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Governo desprezou o extraordinário projeto de Amaral Gurgel
Isaías de Moraes
A eliminação do modelo do Nacional Desenvolvimentismo (que teve na Era Vargas seu auge e em Leonel Brizola seu último grande herdeiro), a abertura do mercado, do sistema produtivo nacional e a valorização do privado em detrimento do público –durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso– estariam inseridos, na visão do ex-presidente e de sua equipe, na necessidade de modernizar politicamente e economicamente a sociedade brasileira como condição para inserir-se competitivamente no processo de globalização.
No entanto, o que se notou não foi uma modernização, mas uma regressão da estrutura produtiva brasileira. A crença em um Desenvolvimento associado e dependente em detrimento do Nacional Desenvolvimentismo acelerou o nível de dependência econômica no Brasil.
INCENTIVO ÀS MULTINACIONAIS – No Brasil, os investimentos estrangeiros sob a liderança das empresas transnacionais e multinacionais não eram questionados, de forma que se garantiam incentivos a qualquer atividade industrial passível de substituir importação. O Desenvolvimento associado e dependente, aparentemente de forma inocente, acreditou que qualquer que fosse a indústria que se instalasse no Brasil, ela traria consigo igual prosperidade econômica ao país e aumento do bem-estar social.
Em outros países, o capital externo e as empresas multinacionais e transnacionais foram regulamentados e disciplinados, por exemplo Coreia do Sul e China. A título de ilustração, a China encarou o processo de globalização de maneira pragmática e realista, inserindo-se ativamente na economia mundial. Enquanto o Brasil e as demais economias latino-americanas optaram por uma inserção passiva, associada e dependentista, a China exerceu um forte controle sobre os fluxos de investimento estrangeiro direto e indireto, dependendo muito pouco dos empréstimos externos.
EXEMPLO DA CHINA – O capital externo, ao entrar na China, foi obrigado a aceitar uma regulação estatal implacável por meio de formação de empresas joint ventures com o Estado. A China, que tinha uma economia mais subdesenvolvida do que a do Brasil até 1990, conseguiu fugir desse modelo neoliberal periférico imposto pelas economias centrais, caminhando em direção ao seu catching-up e de seu desenvolvimento econômico.
Nos países periféricos, como o Brasil, que não conta com uma burguesia industrial-nacional cimentada, o Estado tem de, indubitavelmente, continuar sendo o centro de decisão econômica. Tal condição é fator primordial, pois há armadilhas na associação livre com o capital externo.
As principais armadilhas são que o capital externo pode reforçar setores de vantagens comparativas, no caso do Brasil os setores primários; ou criar um sistema de maquiladoras – quando a burguesia internacional produz bens manufaturados, mas não realizam transferência de tecnologia – bloqueando a integração, a ampliação, a sofisticação produtiva e as potencialidades da indústria local ainda infante.
LEMBREM DA GURGEL – Ambas as armadilhas, ou seja, reprimarização da estrutura produtiva e bloqueio aos capitalistas produtivistas nacionais tornaram-se realidade no Brasil. Nesse último ponto, um caso emblemático que voltou em mente recentemente por conta do fechamento da produção da Ford no país é o da Gurgel Motores S/A, que foi uma fabricante brasileira de automóveis e utilitários entre 1969 até sua falência em 1994.
A queda da Gurgel não ganhou tanta cobertura midiática na época, não choramos o fim do sonho de carro 100% nacional. Contudo, a construção de uma nova fábrica da Ford em Camaçari na Bahia, no ano de 2000, foi amplamente divulgada e comemorada pelos meios de comunicação.
A construção da nova fábrica da Ford, naquela época, foi vista como consequência de sucesso do modelo de Desenvolvimento associado e dependente. Vinte anos depois, a Ford fecha sua produção no Brasil.
ESTRATÉGIA EQUIVOCADA – O Desenvolvimento associado e dependente é falho. O economista Celso Furtado já denunciava suas limitações na década de 1980. O modelo é raso, inocente, imaturo e foi um fracasso. Ele desnacionalizou e regrediu a estrutura produtiva brasileira.
Insistir neste caminho é passionalidade argumentativa e negação do racionalismo-pragmático científico ou é entreguismo ao capital material, ao capital cultural e ao capital social das economias centrais. Em ambos os casos, é sentenciar o Brasil ao subdesenvolvimentismo permanente.
A sociedade brasileira precisa fazer uma autocrítica pelo caminho escolhido, isto é, o Desenvolvimento associado e dependente, que, na verdade, sempre orbitou dentro do paradigma liberal. Ele não trouxe prosperidade.
RELAÇÃO DISFUNCIONAL – Segundo Fiori (2001, p.55), o Desenvolvimento associado e dependente é um “cosmopolitismo de cócoras”, uma vez que é caracterizado por uma relação disfuncional. Uma das partes dessa relação não tem capacidade de administrar seu próprio desenvolvimento. O modelo de crescimento pautado na poupança externa e nos preceitos econômicos vindo do exterior faz com que o Brasil perca sua capacidade de traçar seu próprio projeto de sociedade, interferindo, inclusive, em sua própria identidade cultural.
Nessa autocrítica precisamos passar por um processo de catarse psicológica coletiva, precisamos chorar a perda de nossa rota desenvolvimentista, precisamos chorar a queda da Gurgel, não da Ford.
Após essa catarse, a sociedade brasileira precisa retomar a racionalidade pautada nos interesses coletivos e com elevado grau de homogeneidade social como mecanismo de conciliar uma taxa de crescimento econômico com absorção do desemprego e com distribuição de renda. A cultura e a criatividade brasileira têm de ser realçadas para o Brasil retomar um projeto de desenvolvimento nacional-popular.
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