Este
trabalho, que visa a ilustrar a formação rousseauniana do Libertador
Simón Bolívar (1783-1930), bem como a avaliação que dele fez Karl Marx
(1818-1883), será dividido em três partes: I – A influência de Rousseau
na formação e na vida de Simón Bolívar. II – Marx, a filosofia alemã
(Kant, Hegel, Feuerbach) e a filosofia francesa (Rousseau, Saint-Simon,
Proudhon, Guizot e Constant) e III – Bolívar segundo Marx.
I – A influência de Rousseau na formação e na vida de Simón Bolívar
Esta
primeira parte foi publicada com o seguinte título: L´Influence de
Rousseau sur la formation et sur la vie de Simón Bolívar, no II Colloque
International de Montmorency: Jean-Jacques Rousseau, Politique et
Nation (realizado em Montmorency, França, em 1995).
É
indiscutível a presença dos ideais rousseaunianos nas lutas da
independência dos vários países ibero-americanos [cf. Sánches Vásquez,
1969; Vélez, 1978 e 1985, Arciniegas, 1984]. Tenciono mostrar a
inspiração exercida pelo filósofo de Genebra sobre uma das mais
expressivas personalidades do mundo ibero-americano: o Libertador Simón
Bolívar (1783-1830). Desenvolverei dois aspectos: 1) O Mestre, em que
destacarei como o pensamento rousseauniano inspirou o tutor e mestre de
Bolívar, Simón Rodríguez (1771-1854) e como este marcou a formação
intelectual do Libertador e 2) O Discípulo, em que analisarei a
influência de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em Bolívar.
1) O Mestre
Simón
Rodríguez foi, sem dúvida, o educador que exerceu maior influência na
formação da personalidade do Libertador Simón Bolívar. Rodríguez nasceu
em Caracas e veio a falecer em Amotape, cidadezinha do Departamento de
Piura (Perú) [Cf. Liévano Aguirre, 1987: 15-22].
Se
teve alguém que encarnou, de forma fiel, o ideal existencial e de
concepção humanística apregoado por Jean-Jacques Rousseau, foi Simón
Rodríguez. Ele reproduziu, na sua vida e nos seus ensinamentos, os
ideais rousseaunianos: autodidatismo, relação estreita entre natureza e
sociedade, moral alicerçada na liberdade, domínio do sentimento sobre a
razão, teoria da bondade natural do homem e doutrina do contrato social
[Cf. Francovich, 1983: 2].
Simón
Rodríguez também sofreu a influência de Holbach (1723-1789) e de
Saint-Simon (1760-1825). Do primeiro, o educador de Bolívar tirou a
valorização do conhecimento científico e experimental da natureza,
influência que, aliás, também tinha recebido de Rousseau. De Saint-Simon
recebeu os ideais socialistas, calcados sobre a ideia rousseauniana de
igualdade. A filosofia que prevaleceu em Rodríguez foi, como se pode
observar, a de Rousseau.
Como
o filósofo de Genebra, Simón Rodríguez foi um pensador itinerante. “Não
quero – dizia – ser como as árvores, deitando raízes num lugar para não
sair dali. O vento, a água, o sol, tudo que se move e não pára nunca,
essa é a vida para mim” [In Castro: 1973, 22]. O próprio Bolívar
exprimiu da seguinte forma a personalidade itinerante e cosmopolita do
seu mestre e amigo: “É o melhor homem do mundo, mas, como é um filósofo
cosmopolita, não tem pátria, nem lar, nem família, nem nada” [in Castro,
1973: 22]. Nas suas atitudes práticas o mestre de Bolívar era também um
rousseauniano puro: autodidata – como já foi salientado -, amante da
natureza, defensor incansável dos oprimidos, reformador audacioso dos
métodos pedagógicos, tratava-se de uma personalidade polifacética,
difícil de ser enquadrada num sistema de pensamento ou num
establishment.
