A iniciativa privada seria uma parceira valiosa no esforço de vacinação; é preciso usar todos os meios possíveis para proteger a maior parte da população no menor intervalo de tempo. Editorial da Gazeta do Povo:
Se
tudo correr como previsto, em 20 de janeiro o Brasil se junta – com
algum atraso, é verdade – ao grupo de países que estão vacinando seus
cidadãos contra a Covid-19, segundo a promessa feita a prefeitos pelo
ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. A imunização de boa parte da
população é a maneira mais simples e certeira de proteger tanto a saúde
dos brasileiros quanto a economia, superando definitivamente aquela
dicotomia desnecessária que acabou prevalecendo desde o início da
pandemia. Enquanto defensores dos lockdowns mais severos minimizaram a
quebradeira, o desemprego e a pobreza adotando o slogan “a economia a
gente vê depois”, ignorando que não existe “depois” para quem precisa
colocar comida na mesa hoje, muitos dos que reconheciam o efeito
catastrófico da pandemia sobre os negócios tenderam a minimizar a doença
em si, ignorando que se trata de um vírus altamente contagioso, com
potencial para levar ao colapso os sistemas de saúde.
A
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prometeu para o
próximo domingo, dia 17, sua decisão sobre a autorização para uso
emergencial de duas vacinas: a da Universidade de Oxford/AstraZeneca,
priorizada pelo governo federal, e a Coronavac, incentivada
principalmente pelo governo de São Paulo e que foi alvo de disputas
políticas entre o governador João Doria e o presidente Jair Bolsonaro.
Ambas têm parceiros nacionais em sua produção – respectivamente, a
Fiocruz e o Instituto Butantan –, mas a imunização deve começar com
doses importadas: nesta sexta-feira, um avião decola rumo à Índia para
buscar 2 milhões de doses da vacina de Oxford, e vários lotes da
Coronavac já chegaram ao Brasil. A ausência mais notável por enquanto é a
da Pfizer/BioNTech, que ainda não solicitou autorização para uso
emergencial no Brasil de sua vacina, que vem sendo aplicada em vários
outros países – foi ela, por exemplo, que o papa Francisco e o emérito
Bento XVI receberam no Vaticano.
Aos
trancos e barrancos, portanto, desenha-se um panorama mais positivo que
aquele imaginado por quem assistiu, preocupado, à politização extrema
do assunto. O governo federal havia perdido tempo precioso meses atrás,
quando ainda não se sabia quais laboratórios venceriam a corrida pela
vacina, ao não buscar o maior número possível de opções para garantir
prioridade no recebimento e colocar praticamente todos os ovos em uma
única cesta, a vacina de Oxford. Felizmente, não apenas a vacina
britânica se mostrou bem-sucedida como também o presidente Bolsonaro
afirmou que compraria qualquer imunizante que tivesse a aprovação da
Anvisa, incluindo aquela que os apoiadores do presidente Bolsonaro
chamam pejorativamente de “vachina”.
Mas,
se por um lado a estratégia de vacinação é acertada, com prioridade
para os grupos de risco, profissionais de saúde e locais afetados mais
duramente pela pandemia, como Manaus, por outro o país pode estar
prestes a perder a oportunidade de acelerar o processo de imunização dos
brasileiros. Empresários paulistas ouviram de representantes de três
ministérios que as companhias não poderão adquirir vacinas por conta
própria para imunizar seus funcionários, sob o argumento de que a
vacinação será responsabilidade do governo. A reunião pode servir de
sinalização para o caso das clínicas particulares, que estavam dispostas
a adquirir um imunizante indiano, ainda em fase final de testes. O
laboratório Bharat Biotech chegou a anunciar acordos tanto com o Sistema
Único de Saúde quanto com uma distribuidora privada brasileira.
Diante
de uma situação tão drástica quando a pandemia de coronavírus, a
resposta mais lógica seria usar todos os meios possíveis para se atingir
o objetivo de proteger a maior parte da população no menor intervalo de
tempo. Os laboratórios estão privilegiando a venda a governos, que
fazem encomendas maiores, e a própria Bharat Biotech afirmou que, no
caso brasileiro, a prioridade seria do SUS. Mesmo assim, a iniciativa
privada seria uma parceira valiosa no esforço de vacinação, com a única
condição de que a rede particular não prejudicasse a aquisição das
vacinas pelo governo.
Permitir
a vacinação nas clínicas privadas e a aquisição de doses por empresas
reduziria a demanda sobre a rede pública e aceleraria a normalização da
atividade econômica, já que, pelo planejamento oficial, muitos
brasileiros que integram a força de trabalho ficarão no fim da fila. Em
um cenário no qual houvesse disponibilidade de vacina para todos,
monopolizar a vacinação nas mãos do governo seria, mais uma vez,
privilegiar o estatismo e dar força à ideia ultrapassada de que os mais
ricos só conseguem prosperar tirando algo dos mais pobres, o que não
seria o caso.
O
que se espera, agora, é que o país consiga superar todos os gargalos
logísticos naturais de uma operação de abrangência nacional e execute
seu programa de vacinação sem atrasos. Mas isso de pouco adiantará se a
população não aderir em quantidade suficiente para garantir o grau de
imunidade coletiva que, segundo os especialistas, impedirá a
disseminação do coronavírus. Como já explicamos neste espaço, antes
mesmo do aparecimento da Covid-19, a vacinação transcende a dimensão
individual, sendo também um pacto coletivo: quando todos os que podem se
vacinar o fazem, também protegem aqueles que, por diversos motivos
(como idade ou contraindicação médica), não podem se imunizar. Um
recente movimento infundado de desconfiança a respeito das vacinas levou
ao ressurgimento, no Brasil e em outros países, de doenças que se
julgavam vencidas, como o sarampo e a poliomielite. Que não deixemos
isso ocorrer também com a Covid-19.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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