Se até a democracia mais longeva e as instituições mais sólidas do planeta se tornaram vulneráveis, imagine as demais. Coluna de Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:
Houve
quem comparasse a baderna no Capitólio aos eventos que levaram a
destruição da sede do Congresso em 1812, quando ingleses e canadenses
tocaram fogo no edifício. Alguns mais alucinados viram um golpe de
Estado e outros ainda mais desbaratados declaram ter havido uma
insurgência. A tarde de infâmia que teve como palco a capital americana
nem de longe sustenta as leituras mais fatalistas sobre o destino dos
Estados Unidos. O resultado direto dos eventos de Washington foi a
desmoralização completa de Donald Trump. A implosão da imagem do
presidente repercutiu em qualquer um que o apoiou o apoie. A invasão ao
Capitólio se transformou em uma mancha no trumpismo.
Há
suspeitas de que os distúrbios possam ter sido provocados por
infiltrados antifa. Um pequeno grupo capaz de inflamar a massa. Pura
tática black bloc. Uma teoria que não é de todo sem pé sem cabeça
considerando o fato de que os milhares de trumpistas que se reuniram em
vários protestos pelo país jamais se comportaram como bandoleiros.
Naquele mesmo dia, depois do discurso de Trump, que tem sido acusado
como como o gatilho da balbúrdia, eles percorreram os cerca de 2,5
quilômetros que separam a Casa Branca do Capitólio sem realizar nenhum
tipo de distúrbio ou depredação.
Mas
a teoria da infiltração não se explica sozinha. Se de fato isso
ocorreu, só funcionou porque no seio do trumpismo há um perigoso
processo de radicalização. Movimento tão crítico que pode explicar, por
si só, a eclosão da violência, descartando a necessidade de um
catalizador como a infiltração antifa.
O
exemplo mais bem acabado deste processo é o QAnon. Q é pseudônimo de um
suposto whistleblower que anonimamente (Anon) tem revelado as mais
sombrias conspirações dentro do governo dos Estados Unidos e as mais
horripilantes trapaças do establishment. Surgido em 2017, o fenômeno Q
decolou depois de vários outros “Anons” que tentaram emplacar histórias
tão malucas quanto em grupos de internet frequentados por jovens e
adultos adeptos de teorias conspirativas ou psicologicamente
perturbados.
Nas
manifestações desta semana e em quase todas as que ocorreram em favor
de Trump desde o início de seu governo bandeiras e camisetas com o Q
eram uma constante. O movimento que ninguém sabe quem está por trás
ganhou o DNA trumpista e virou sinônimo de luta contra as forças
maléficas que se instalaram no coração e no poder na América.
A
temeridade é tão profunda que os seguidores do Q podem estar agindo
como marionetes de serviços de inteligência estrangeiros por exemplo.
Ruminando as histórias malucas contadas Deus sabe por quem e
transformando-as em verdades absolutas.
O Q surgiu como sendo um aliado de Trump e se demonstrou o seu maior inimigo.
Os
membros do MAGA – movimento que leva as iniciais de Make America Great
Again – andam tão enlouquecidos por terem a certeza de que foram
roubados nas eleições passadas que têm aceitado como válido qualquer
movimento aliado.
Este
foi o backdoor que o Q, e quem está por trás dele, valeu-se para minar o
trumpismo e transformar o movimento que não só emparedou o partido
Democrata, mas os próprios republicanos.
A
forma de menosprezar a força política que surgiu em torno de Trump era a
ridicularização, caipirismo, fascismo, racismo e toda ordem de abjeções
possíveis. Ou como disse Hillary Clinton, uns deploráveis.
Depois
de quatro anos de fracassos, o QAnon conseguiu jogar cada um dos mais
de 74 milhões de eleitores na lama. De certa forma, cada um deles
apareceu trepado nas pareces do Capitólio, ou quebrando suas janelas.
Todos viraram uns vândalos, apoiadores de um presidente egoísta que
tocou fogo no país por simplesmente não aceitar que perdeu a eleição.
Os
Estados Unidos viveram uma onda de barbárie e destruição em meios aos
protestos que ocorreram em decorrência da morte de George Floyd. A
reboque veio o pessoal do Black Lives Matter (BLM) que recebeu uma
espécie de salvo-conduto para o vandalismo.