Essa
sua natural originalidade o levou a mudar de nome, tendo adotado o de
“Samuel Robinson”. Guillermo Francovich [1945: 75] sintetizou assim a
figura de Rodríguez: ”A personalidade do ‘Mestre do Libertador’, Simón
Rodriguez, é uma das mais originais da história americana. São
conhecidas várias anedotas suas graças às quais, se tivesse nascido na
Grécia clássica, teria merecido figurar na galeria dos ‘filósofos
ilustres’, de Diógenes Laercio, junto a mestres do pensar cínico e
cético. Em que pese a sua aparente excentricidade, Simón Rodríguez foi
um espírito profundamente humano e preocupado sempre com os problemas do
bem-estar social”.
J.
A. Cova [1943: 31] , por sua vez, identifica Rodríguez como uma espécie
de cópia de Rousseau, da seguinte forma: “As excentricidades, as
debilidades ou as manias do angustiado escritor das Confissões revivem
incorporadas no ‘dromômano’ impenitente, no preceptor sistemático, no
sofista e no poeta hipocondríaco”. O contato de Simón Rodríguez com
Bolívar deu-se em três momentos: na adolescência do seu pupilo, entre os
11 e os 14 anos (1794-1797), na sua juventude, aos 21 anos de idade
(1804-1805) e vinte anos depois, quando já Bolívar era o Libertador de
cinco países. Em todos esses momentos, a influência do mestre sobre o
discípulo foi decisiva.
Em
relação à influência exercida por Rodríguez sobre o Bolívar
adolescente, Jules Mancini [1970: 118] escreve: “Investido de total
autoridade sobre o seu discípulo predileto, pensou então Rodríguez em
realizar um projeto particularmente grato ao seu coração, o de tratar de
pôr em prática o sistema por excelência de educação apregoado por
Rousseau. O menino que lhe tinha sido entregue era, como deve ser
Emílio, ‘rico’, ‘de grande linhagem’, órfão’, ‘robusto’ e ‘sadio’ e, ao
mesmo tempo, não realizava Rodríguez o ideal do preceptor desejado por
Jean-Jacques? ‘Jovem’, ‘prudente’, ‘celibatário’ e ‘independente’, ‘uma
alma sublime’, qualidades ou atributos aos que podia pretender Simón
Rodríguez, o qual, então, tinha vinte e um anos e gozava da reputação de
ser o melhor professor da cidade”.
A
fim de que o discípulo desenvolvesse as suas potencialidades, o tutor
dedicou-se, como dizia Rousseau [1958] no Émile ou de l’ Education, à
“difícil tarefa de não ensinar nada ao seu discípulo”, a fim de que
pudesse permanecer em “estado natural”. De outro lado, convencido da
verdade do axioma rousseauniano de que “a razão do sábio acostuma se
associar ao vigor do atleta”, Rodríguez prolongou a permanência do seu
pupilo no campo e conseguiu desenvolver maravilhosamente as aptidões
físicas do futuro Libertador, que se caracterizava por ser um andarilho
incansável, um exímio ginete e um intrépido nadador com quem, como frisa
Mancini [1970: 118] “não conseguiu competir nenhum dos seus
companheiros de armas”.
Em
relação à influência exercida por Simón Rodríguez no período de
juventude de Bolívar, o próprio Libertador deu testemunho de grande
valia. Em carta dirigida, de Paris, à sua prima Fanny D’Ervieu de
Villars (1775-1845), em 1804, Bolívar confessa que foi Simón Rodríguez
quem o tirou do estado de depressão em que se encontrava após o
falecimento de sua esposa María Teresa Rodríguez de Toro (1781-1803),
ocorrido em 1803, e quem lhe indicou o caminho da luta em prol da
liberdade da América espanhola como meta que desse sentido à sua vida
[Bolívar, 1912: 41-42]. Em 1805, mestre e discípulo viajaram à Itália e
ali, no Monte Sacro, em Roma, Bolívar pronunciou, diante de Rodríguez, o
famoso juramento de libertar os povos hispano-americanos [Mancini,
1970: 150].
