A Arena da Amazônia é um monumento à estúpida arte de confiar nosso futuro a políticos e ao Estado. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:
No
dia 19 de março de 2010, uma década antes de a pandemia de Covid-19
tomar o mundo de assalto, o então governador do Amazonas, Eduardo Braga,
lançou a pedra fundamental da Arena da Amazônia, em Manaus. Na ocasião,
o vice-governador do estado, Omar Aziz, disse que o estádio tornaria o
Amazonas um lugar atrativo para mundo e que a Copa do Mundo “contribuirá
para o impacto positivo na economia e qualidade de vida da população ao
criar mais de 6 mil novas possibilidades de trabalho”.
Papo
de político. Platitudes. Jargão sem qualquer base na realidade. Palavra
ao vento, recebidas, à época, com aplausos e gritinhos antecipados de
“É campeão!”. Uma vez encerrada a cerimônia sob o sol inclemente, cada
qual foi para casa sonhar com o futuro próspero e glorioso e fácil como
só o lulismo era capaz de nos proporcionar.
Com
um atraso de quase um ano (por causa das chuvas) e depois de consumir
R$ 669,5 milhões (quase R$200 milhões acima do previsto), a Arena da
Amazônia foi finalmente entregue. Às moscas. O elefante caucasiano com
projeto do prestigiado escritório Gerkan, Marg and Partners não serve
para nada, uma vez que no Amazonas não há futebol capaz de lotar o
estádio.
A
um custo mensal superior a 1 milhão, a Arena da Amazônia tem uma única
função: aparecer nas páginas dos jornais de vez em quando para nos
lembrar das consequências de nossas escolhas coletivas. Da nossa
insistência no erro. Da nossa fé inexplicável nos governantes e na
possibilidade de alcançarmos uma espécie de nirvana econômico-social à
base da canetada bem-intencionada.
O estádio é um obelisco a celebrar nossa crença de que, qualquer que seja o problema, o governo dará um jeito.
Um problema para o futuro
É
tentador, mas não gosto da saída fácil e preguiçosa de culpar as
administrações do PT por tudo o que há de ruim no país de Bolsonaro –
inclusive o próprio. Para mim, esse argumento só serve para provar que
sempre haverá um culpado por nossas escolhas desastradas. E que, no
fundo, a democracia nada mais é do que a demoníaca festa de escolha de
um Bode Expiatório.
Mais
produtivo é, talvez, pensar na responsabilidade que cada um de nós
temos pela tragédia presente. Na responsabilidade individual e
intransferível. E aqui não me refiro apenas à tragédia sanitária da
pandemia de Covid-19. Penso na tragédia estética do anti-intelectualismo
e do elitismo blasé; na tragédia social da polarização e da
desconfiança generalizada; e até na tragédia futura, mas muito palpável,
da desesperança, da decepção. Sabe esse incômodo que você sente ao
abrir o noticiário? Esse mesmo.
O
contraste entre a felicidade no lançamento da pedra fundamental da
Arena da Amazônia e a raiva diante das informações de que faltou
oxigênio envasado num hospital de Manaus é falso. Ele dá a impressão de
estarmos vivendo dois períodos distintos, mas não é nada disso. Porque o
que se vê hoje é resultado daquele entusiasmo nascido da soberba e de
uma inexplicável supervalorização do presente à custa do futuro.
Sentimos raiva porque fizemos uma aposta errada. Mais uma.
Para
nossos governantes, sejam eles prefeitos, governadores ou o presidente
(o atual, os anteriores e os próximos), a palavra “legado” não faz
sentido algum. O futuro é problema do futuro. O horizonte de nossos
políticos alcança, no máximo, até as próximas eleições. Há muitos
teóricos (entre eles Scruton e Hoppe, para citar apenas dois que me vêm à
cabeça) que apontam nisso o problema fundamental das democracias
representativas. Há dias em que fica ainda mais difícil tentar refutar.
E
o que mais me espanta é que, diante desse descompromisso dos nossos
“líderes” para com as consequências históricas de seus atos, ainda há
quem seja capaz de joar todas as fichas na eficiência do Estado. Como se
o problema não fosse, hoje, a falta de oxigênio, e sim a falta de
oxigênio com a marca O2BRAS ou o "certificado de competência do governo
federal". Como se o problema não fosse o excesso de Estado, e sim a
ausência dele.
Como
se esse entroncamento de tragédias não fosse resultado de décadas e
décadas acreditando macunaimicamente que o futuro há de chegar, farto e
glorioso, se eu me deitar preguiçosamente numa rede e deixar que um mito
qualquer faça tudo por mim.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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