Sem
se tratar de justificar os erros dos apoiadores de Trump, eles podem
ser considerados umas crianças no jardim de infância quando comparados
com a ferocidade dos movimentos “antifascistas”.
O ponto central foi o ataque ao símbolo. O Capitólio.
Não
faltou vontade aos antifas de tocar fogo na Casa Branca ou no
Congresso. Eles não o fizeram porque as autoridades não deixaram.
Contiveram os baderneiros com gás lacrimogêneo e os afastaram com
barricadas e muita polícia.
E,
ao contrário do que o senso comum diz, as autoridades não fizeram isso
porque eram manifestantes negros. O cerco pesado foi um favor imenso
para eles. Pois se o Capitólio tivesse sido tratado como qualquer uma
das instalações que os simpatizantes do BLM invadiram, aí sim 1812 teria
se repetido. E seria duro seguir passando a mão na cabeça do BLM.
Os
seguidores do QAnon se transformaram em um rebanho fácil de manejar por
quem os criou. Mas algo cada vez mais complexo de controlar e
neutralizar por quem precisa urgentemente entender que a radicalização é
um instrumento imprevisível e perigoso.
Nos
anos de 1980, a Rússia implantou no mundo uma fake news que até hoje
alimenta a mente de gente mal informada ou puramente conspirativa.
Construiu minuciosamente a narrativa que o mundo acreditasse que o vírus
da Aids era uma criação dos Estados Unidos. Uma arma biológica.
Q
é algo do tipo. Uma invenção meticulosamente bem construída, operada
por quem sabe o que faz. Plantada no coração de um movimento ao mesmo
tempo poderoso e incompreendido. Movimento que levou à eleição de Trump
em 2016 e dá sinais de que tem vida própria para além do partido que o
hospedou.
Q
deve servir de alerta para os outros países e em especial para o
Brasil, devido às semelhanças do processo político, das disputas e das
fraturas existentes. Trump tem responsabilidade pelos seus erros. Mas
foi o Q – uma armação sem tamanho – que abduziu uma parte de sua base.
Os
elementos são claríssimos e as chances que eles se repitam no Brasil
são certas. Identificá-los e combatê-los não só poderá salvar o
presidente Jair Bolsonaro de ser canibalizado pelos próprios apoiadores –
e isso não significa ser atitude de bolsonarista – como protegerá o
processo democrático brasileiro dos efeitos devastadores desse tipo de
ação que surge nas trevas do anonimato.
Recentemente,
o Brasil viu uma aglomeração de desajuizados sob o nome de “Os 300 pelo
Brasil”. Uma encenação horrorosa liderada por Sara Giromini. Uma
militante com nome e rosto conhecidos.
No
Brasil há terra fértil suficiente para operações como a do QAnon. O
processo de radicalização da direita brasileira, aos moldes do trumpismo
só interessa a quem quer validar a tese de que quem não votou em
Fernando Haddad em 2016 e não votar no anti-Bolsonaro que for
apresentado em 2022 é o mesmo tipo de radical que marcha com tochas em
frente ao Supremo.
As
manifestações das autoridades brasileiras e os textos que se propuseram
a refletir a triste tarde de 6 de janeiro em Washington, D.C. tratavam
os Estados Unidos como um bananal a ser evitado. O exemplo de que o
Brasil pode vir a se tornar muito em breve.
As
cenas tristes da invasão ao Capitólio são um soluço da democracia
americana. Os americanos viveram algumas horas do que o Brasil é todo
dia. Só faltaram shows de funk e axé no Brazilian Day desta semana.
No
quesito invasão do Congresso, o Brasil é autoridade mundial. O
histórico inclui sem terras, índios, professores, policiais grevistas,
sindicalistas. Em 2013, quando milhares de manifestantes se apinharam
sobre o prédio do Congresso Nacional, ninguém viu assalto às
instituições democráticas.
Mas nos Estados Unidos?
É
esta a questão chave. Justamente por acontecer nos Estados Unidos que o
problema chama a atenção. Se até a democracia mais longeva e as
instituições mais sólidas do planeta se tornaram vulneráveis, imagine as
demais.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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