Em
relação à influência exercida por Simón Rodríguez na maturidade do
Libertador, é muito significativa a carta dirigida por ele ao seu
mestre, que então regressava à Ibero-América, depois de 20 anos de
permanência na Europa. Eis um trecho dessa carta, datada em 1824: “Ô,
meu mestre! Ô, meu amigo! Ô, meu Robinson! O senhor na Colômbia! O
senhor em Bogotá e não me falou nada, não me escreveu nada! Sem dúvida
que o senhor é o homem (…) mais extraordinário do mundo (…). Ninguém
mais do que eu sabe quanto o senhor ama a nossa adorada Colômbia. Lembra
o senhor quando fomos ao Monte Sacro, em Roma, jurar sobre aquela terra
santa a liberdade da Pátria? (…) O senhor, meu mestre, quanto deve ter
me observado de perto, mesmo que colocado em tão remota distância! Com
que interesse o senhor deve ter seguido os meus passos, dirigidos muito
antecipadamente pelo senhor mesmo (…). Não pode o senhor imaginar quão
fundo gravaram-se no meu coração os seus ensinamentos; não tenho
conseguido apagar sequer uma vírgula das grandes máximas que o senhor
tem-me presenteado: sempre presentes aos meus olhos, tenho-as seguido
como guias infalíveis (…). Fico impaciente por saber quais são os seus
planos a respeito de tudo (…). O senhor contemplará com encanto a imensa
pátria que tem sido esculpida na rocha do despotismo pelo buril
vitorioso dos libertadores, os seus irmãos (…). Venha ao Chimborazo.
Profane com o seu ousado pé a escala dos Titãs, a coroa da Terra, a
torre inexpugnável do Universo Novo. (…) Amigo da natureza, venha
perguntar a ela pela sua vida e pela sua essência primitiva (…). Lá (na
Europa), ela está dobrada sob o peso dos anos, das doenças e do hálito
pestilento dos homens; aqui ela é donzela, imaculada, formosa, ornada
pela mão mesma do Criador” [apud Mancini, 1970: 154-155].
O
Libertador quis que o mestre irradiasse a luz dos seus conhecimentos
nos países recém libertados. No Alto Perú (Bolívia), Simón Rodríguez
tentou desenvolver as suas “escolas-modelo”, em que se realizaria o
ideal de um “socialismo pedagógico”, com a finalidade de transformar as
crianças abandonadas em cidadãos livres. A intenção desse
empreendimento, frisava Rodríguez, “não era encher o país com artesãos
rivais ou miseráveis, mas instruí-los e acostumá-los ao trabalho para
fazê-los homens úteis, dar-lhes terras e apoiá-los nos seus
empreendimentos. Tratava-se de colonizar o país com os seus próprios
habitantes. Dava-se instrução e ofício às mulheres para que não se
prostituíssem por necessidade, nem fizessem do matrimônio um negócio
para garantir a sua subsistência” [apud Francovich, 1945: 79]. A
iniciativa de Rodríguez não prosperou, de um lado, por causa da sua
falta de espírito prático e, de outro, devido às intrigas das
oligarquias, das quais, aliás, foi também vítima o próprio Libertador,
marginalizado da vida pública nos seus últimos anos [cf. Francovich,
1984: 2; García Márquez, 1989: 269-272; Mutis, 1982: 70-93]. Mestre e
discípulo tiveram, assim, um final de incompreensão, como o tivera
também o genial inspirador de ambos, “o homem que acreditava no homem”,
Rousseau, para repetir o feliz título da obra de Marc-Vincent Howlet
[1994].
