilização ocidental estão na religião de Israel, na cultura da Grécia,
e no direito de Roma, e a síntese resultante floresceu e decaiu de mil
maneiras durante os dois milênios que se seguiram à morte de Cristo.
Tenha sido expandindo-se para novos territórios ou retirando-se para as
cidades, a civilização ocidental experimentou, continuamente, novas
instituições, novas leis, novas formas de ordem política, novas crenças
científicas e novas práticas nas artes. E essa tradição de experimento
levou, com o tempo, ao Iluminismo, à democracia, e a formas de ordem
social nas quais as liberdades de opinião e de religião são garantidas
pelo Estado.
Por
que não aconteceu algo parecido no mundo islâmico? Por que essa
civilização, que brotou com tanta abundância de energia no século VII da
nossa era, e que se espalhou pelo norte da África e pelo Oriente Médio
produzindo cidades, universidades, bibliotecas, e uma florescente
cultura cortês que deixou uma marca permanente no mundo, hoje é, em
tantos lugares, muda, violenta, ressentida? Por que o islã hoje parece
não apenas tolerar a violência de seus defensores mais enérgicos, mas
também endossá-la e pregá-la? Por que as minorias muçulmanas na Europa,
que emigram para gozar dos benefícios de uma jurisdição secular, pedem
outro tipo de lei, ainda que tão poucas delas pareçam concordar com o
que essa lei diz ou com quem tem o direito de promulgá-la?
Neste
livro lúcido e fascinante, Robert R. Reilly propõe-se a responder essas
perguntas. Seu objetivo é mostrar que a civilização islâmica, que levou
aos principados urbanos da Andaluzia no ocidente, e ao riso místico dos
sufis no oriente, passou por uma crise moral e intelectual entre os
séculos IX e XI, quando voltou as costas para a filosofia e refugiou-se
no dogma.
Vários
fatores são responsáveis por essa súbita ossificação, mas o principal,
na visão de Reilly, foram a ascensão da seita asharita, no século X, e a
derrota da seita rival, a mutazalita. Os asharitas encontraram uma voz
potente no imame al-Ghazali (†1111), filósofo e teólogo brilhante, cujo
espírito atormentado, enfim, encontrou refúgio em uma unidade mística
com Alá. A razão humana nos ensina a questionar as coisas, a descobrir
as coisas, e a fazer leis para nos governarmos melhor. Por isso, a razão
era – para al-Ghazali – inimiga do islã, que exige uma submissão
absoluta e sem questionamentos à vontade de Alá. Em seu celebrado
tratado A Incoerência dos Filósofos, al-Ghazali propôs-se a mostrar que a
razão, como reverenciada nos textos de Platão, de Aristóteles (384-322
a.C.), e de seus seguidores, não leva a nada além de trevas e de
contradições, e que a única luz que brilha na mente do homem é a luz da
revelação. Apesar de os argumentos de al-Ghazali serem perfeitamente
refutados por Averróis (1126-1198) – também conhecido como Ibn Rushd –
em seu A Incoerência da Incoerência, o islã apressou-se em abraçar a
doutrina asharita, que tornava a ideia de submissão muito mais
compreensível. Averróis foi mandado da Andaluzia para o exílio, e a voz
da razão deixou de ser ouvida nas cortes dos príncipes muçulmanos
sunitas.
O
ataque à filosofia veio junto com um ataque igualmente determinado à
lei e à jurisprudência (fiqh). Os primeiros juristas islâmicos tentaram
conciliar o Corão e as tradições com as exigências da justiça comum, e
desenvolveram um sistema jurídico que podia ser aplicado às
circunstâncias da vida social e comercial que iam se desenvolvendo. A
interpretação da lei era sujeita ao estudo e a emendas pelo esforço
individual (ijtihad) dos juristas, que, por isso, capacitavam-se para
adaptar as frágeis injunções do Livro Sagrado à realidade das sociedades
muçulmanas. No século X ou XI da nossa era, tornou-se aceito que “a
porta da ijtihad se fechara” – como o próprio al-Ghazali declarara.
