Liberdade de expressão é algo que não existe em nuances. Ou você é livre para dizer tudo o que quiser – ciente de que arcará com as consequências caso suas palavras sejam criminosas – ou você não é livre e ponto. Flavio Quintela para a Gazeta do Povo:
Pudemos
assistir, nos últimos dias, ao maior ataque à liberdade de expressão já
perpetrado na história recente. O banimento de Donald Trump de todas as
grandes plataformas de comunicação digital é uma afronta sem
precedentes a um dos mais importantes pilares que sustentam as
democracias modernas. Sem liberdade de expressão não há debate, não há
imprensa, não há substrato para que a verdade apareça. Qualquer defesa
desses atos de censura é injustificável perante os princípios e direitos
que embasam a civilização ocidental. A única explicação possível para o
regozijo explicitado por muitos jornalistas, comentaristas e
influenciadores é também a mais pedestre e banal: satisfação vingativa
por conta de nojinhos pessoais.
Dentre
todos os grandes temas que fazem parte das intermináveis discussões
entre direita e esquerda, já inclusas todas as suas variantes, três me
são especialmente preciosos: o direito à vida, o direito à liberdade de
expressão e o direito à defesa própria. Os três itens da agenda
“progressista” que atentam contra esses direitos são, respectivamente,
aborto, censura e desarmamento. Não falarei sobre aborto e desarmamento
neste artigo, mesmo porque já deixei minhas posições e opiniões sobre
ambos os assuntos muito bem claras, em diversas situações. O foco,
obviamente, será em discutir a liberdade de expressão, e os argumentos
que alguns ditos liberais e democratas têm usado para defender a
censura.
Primeiramente,
liberdade de expressão é algo que não existe em nuances. Ou você é
livre para dizer tudo o que quiser – ciente de que arcará com as
consequências caso suas palavras sejam criminosas – ou você não é livre e
ponto. A consequência criminal e jurídica do seu discurso não tolhe sua
liberdade, já que você tem o direito de falar, e esse direito encosta
no direito das outras pessoas de serem respeitadas em sua honra e
reputação. Censura, no entanto, é algo inaceitável. É proibir que alguém
fale, que alguém expresse publicamente suas ideias. A censura é o
instrumento mais comumente presente nos regimes totalitários que já
existiram na história humana. Calar os oponentes sempre foi e sempre
será o primeiro objetivo de um déspota.
Em
segundo lugar, o direito a empreender não pode se sobrepor à liberdade
de expressão, assim como não pode se sobrepor à igualdade racial e a
nenhum outro direito fundamental do homem. O discurso raso e infantil
que está se alastrando nas mídias sociais é o de que as plataformas de
comunicação são empresas privadas que têm o direito de restringir quem
quer que queiram. Esse argumento é tão ridículo que chega a ser
inacreditável que pessoas adultas e com um mínimo de formação
intelectual o entendam como válido. Ora, se Twitter e Facebook podem
banir usuários somente porque suas ideias diferem das concepções mais
comuns em vigência, poderiam as empresas aéreas, os restaurantes, os
supermercados e as lojas de roupa, por exemplo, banir alguém pelo mesmo
motivo? Se sua resposta for “sim”, o mundo que você almeja não passa de
uma distopia das mais macabras. Afinal, basta que você pare de pensar
dentro do que for estipulado como “normal” para que seu nome seja
incluído em alguma lista de expurgo.
Por
fim, quero tratar especificamente da legislação que favorece Twitter,
Facebook, Google e afins, protegendo essas empresas de uma miríade de
processos judiciais que as impediriam de existir. A seção 230 da Lei de
Telecomunicações de 1966, um pequeno texto de apenas 26 palavras, dá
imunidade a qualquer pessoa ou empresa que replique conteúdo de
terceiros na internet. Essa imunidade foi e continua sendo essencial
para que a internet seja uma zona livre. Ela subentende, no entanto, uma
contrapartida: que a parte a publicar a informação não aja como um
editora de conteúdo. O que Twitter e Facebook fizeram com Donald Trump –
e com muita gente menos famosa que ele nos últimos anos – foi
justamente agir como editores, dizendo quem pode e quem não pode falar
por suas plataformas, e restringindo o que pode e o que não pode ser
dito. A regra, nesse caso, é clara: se você editar cada um dos seus
usuários, tratando-os individualmente, passará a ser responsável pelo
conteúdo que publica. Você está filtrando, adicionando avisos,
favorecendo um ponto de vista em detrimento de outro. Você agora é muito
mais parecido com um jornal que com uma empresa de telefonia. Deixou de
transportar informação para escolher o que informar. Sua imunidade
precisa acabar.
No
ano passado, alguns perfis brasileiros de Twitter foram desativados.
Estavam na lista gente como Allan dos Santos e Bernardo Küster, dois
influenciadores aos quais já teci inúmeras críticas, e cujas opiniões
sobre o governo Bolsonaro são diametralmente opostas às minhas. Na época
do ocorrido, no entanto, deixei claro que achava aquilo um exemplo de
censura condenável. Alguns amigos e seguidores fizeram chacota com minha
posição. Disseram que estavam felizes demais, comemorando, e que depois
pensariam se aquilo era ruim ou não. A coisa não parou de acontecer.
Todos os dias, perfis de gente que fala o que Jack Dorsey e Mark
Zuckerberg consideram errado são calados em suas redes, ao mesmo tempo
em que perfis de criminosos, ditadores e assassinos são mantidos
intactos. E todos os dias tem gente que se diz apreciadora da liberdade
aplaudindo esses atos de censura.
No
fim das contas, parece que a liberdade é um conceito elevado demais
para muita gente. Basta uma pequena afronta às suas opiniões pessoais
para que cerrem fileiras com censuradores. Como disse no início, sua
sede de vingança e seu nojinho seletivo valem mais que um princípio
fundamental. Quando também forem calados, será tarde demais.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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