2) O Discípulo
Se
bem é certo que a formação de Simón Bolívar sofreu, como vimos, a
marcante influência do seu tutor e mestre, Simón Rodríguez, não se pode
afirmar, contudo, que se circunscrevesse aos ideais humanísticos
rousseaunianos do seu “Robinson”. Houve no Libertador, também, a
formação militar. Para compensar a formação heterodoxa e romântica que o
tutor dispensava ao adolescente, o seu previdente tio, don Carlos
Palacios y Blanco (1762-1805), decidiu incorporá-lo como cadete no
Batalhão de Voluntários de Aragua, o mesmo no qual o pai de Bolívar
tinha servido. Entre 1797 e 1798, durante 13 meses, o futuro Libertador
recebeu a sua formação militar. Como frisa Sandoval Franky [1991: 40],
“(…) daí em diante, até a sua morte, essa atividade seria a sua mais
gloriosa, talvez a sua exclusiva e verdadeira profissão”.
Era
evidentemente clara a feição militar da personalidade de Bolívar. “A
guerra é meu elemento; os perigos, a minha glória”, afirmava ele mais
tarde. Com ironia melancólica, o Libertador escrevia ao general
colombiano Francisco de Paula Santander (1792-1840): ”Sendo a
organização dessa República tão sublime e eu tão soldado, não sou capaz
de manejar teclas tão delicadas “. “Fora do exército – afirmava Bolívar
em outra oportunidade – estou fora do meu centro”. Mais uma afirmação
significativa: “Soldado por necessidade e inclinação, o meu destino está
traçado no campo ou nos quartéis”. Ou esta outra: “A minha horrível
profissão militar tem-me obrigado a me formar uma consciência de soldado
e um braço forte que não pode manejar o bastão mas a espada” [apud
Sandoval Franky, 1991: 40]. Se os ideais humanísticos e cívicos foram
bebidos por Bolívar na fonte rousseauniana, o seu arquétipo militar foi
Napoleão Bonaparte (1769-1821). Como frisa Mancini [1970: 151], “não lhe
foi possível se subtrair à influência dos dois homens cujo pensamento e
cuja ação dominam o século e a Jean-Jacques e a Napoleão é a quem
Bolívar pedirá lições e exemplos”. Não obstante a admiração que o
Libertador tinha pelo herói da França na época da assinatura do Tratado
de Amiens, em 1802 [cf. Cova, 1943: 49], quando da coroação deste, em
1804, como Imperador dos Franceses, Bolívar considerou que Napoleão
tinha traído os ideais republicanos. Ao general Tomás Cipriano de
Mosquera (1798-1878) confessou, anos mais tarde: “Depois que Napoleão
foi rei, a sua glória mesma parece-me o resplendor do inferno, as chamas
do vulcão que cobria a prisão do mundo” [Mosquera, 1977: 39].
Destarte,
o arquétipo militar que Napoleão representava estava submetido, na
concepção de Bolívar, à preservação do ideal republicano apregoado por
Rousseau, centrado na salvaguarda da salvação pública, num momento de
crise de legitimidade como o que viviam as nações hispano-americanas. O
princípio que inspirou a gesta revolucionária de Bolívar foi, sem
dúvida, o exposto por Rousseau [1962: 150] no seu Contrato Social: “Só
os maiores perigos podem contrabalançar (o poder) de alterar a ordem
pública, e nunca se deve suspender o sagrado poder das leis, a não ser
quando se trata da salvação da pátria. Nesses casos raros e manifestos,
providencia-se a segurança pública por um ato particular que confia o
cargo ao mais digno (…), nomeia-se um chefe supremo que faça silenciar
todas as leis, suspendendo a vontade geral, sendo evidente que a
primeira intenção do povo é a de que o Estado não pereça”.
Esse
foi o princípio que, por exemplo, levou Bolívar a aceitar exercer a
ditadura na Venezuleza, em 1814 e no Peru, em 1824; mas a inspiração
rousseauniana do Libertador não parava aí. Uma vez garantida a
independência e a liberdade às nações hispano-americanas, o Libertador
aspirou ao supremo ideal rousseauniano: encarnar a figura do Legislador,
o “(…) indivíduo único (…), ser extraordinário, inspirado e quase
divino, capaz de dar a um povo, no ponto de partida, na origem de sua
vida política, o seu ‘sistema de legislação’, as suas leis essenciais,
fundamentais, fonte de instituições duradouras” [Chevallier, 1973: 173].
