As três esferas de governo agora se mobilizam para socorrer os manauaras. Para muitos, entretanto, a ajuda chega tarde demais. Até onde irá o desgoverno? Editorial do Estadão:
Não
foram poucas as vozes que no fim do ano passado alertaram para a
iminência de uma explosão de contaminação e mortes por covid-19 no País
nas primeiras semanas de 2021. É exatamente o que se vê agora. Não foi
presságio e tampouco mau agouro dos especialistas em saúde pública. Foi
apenas a antevisão de uma consequência lógica da irresponsabilidade com
que muitos governantes e cidadãos se portaram diante da ameaça de
contágio pelo novo coronavírus durante os festejos e férias de fim de
ano. Agora, a incúria, o egoísmo e o desmazelo de tantos que puseram a
fruição individual acima do interesse coletivo apresentam uma pesada
conta.
Na
quinta-feira passada, o País registrou recorde na média móvel de casos
diários de covid-19. De acordo com a apuração do consórcio de veículos
de imprensa, foram 56.453 casos em 24 horas. A Nação pranteou a morte de
cerca de 1,2 mil brasileiros por dia. Alguns hospitais particulares da
capital paulista já não têm vagas em UTI para atender pacientes
acometidos pela covid-19. Na capital fluminense também não há mais
leitos de terapia intensiva exclusivos para o tratamento da doença.
Em
nenhum município, no entanto, a situação é tão dramática como em
Manaus. Chegou-se ao ponto em que médicos e enfermeiros não têm outra
coisa a fazer a não ser administrar morfina em pacientes graves que
agonizam nos leitos pela falta de oxigênio. A sensação de impotência
levou ao desespero muitos desses profissionais. Por meio das redes
sociais, eles publicaram pungentes pedidos de ajuda enquanto viam seus
pacientes, um após o outro, morrerem afogados no seco. Só ontem
começaram a chegar cilindros de oxigênio a Manaus vindos do Rio e de São
Paulo em aviões da FAB.
O
colapso do sistema de saúde em Manaus é o retrato cruel de como a
negligência e o negacionismo do poder público, aliados à
irresponsabilidade dos cidadãos que fazem pouco-caso das medidas
protetivas contra o vírus, são mortais quando se está diante de uma
crise sanitária da magnitude da pandemia de covid-19. Não se chega a um
estágio desses sem uma longa esteira de erros e omissões.
Fiel
à sua índole, o presidente Jair Bolsonaro foi rápido ao fazer circular a
informação de que o governo federal repassou R$ 8,91 bilhões ao Estado
do Amazonas e R$ 2,36 bilhões à cidade de Manaus, sugerindo que nada tem
a ver com o desastre havido na capital amazonense. “Fizemos a nossa
parte”, disse o presidente ao grupo de apoiadores que batem ponto na
entrada do Palácio da Alvorada.
Em
primeiro lugar, repasses da União aos Estados e municípios decorrem das
leis e da Constituição, não da boa vontade do presidente da República.
Bolsonaro não fez nada além de sua obrigação ao repassar os recursos do
Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos
Municípios (FPM), além dos recursos extraordinários aprovados pelo
Congresso para dar conta do enfrentamento da pandemia. Segundo, em
nenhum momento desta emergência sanitária o resultado trágico em Manaus
ou em qualquer outro município decorreu da falta de dinheiro. Faltou ao
governo federal compromisso com os fatos, com a ciência, com a vida.
Faltou a coordenação, no âmbito federal, dos esforços nacionais para
debelar a peste.
Sobre
o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), também recai uma boa
parcela da responsabilidade pelo colapso da saúde pública em Manaus por
ter cedido à pressão de empresários e autorizado a flexibilização das
atividades comerciais no Estado, contrariando as recomendações das
autoridades sanitárias. “Eu preciso ouvir a voz das ruas”, justificou o
governador. Por esta sua “insurgência” contra a “ditadura do lockdown”,
Lima foi bastante festejado por apoiadores do presidente Bolsonaro.
Manaus
foi uma das cidades que sucumbiram ao falso dilema entre a “liberdade”
individual e o “arbítrio” das medidas de contenção ao novo coronavírus.
Como a natureza é implacável, o resultado não haveria de ser outro: o
aumento do número de mortes por um dos meios mais cruéis, a asfixia.
As
três esferas de governo agora se mobilizam para socorrer os manauaras.
Para muitos, entretanto, a ajuda chega tarde demais. Até onde irá o
desgoverno?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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