A União é, na verdade, tudo que a democracia americana tem de parecido com o resto do mundo. Mas o que a define e distingue de todo o resto é o que está daí para baixo. Artigo de Fernão Lara Mesquita:
Têm
sempre um grau de consistência maior que a média as análises de Luis
Sergio Henriques na página de artigos de O Estado de S. Paulo. Domingo
ele falava da relevância que terá fora das fronteiras americanas –
especialmente no Brasil de Bolsonaro, “a cópia” – a eleição presidencial
de novembro em que Donald Trump – “o original” – disputa a reeleição.
Ainda
que assinalando a diferença entre os americanos, “indivíduos livres e
acostumados à participação na vida pública” e nós “ibéricos tendentes à
arquitetura social barroca, perdido o indivíduo numa totalidade que não
domina e frequentemente o esmaga”, vê os sistemas políticos das duas
grandes nações desafiados por um problema análogo, com “o
abrasileiramento dos EUA e a americanização do Brasil” empurrando ambos
para “a morte das democracias”.
Vai
bem Luís Henrique quando aponta no “America First” de Trump a síntese
da retirada dos EUA das instâncias multilaterais, a começar pela ONU,
que não é tanto uma renúncia ao universalismo dos valores liberais
trazidos ao mundo pela revolução americana, é mais “a explicitação da
incapacidade de direção dos processos globais”. O isolacionismo do qual
os Estados Unidos foram arrancados a duras penas no século 20 para
defender a Europa de ameaças totalitárias de que eles mesmos sempre
estiveram livres – o nazismo e o socialismo – foi sempre uma marca
constitutiva do excepcionalismo daquele país.
Até
quando registra que esse “déficit de hegemonia” está presente também
internamente, com Trump, que rejeita de forma demagogicamente
reacionária um processo de globalização que sabe irreversível ao
“governar só para os seus” e apontar nas oposições cultural e política
inimigos internos que ameaçam o “excepcionalismo” e o “destino
manifesto” americanos, Luís Henrique vai bem.
Mas
trai o seu próprio “barroquismo” ao deixar subentendido que essa
participação na vida pública que existe lá e não existe aqui limita-se a
um “costume” e não responde, como de fato responde, aos níveis
radicalmente opostos de “empoderamento” (detesto a palavra mas para o
caso não há melhor) que as instituições deles concretamente proporcionam
e as nossas concretamente negam a sua majestade o povo.
Lá,
com recall, iniciativa e referendo, o povo realmente manda no governo e
por isso participa. Aqui o governo manda no povo e todas as instâncias
de representação são falsas, e portanto o povo não perde tempo fingindo
que participa. Não é uma diferença vagamente “cultural”, tudo decorre de
uma diferença prática e concretíssima de mecanismos institucionais que
onde quer que são instalados, produzem o mesmo efeito na disposição do
povo de participar.
Vai
sem dizer que, onde e quando pode, o povo “participa” no sentido de
favorecer o seu interesse o que invariavelmente significa libertar-se da
exploração dos parasitas da privilegiatura com resultados explosivos.
O
Brasil tem dos EUA exclusivamente a visão que pinta deles o “gueto
cultural” do antigo “Condado de York”. Mas Nova York é o pedaço menos
americano e menos democrático da democracia americana, obcecada com a
figura de sua majestade o presidente, igualmente a menos representativa
de tudo que a revolução americana tem de mais revolucionário.
A
União, à qual os estados resistiram até o último minuto na história da
formação do país, é a coisa menos americana da democracia americana. A
Constituição deles é, na verdade, uma negação da União, que ela
reconhece como um mal necessário para manter a inserção do “Novo Mundo”
no “Velho” mas que, por isso mesmo, cerca por todos os lados de
profiláticos checks and balances.
A
União é, na verdade, tudo que a democracia americana tem de parecido
com o resto do mundo. Mas o que a define e distingue de todo o resto é o
que está daí para baixo. A democracia que se pratica nos estados e nos
municípios, de cujas populações diretamente nascem os “ballot measures”
(tudo que eles decidem, tendo a necessidade por única medida, que vai
ser decidido no voto), esta sim é totalmente “excepcional” e, quase
sempre, desconhecida para o resto do mundo porque é um perigo mortal
para os poderes estabelecidos que “patrulham” ferozmente o assunto.
É
esta que é indestrutível. São nesses Estados (e cidades) Unidos que o
povo está de fato no poder. E, como todo mundo que um dia “comeu
melado”, jamais abrirá mão dele.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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