Assim,
o aspecto fundamental do Bolívar político foi o do Legislador que
pensou os fundamentos legais do pacto social, o qual garantiria a
liberdade e a igualdade às nações recém libertadas do jugo espanhol. É
evidente que a concepção constitucionalista do Libertador não se
alicerçava, apenas, em fontes rousseaunianas. Inspiradores dela foram,
também, Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755), Sieyès (1748-1836) e
os constitucionalistas anglo-americanos. O projeto de constituição
apresentado por Bolívar no Congresso de Angostura (1819) deixava ver
essas influências nas oito grandes propostas ali contidas: 1) forma
republicana de Estado; 2) a soberania nacional materializada nos
representantes da nação eleitos por sufrágio censitário; 3) adoção da
divisão dos poderes públicos, que seriam quatro: executivo, legislativo,
judiciário e moral; 4) adoção dos direitos individuais e das liberdades
públicas, à semelhança das experiências norte-americana e francesa; 5)
abolição da escravidão e dos títulos nobiliárquicos; 6) organização
política e administrativa com base no princípio centralista; 7) adoção
do modelo presidencialista norte-americano, com um executivo monocrático
controlado por um legislativo bi-cameral; 8) criação de um poder moral
com funções para garantir uma fundamental educação cívica aos cidadãos
[Rozo Acuña, 1983: 14-15].
Pode-se
afirmar, no entanto, que a influência de Rousseau é a mais marcante no
pensamento constitucional de Bolívar, toda vez que na filosofia política
do genebrino se alicerça o aspecto mais original da proposta
bolivariana: a ideia do poder moral. Bolívar pretendia, com ele, dar
ensejo ao “regime da virtude” apregoado por Rousseau no seu Contrato
Social, e que consistia, fundamentalmente, no banimento dos interesses
particulares para que emergissem o bem público e a vontade geral
indivisível, infalível, absoluta, inalienável, sagrada e inviolável.
O
seguinte trecho do discurso pronunciado por Bolívar em Angostura, em
1819, é revelador da sua inspiração rousseauniana: “Para tirar deste
caos a nossa nascente República, todas as nossas faculdades morais não
serão suficientes, se não fundirmos a massa do povo num todo; a
composição do governo num todo; a legislação num todo, e o espírito
nacional num todo. Unidade, unidade, unidade, deve ser a nossa consigna
(…). A educação popular deve ser o cuidado primogênito do amor paternal
do Congresso. Moral e luzes são os pólos de uma República, moral e luzes
são as nossas primeiras necessidades. Tomemos de Atenas o seu Areópago e
os guardiães dos costumes e das leis; tomemos de Roma os seus censores e
os seus tribunais domésticos; e fazendo uma Santa Aliança dessas
instituições morais, renovemos no mundo a ideia de um povo que não se
contenta com ser livre e forte, mas que quer ser virtuoso. Tomemos de
Esparta os seus austeros estabelecimentos, e formando desses três
mananciais uma fonte de virtude, demos à nossa República uma quarta
potestade, cujo domínio seja a infância e o coração dos homens, o
espírito público, os bons costumes e a moral republicana. Constituamos
esse Areópago para que vele sobre a educação das crianças, sobre a
instrução nacional; para que purifique o que se tenha corrompido na
República (…). A jurisdição desse Tribunal verdadeiramente Santo, deverá
ser efetiva em relação à educação e à instrução e de opinião somente
nas penas e castigos. Mas os seus anais ou registros onde se consignem
as suas atas ou deliberações; os princípios morais e as ações dos
cidadãos, serão os livros da virtude e do vício. Livros que consultará o
povo para as suas eleições, os Magistrados para as suas resoluções e os
juízes para os seus juízos (…)” [Bolívar, 1971: 116-117].