Desde então, o islã sunita adotou a posição oficial de que nenhuma nova
interpretação da lei poderia ser buscada, e que aquilo que parecia certo
no Cairo do século XII há de parecer certo hoje. Será, então, de se
surpreender caso ninguém consiga encontrar um modo claro de conciliar a
sharia com os fatos da vida e do governo modernos, ou que um dos
principais juristas de al-Azhar, a antiga universidade do Cairo, possa
decidir que não há problema em um homem e uma mulher que não se conhecem
estarem juntos sozinhos, desde que ele chupe seus seios?"
Filosofia
e dogma, lei civil e lei divina, sempre são difíceis de conciliar.
Porém, no mundo islâmico, a tensão entre eles assumiu um caráter
especial, pois envolve um conflito entre duas interpretações rivais do
Corão. Numa interpretação, a dos mutazalitas, o Corão foi criado por
Deus no momento de sua revelação. Assim, ele deve ser interpretado
segundo as circunstâncias em que foi revelado, e segundo o propósito de
Deus ao revelá-lo. Na interpretação asharita, o Corão é incriado, coevo
com o Todo-Poderoso, sua palavra eterna, que nada deve às contingências
da vida na Arábia de Maomé, dilacerada pela guerra. O resumo apresentado
por Reilly dessa disputa é particularmente esclarecedor, sugerindo o
quanto será difícil obter, em nossas relações com os líderes
autonomeados da comunidade sunita, as interpretações flexíveis da fé que
permitiriam o crescimento de uma tolerância real e duradoura daqueles
que a rejeitam.
A
brilhante explicação de Reilly do efeito de longo prazo da “limitação
da mentalidade muçulmana” é uma leitura que dá o que pensar. As
sociedades islâmicas, como ele mostra, raramente se adaptaram às formas
da política moderna, à perspectiva da ciência moderna, ou às exigências
da migração global. Se Reilly tem razão – e certamente tem – então o
ressentimento que anima o terrorista muçulmano deve ser atribuído não a
nosso sucesso, mas ao fracasso muçulmano. Esse fracasso não é o
resultado inevitável do islã; trata-se, antes, do efeito de um ato de
suicídio cultural e intelectual, que ocorreu oito séculos atrás. Reilly
oferece uma explicação persuasiva não do quê deu errado, mas de por que
deu errado. Ele localiza a origem de tal erro em uma teologia deformada
gestada nos séculos IX e X e na cultura disfuncional que surgiu dela. A
ortodoxia asharita, afirma ele, legou ao islã o conceito errado de
Deus.
Fiquem
atentos, planejadores de políticas públicas: a menos que vocês estejam
dispostos a admitir que estão enfrentando um problema essencialmente
teológico no Oriente Médio, não prescrevam soluções, porque vocês podem
efetivamente piorar a situação – particularmente por criar a falsa
impressão de que programas econômicos, sociológicos ou políticos podem
consertar aquilo que, na verdade, é um delírio de fé. Não podem. Como
argumenta Reilly, com persuasão, o problema precisa ser abordado no
nível em que existe. O grande mérito deste livro está em formular
claramente os termos desse profundo problema teológico, a crise a que
ele nos levou, e, por fim, as escolhas que hoje duramente se apresentam
aos muçulmanos contemporâneos. Como mostra Reilly, há muçulmanos que
sabem como sair do atoleiro, mas eles raramente podem encontrar plateias
ou governos dispostos a ouvi-los e a protegê-los.
O
resultado do embate dentro do islã hoje terá grandes consequências para
todos nós. Ao nos ajudar a entender esse embate, este livro serve a um
propósito pelo qual todos devemos ficar profundamente gratos.
Roger Scruton
BLOG ORLANDO TAMBOSI


Nenhum comentário:
Postar um comentário