
Simone Tebet diz que a crise econômica é da maior gravidade
Ingrid Soares
Correio Braziliense
Primeira mulher a exercer a presidência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Simone Tebet (MDB-MS) concorre com outros três colegas do partido (Eduardo Gomes, Fernando Bezerra Coelho e Eduardo Braga) ao cargo de presidente da Casa. Se eleita, Tebet será também a primeira mulher a comandar as sessões do Senado e do Congresso.
A parlamentar herdou a veia política de seu pai, Ramez Tebet, ex-presidente do Senado e ex-governador do Mato Grosso do Sul. De perfil conciliador, a candidata lamenta que as mulheres, embora sejam maioria na sociedade brasileira, ainda estejam ausentes nos espaços de principais trechos da entrevista de Simone Tebet ao Correio.
Por que concorrer à Presidência do Senado?
Trata-se de um entendimento, que acredito ser da maioria
de senadores, de que o Senado exerça, com independência, sem perder a
harmonia, de fato, o seu papel institucional e político, bem a propósito
de sua própria história, quando chamado a atuar nas nossas maiores
crises. A pandemia do novo coronavírus traz como reflexo uma das maiores
crises econômicas dos últimos tempos. O Senado precisa estar cada vez
mais próximo dos grandes interesses e necessidades da população
brasileira. Nossa agenda deve ser a do desenvolvimento, geração de
emprego, reformas estruturantes, recursos voltados a políticas públicas
de habitação, saúde, educação. Essas pautas precisam estar na mesa (em
2021). A população brasileira exige respostas urgentes.
A que a senhora atribui a demora do MDB em decidir por um candidato?
O MDB não poderia pregar a democracia externa se,
internamente, não a exercesse. O MDB tem uma história de aglutinar
diferentes pensamentos. Mas ele também construiu essa mesma história por
meio da construção de consensos. Sei que a razão do tempo muitas vezes
conspira, e o processo foi antecipado pelo lançamento da candidatura do
Pacheco (Rodrigo Pacheco, DEM-MG) pelo presidente da Casa, mas o Senado
sempre teve o seu tempo e, diferentemente da Câmara dos Deputados, o
processo está apenas começando.
Os líderes do governo no Senado e no Congresso são
emedebistas. Mas Alcolumbre também é próximo de Bolsonaro. Como o
Planalto deveria se posicionar na disputa?
Com neutralidade. Existem duas palavras que não precisam
ser mágicas, porque elas não saem de cartolas; estão gravadas na
Constituição: harmonia e independência. O presidente do Senado é, também
e ao mesmo tempo, presidente do Congresso Nacional. Cabe a ele fazer
valer e exercitar esses dois postulados constitucionais. O mesmo deve
ocorrer com os chefes dos outros Poderes. Quanto à fidelidade do MDB,
ela sempre se direcionou às propostas do governo que se mostraram, ou
que se mostrem, necessárias ao país, independente de que governo.
Como ficaria a relação entre o MDB e o governo em caso de apoio do Executivo ao candidato de Alcolumbre?
Não sei se esse alegado apoio é baseado em fatos. O MDB, a
meu ver e a meu sentir, vai continuar defendendo o melhor para o
Brasil, em clima de harmonia e de independência, repito.
E quanto à sua relação com o governo Bolsonaro? A senhora tem feito críticas, mas também apoia medidas econômicas do Planalto.
Permita-me dizer que a minha atuação política é um exemplo
de como é possível pautar-se pela harmonia e pela independência. Eu
nunca disse “isso é bom (ou mau) para o governo”. Defendi todas as teses
e votei favorável a tudo o que, no meu julgamento e segundo a minha
consciência, é bom para o país. Estão errados os que julgam que a
independência fere a harmonia. Ao contrário, porque a dependência é que
fere a democracia. Os três poderes saem fortalecidos, se obedecidos
esses dois postulados.
Há pressão de senadores pela volta do auxílio emergencial. Como avalia essa questão?
Essa pressão não se origina nos senadores, mas na
realidade brasileira, que se desnudou ainda mais, nesses tempos de
pandemia. Uma realidade com as maiores disparidades sociais de todo o
planeta. Com o desemprego que já ultrapassou o teto das nossas
preocupações. Com a fome que ronda, cada vez mais, as famílias
brasileiras, temos de fazer algo, e esse algo tem de ser urgente, porque
a fome não espera. A vida é agora. O Senado nunca faltou a esse
chamado, vindo na forma de lamentos de dor. Não será diferente agora,
independente de quem postula, e de quem assumirá, a presidência da Casa.
A invasão do Capitólio nos EUA pode se repetir no Brasil?
Não há como negar que a democracia foi atacada lá. Mas a
própria democracia demonstrou possuir condições plenas de autodefesa.
Também não será diferente aqui. A nossa democracia é mais jovem que a de
lá, e sofreu muito mais solavancos ao longo da nossa história, mas ela
também se mostra fortalecida. A qualquer movimento de invasão às nossas
instituições democráticas, nós estaremos de prontidão com saídas
constitucionais.
Se eleita, a senhora será a primeira mulher a ocupar a presidência da Casa. Como se sente a respeito?
Agora, em um degrau superior, sinto o mesmo que quando
assumi, como a primeira mulher, a presidência da Comissão de
Constituição e Justiça do Senado: um misto de orgulho pelo fato e de
indignação com a história. Afinal, não deixa de ser mais um exemplo de
como a mulher brasileira demorou tanto a ocupar espaços de poder no
nosso país. Somos a maioria da população, dos eleitores, dos estudantes
universitários, e o timbre de voz da direção maior do Legislativo
brasileiro continua sendo masculino. A galeria de fotos dos
ex-presidentes do Senado é devedora com as mulheres brasileiras.
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