Ficou mais uma vez claro que não vale tudo para ganhar pontos na luta política e eleitoral e que os bons governantes são aqueles que não temem tomar medidas impopulares, mas eficazes. José Milhazes para o Observador:
1 A
julgar pela gestão desastrosa da pandemia em Portugal, pode concluir-se
que já é tempo de passar não só um atestado de incompetência aos nossos
governantes, mas também de total inconsciência a um número
significativo de “cidadões”.
Desta
vez, Portugal ocupa o primeiro lugar do mundo pela pior das razões:
pelo número de infectados e mortos devido à pandemia, situação que só
pode ser surpreendente para quem tem andado distraído nos últimos meses.
Ainda
antes do Natal e do Ano Novo já era mais do que previsível o aumento
brusco do número de infectados e mortos devido à Covid-19 se fossem
“suavizadas” as medidas de combate à pandemia, mas o Governo e o
Presidente decidiram não quebrar a tradição e ser mais “tolerantes”
nessa altura. Isto, a despeito da opinião dos especialistas da área da
saúde. O resultado foi aquilo a que chamei de “populismo criminoso”.
Ficou mais uma vez claro, que não vale tudo para ganhar pontos na luta
política e eleitoral e que os bons governantes são aqueles que não temem
tomar medidas impopulares, mas eficazes.
Esta
política populista poderá reflectir-se de forma desastrosa nos
resultados das eleições presidenciais. Os nossos políticos tiveram muito
tempo, já que a pandemia dura há quase um ano, para considerar a
possibilidade de adiamento do escrutínio. É verdade que isso daria muito
trabalho, pois exigiria a revisão da Constituição, etc., etc., mas tudo
poderá ser agora ainda mais difícil ou perigoso.
A
campanha eleitoral mais parece o Carnaval. Não pelo uso de máscaras,
mas pela “chegada” de “ciganos feitos à pressão, pela moda do batom
vermelho e pelos testes à Covid-19 feitos ao Presidente/candidato: até
pareceu um semáforo a piscar com os resultados negativos e o positivo.
O
mais provável é que a abstenção atinja níveis nunca vistos e isso não
se deverá ao grande número de vítimas da pandemia. O medo e o cansaço
político poderão ter forte influência. Por conseguinte, o novo
Presidente, caso vença à primeira volta, terá uma base de apoio bastante
fragilizada, o que não reforça a democracia.
Por
isso, é preciso começar a pensar já no que fazer quando a pandemia
estiver controlada. Um dos primeiros passos a dar será demitir o actual
Governo e convocar eleições legislativas para que os Portugueses julguem
a forma como a luta contra a pandemia foi gerida. Se estiverem
contentes com o trabalho de António Costa, Eduardo Cabrita, Marta
Temido, etc., poderão dar maioria absoluta ao executivo socialista.
(Aliás, isso pode e deve ser feito durante a pandemia se o Governo continuar a dar sinais de clara incompetência).
Mas
nesta análise não posso deixar de me debruçar sobre o comportamento dos
Portugueses, principalmente daqueles a quem chamaria “cidadões”. Estes
já deram provas de que, infelizmente, são numerosos e acham que as leis,
mesmo numa situação de emergência, não são para cumprir. Um exemplo
degradante é o número de máscaras atiradas para os jardins e passeios.
Ao
violarem as mais elementares regras de segurança sanitária, os
“cidadões” não só colocam em perigo a sua saúde, mas também a dos
cidadãos. E, além disso, contribuem para sobrecarregar os hospitais.
Há
muito que ficou claro que os apelos à cidadania caiem em saco roto e só
resta um meio real de chamar os “cidadões” à razão: multas, multas e
multas pesadas.
Os números de multas revelados pela polícia mostram que as forças da ordem ainda perdem tempo com a pedagogia.
E
não me venham acusar de querer impor ditaduras, regimes autoritários,
etc. Se estamos em estado de guerra, os infractores são traidores. E a
guerra poderia não ter começado se as pessoas simplesmente se
respeitassem umas às outras.
2
A detenção do opositor russo Alexey Navalny não constituiu surpresa
para ninguém, mas foi caricata e ridícula a forma como foi feita.
Vladimir
Putin e a sua corte repetem insistentemente que Navalny não representa
ninguém na Rússia, que é uma criação da CIA norte-americana para
desestabilizar o seu regime. Por isso, o czar diz não ter medo de uma
pessoa que, para ele, não tem nome nem apelido.
Contudo,
a recepção ao opositor mostra que esse discurso tem cada vez menos a
ver com a realidade. Quando as autoridades russas viram que centenas de
pessoas se reuniram no aeroporto de Vnukovo, onde devia aterrar o avião
com o “paciente de Berlim” (um dos epítetos do Kremlin para Navalny),
cercaram o edifício com polícia de choque e as detenções começaram. Isto
também era expectável.
Mas
Putin foi mais longe no campo da luta contra um “opositor
insignificante” e mandou desviar o avião para o aeroporto de
Sheremetevo, situado a umas dezenas de quilómetros do primeiro. Além
disso, a polícia montou barreiras para dificultar o movimento dos
opositores.
Seguindo
a lógica putinista, estávamos a assistir ao combate contra uma mosca,
utilizando os mísseis supersónicos tão publicitados pela propaganda
russa.
Detido
na zona de controlo de passaportes, Navalny foi levado para uma
esquadra de polícia dos arredores de Moscovo e, no dia seguinte, contra
todas as normais processuais, foi aí julgado por uma juíza chamada ao
local para o efeito. As paredes da “sala de audiências” da esquadra de
polícia estavam decoradas com retratos de antigos dirigentes dos órgãos
de segurança da União Soviética, entre eles Guenrich Yagoda, um dos mais
conhecidos carrascos do estalinismo. Como só alguns “órgãos de
informação” leais ao poder estiveram na sala, não se sabe se o retrato
desse carrasco estaria acompanhado dos de Iajov ou Béria.
Navalny
foi condenado a 30 dias de prisão, mas as condenações não se ficarão
por aqui. Isso significa que Putin tem medo, e cada vez mais, à medida
que a paranóia do poder absoluto se apodera dele. E, como é sabido, o
medo não é bom conselheiro.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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