Lendo
as anteriores palavras, conclui-se que não é exagero dos biógrafos do
Libertador (La Croix, Ducoudray-Holstein, O’Leary, Mancini, etc.) a
afirmação de que as obras de Rousseau “constituem (…) em toda ocasião, a
sua leitura favorita. Tira dos Discursos o fundo do seu vocabulário até
o ponto que, ao ler Bolívar, a gente crê, às vezes, ler uma tradução de
Rousseau. Quando se trata de celebrar com festas os primeiros triunfos
dos exércitos libertadores, consulta a Lettre sur les spectacles. O
Contrat Social ‘farol dos legisladores’, é o seu código de política, e
La Profession de foi du vicaire savoyard lhe serve de religião”
[Mancini, 1970: 151].
Mas
não foi apenas o Bolívar político ou legislador que revelou a
influência rousseauniana. Ela se revela também, de forma marcante, no
Bolívar educador, para quem o processo educacional consistia no
“endurecimento do corpo como suporte do espírito” [apud Acevedo Carmona,
1989: 26]. A influência rousseauniana manifesta-se, outrossim, no
Bolívar romântico que ama as mulheres e a vida do bon sauvage e que
sente fastídio pela velha Europa. A Fanny de Villars, de quem se
apaixonou em Paris, escrevia o jovem Bolívar em 1807: “Vou procurar
outro modo de existir; estou fastidiado com a Europa e com as suas
velhas sociedades; regresso à América. O que farei ali? (…). Ignoro-o
(…). Sabeis que tudo em mim é espontâneo e que jamais faço projetos. A
vida do selvagem possui para mim muitos encantos. É provável que eu
construa uma palhoça em meio aos belos bosques da Venezuela (…) [apud
Gaitán de Paris, 1991: 43]. Outro traço romântico do Libertador, que o
aproxima de Rousseau, vamos encontrar na mística revolucionária que o
inspirava e que o levou a proferir, em 1805, no Monte Sacro, em Roma, o
juramento de libertar a sua pátria [Mancini, 1970: 149-150]. Feição
romântica é também a sua rousseauniana admiração pela natureza,
expressão da qual foi o seu memorável Delírio sobre o Chimborazo (1824)
[Mancini, 1970: 148-149; cf. Arciniegas, 1988: 57] , bem como o fascínio
e o magnetismo de sua personalidade que, sem, dúvida, lembram o herói à
la Rousseau e o carisma napoleônico [cf. Noguera Mendoza-Castro, 1983:
83, 137, 168].
Como
Rousseau e como o seu mestre, Simón Rodríguez, Bolívar teve um final de
incompreensão, de que dão testemunho as seguintes palavras escritas,
pouco antes de morrer, à amiga Fanny de Villars: “(…) Morro desprezado,
proscrito, detestado por aqueles mesmos que gozaram dos meus favores;
vítima de intensa dor, cativo de infinitas amarguras. Deixo-te minhas
recordações, minhas tristezas e as lágrimas que meus olhos não chegaram a
derramar” [in Castro, 1973: 275].
II
– Marx, a filosofia alemã (Kant, Hegel, Feuerbach) e a filosofia
francesa (Rousseau, Saint-Simon, Proudhon, Guizot, Constant)
Karl
Marx nasceu em Treves, capital da província alemã do Reno, em 5 de maio
de 1818 e faleceu em Londres, em 1883. Na cidade natal, o nosso autor
teve oportunidade de sentir duas influências contrárias: o liberalismo
revolucionário, herdeiro do jacobinismo francês e, de outro lado, a
reação conservadora capitaneada pela Prússia, defensora do Antigo
Regime. O pai de Karl, Hirschel Marx (1777-1838) era advogado, tendo
abandonado o judaísmo em 1824, batizando-se na Igreja Luterana com o
nome de Heinrich. Os estudiosos consideram que nessa conversão mediaram
motivos de índole econômica, pois na Renânia, onde residia a família
Marx, os cargos públicos estavam vedados aos judeus. A mãe do nosso
autor, Enriqueta Pressburg (1787-1863), era descendente de rabinos.
