Opinião pública indignada e democratas com todas as vantagens na mão confluem para colocar no mesmo barco prática de crimes e simpatia política. Vilma Gryzinski:
Donald Trump debate-se no fundo do poço, os democratas estão por cima, as autoridades competentes estão cumprindo o seu papel.
A
opinião pública reflete o choque com os acontecimentos de quarta-feira,
onde uma parte da multidão que havia saído de um comício de Trump
invadiu o Congresso: 70% condenam os atos criminosos e 57% gostariam que
Trump deixasse a presidência mesmo faltando apenas oito dias para o fim
de seu mandato.
E
43% acham que ele deveria ser preso, um número que mostra como Trump
implodiu a si mesmo, levando ao paroxismo a tendência à autossabotagem
que demonstrou ao longo de seus quatro anos na Casa Branca.
O
clima é tão volátil que implica no erro de tratar todos os 74 milhões
que votaram nele como cúmplices dos crimes cometidos por poucas centenas
de pessoas quando invadiram o Capitólio e peitaram a polícia
responsável pela segurança do Congresso, praticando atos de vandalismo.
Como
duas pessoas morreram, um policial atingido na cabeça por um extintor
de incêndio e uma manifestante baleada quando tentou passar por um vidro
quebrado dentro do Congresso, as acusações contra as dezenas de
invasores, que não são poucas, entram no terreno do homicídio – e o
futuro de Trump fica mais complicado ainda.
Todo
mundo viu as cenas: com bandeiras americanas, pintados com as cores
nacionais ou levando o boné vermelho do Make America Great Again, os
manifestantes indubitavelmente se viam como patriotas ardorosos que
estavam ouvindo as palavras do presidente e denunciando o que
acreditavam ser uma grande fraude eleitoral.
Os que invadiram o Capitólio, aproveitando um policiamento inacreditavelmente fraco, transformaram-se em criminosos.
Acostumados, em suas manifestações, a cumprimentar e tirar selfies com policiais, peitaram os “traidores”.
Tinham
líderes maléficos coordenando tudo numa ação destinada a implodir a
democracia? Dificilmente. Com certeza haverá os mais ativos via redes
sociais, mas a amostra vista até agora cai mais para o patético.
O
sujeito que se transformou num dos símbolos da presepada por causa do
figurino exótico – peito nu tatuado e chapéu de pele com chifres – ,
Jacob Chansley, nome fantasia Jake Angeli, disse da prisão que não está
preocupado porque não cometeu nenhum crime: entrou no prédio do
Congresso porque a porta estava aberta (entrar em área restrita de órgão
governamental também é um ato criminoso).
A
mãe dele estava preocupada porque o filho não estava comendo nada.
Greve de fome por motivo político? Não, ele só ingere comida orgânica,
especialidade que as autoridades penitenciárias não podiam garantir.
Ingênuo, manipulado, tolo, conspiracionista, maluco ou o que for: será tratado com o rigor da lei.
Outro
manifestante preso, não identificado, disse numa entrevista –
rapidamente eliminada do Twitter, que agora virou central de censura –
que queria protestar no Congresso porque os políticos de Washington
“riem de nós”.
A
sensação de exclusão de uma grande parte dos cidadãos diante do
establishment foi o combustível que permitiu a Trump se transformar num
fenômeno político.
Os
americanos que hasteiam a bandeira no jardim e cantam com orgulho o
hino nacional agora, mais do que nunca, estão sendo demonizados como
brutamontes ignorantes, os deploráveis de Hillary Clinton e os perdidos
aferrados às armas e à religião, na descrição de Barack Obama viraram os
terroristas do Congresso
Colocá-los
todos nessa categoria – um rótulo adicional a racista, homofóbico e
xenófobo -, só vai aumentar esse sentimento de alienação.
Teria
Joe Biden o caráter e o estofo político necessários para, sem
palavreado vazio, se aproximar dessa metade da América profunda?
As
chances são baixíssimas, embora Biden tenha experiência suficiente para
saber que o discurso de sempre – “Somos todos americanos” – não vai
convencer ninguém. Mas nenhuma outra pessoa tem, hoje, a chance que a
história está dando ao próximo presidente americano.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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