Completados
os estudos secundários em Treves, Marx ingressou na Universidade de
Bonn, a fim de estudar Direito. Em 1836, o jovem estudante transferiu-se
para a Universidade Friedrich Wilhelms de Berlim para continuar os
estudos de Direito. O seu foco de interesse, no entanto, era o estudo da
História e da Filosofia, tendo abandonado o curso inicial. Em Berlim, o
nosso autor recebeu a influência do pensamento de Hegel (1770-1831). O
estudante dedicado que era Marx logo se filiou à denominada corrente da
Esquerda Hegeliana capitaneada por Ludwig Feuerbach (1804-1872), que
repudiava a exaltação que Hegel tinha feito do Estado Prussiano.
Em
Berlim, Marx ingressou no Doktor Club, que era liderado por Bruno Bauer
(1809-1882). Em 1841, obteve o título de doutor em Filosofia com a tese
intitulada Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro.
Não tendo conseguido empreender a carreira acadêmica em decorrência das
suas ideias radicais, tornou-se, em 1842, redator do jornal Gazeta
Renana, editado em Colônia, onde conheceu aquele que seria o seu mais
fiel amigo, o jovem Friedrich Engels (1820-1895), filho de um industrial
de Barmen (Alemanha). Em 1843, tendo sido fechada a Gazeta Renana pelo
governo prussiano, Marx partiu para Paris, onde assumiu a direção da
revista Anais Franco-Alemães, tendo-se casado, pouco antes, com a bela
Jenny von Westphalen (1814-1881), filha do barão prussiano Ludwig von
Westphalen (1770-1842), professor universitário em Berlim. Na capital
francesa, ciceroneado pelo poeta romântico Heinrich Heine (1797-1856), o
nosso autor participou de vários círculos de estudos e sociedades
secretas, dentre os quais cabe mencionar a Igreja Saint-simoniana. Teve
oportunidade, outrossim, de conhecer os escritos de François Guizot
(1787-1874), o poderoso primeiro-ministro de Luis Felipe I (1773-1850).
Ainda em Paris, em 1843, Marx escreveu a Crítica da filosofia do direito
de Hegel e A questão judaica. No ano seguinte, teve contato com a Liga
dos Justos (que mais tarde seria conhecida como Liga dos Comunistas) e
escreveu os Manuscritos econômico-filosóficos, bem como o famoso artigo
acerca de uma greve ocorrida na Silésia, que lhe causaria a expulsão da
França, em 1845, a pedido do governo prussiano.
Tendo-se
mudado para Bruxelas, Marx escreveu, ainda em 1845, as Teses sobre
Feuerbach e, junto com Engels, A sagrada família. Em 1846, em parceria
com Engels, escreveu A Ideologia Alemã, que só seria publicada anos mais
tarde. Ajudado pelo amigo, organizou, na capital belga, o Comitê de
Correspondência da Liga dos Justos que, como já foi frisado, passou a
ser chamada de Liga dos Comunistas. Em 1847 viajou para Londres, onde
publicou a Miséria da Filosofia. De volta para a Bélgica, terminou
expulso pelo governo desse país em 1848 e, junto com Engels, mudou-se
para Colônia, onde fundou a Nova Gazeta Renana. Nesse ano foi publicado,
em Londres, o Manifesto comunista, de autoria de Marx e Engels.
Expulso
de Colônia, em 1849, Marx enfrentou sérias dificuldades financeiras,
das quais saiu graças à ajuda do pensador e líder socialista alemão
Ferdinand de Lasalle (1825-1864), que depois seria atacado pelo próprio
Marx. Nesse ano, o nosso autor escreveu Trabalho assalariado e capital.
Em Londres, Marx dedicou-se aos estudos econômicos na biblioteca do
Museu Britânico. Para subsistir, escreveu regularmente artigos variados
sobre política, economia e cultura, no New York Daily Tribune, entre 21
de agosto de 1852 e fevereiro de 1861. Dessa empreitada participou,
também, o seu amigo Friedrich Engels. Em 1852, publicou O 18 brumário de
Luís Bonaparte, dedicado à análise dos eventos ocorridos ao ensejo do
golpe de estado perpetrado pelo sobrinho do falecido imperador Napoleão
Bonaparte (1769-1821), Luís Napoleão Bonaparte (1808-1873) que se
coroou, em 1852, como Imperador dos Franceses com o nome de Napoleão III
da França.
Dedicado
integralmente ao estudo na capital inglesa, em que pesem inúmeros e
sérios distúrbios de saúde, Marx publicou, em 1857, a obra intitulada
Esboço de uma crítica da economia política. Em 1859 apareceu, em Berlim,
a obra intitulada Para uma crítica da economia política, ao ensejo da
qual o nosso autor frisou com ironia: “Com certeza é a primeira vez que
alguém escreve sobre o dinheiro com tanta falta dele”. Em 1864, Marx
propôs a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT),
denominada popularmente de Primeira Internacional. Em 1865, publicou
Salário, preço e lucro, além de uma biografia de Pierre-Joseph Proudhon
(1809-1865), com quem manteve séria polêmica, em decorrência do fato de
discordar do modelo de socialismo democrático proposto pelo ativista
francês. Em 1867 apareceu publicado, em Hamburgo, o primeiro volume de O
Capital. Em 1869, o nosso autor deu continuidade à escrita do segundo
volume desta obra, que tinha interrompido devido ao seu precário estado
de saúde, agravado pela crise financeira familiar. Ao ensejo da revolta
conhecida como Comuna de Paris, publicou, em 1871, A guerra civil na
França.
Em
1873, o nosso autor encaminhou o seu primeiro volume de O Capital a
duas personalidades da intelectualidade britânica: Charles Darwin
(1809-1882) e Herbert Spencer (1820-1903). Em que pese o fato de o
médico ter-lhe proibido qualquer tipo de esforço, em decorrência do
agravamento da saúde, o nosso autor continuou trabalhando
incessantemente na redação de O Capital e fez inúmeras leituras acerca
de temas diferentes como Matemática, Geologia, Física e a situação
social e política da Rússia. Em 1875, Marx publicou Crítica do programa
de Gotha. Sob os cuidados de Engels foram publicadas, postumamente, as
edições do segundo volume (1885) e do terceiro volume (1894) de O
Capital.
Em
Karl Marx, o ativista sobrepôs-se ao intelectual, dando ensejo a uma
posição radical, que o conduziu ao modelo de socialismo totalitário, que
passou a ter vigência na Rússia e nos outros países comunistas, pelo
mundo afora, ao longo do século XX, com um saldo trágico de mais de 90
milhões de mortos [cf. Courtois, et alii, 1997: 14].
As ideias filosóficas de Marx podem ser sintetizadas nos seguintes pontos:
1. Adoção da perspectiva transcendental.–
Marx, como Immanuel Kant (1724-1804), desmistifica o conhecimento
humano, que nas metafísicas dogmáticas tinha ficado reduzido a uma cópia
passiva da realidade exterior. Quando o nosso autor afirmava que “até
agora os filósofos estiveram preocupados em contemplar o mundo, nós
vamos transformá-lo”, justamente propunha um novo tipo de conhecimento
em que a verdade fosse efeito da ação humana, não fruto da pura
contemplação de um arquétipo pré-existente fora da razão.
2. Formulação do 11º mandamento: “Não explorarás o trabalho alheio”.
Marx reagiu contra um princípio de ação estranho ao homem (moralidade
pautada pela religião ou pelas leis da circulação de mercadorias), e
colocou como critério de ação o homem mesmo, na sua dinâmica histórica,
no seio da consciência de classe. Não há dúvida quanto à inspiração
kantiana do imperativo formulado por Marx. Como frisa Antônio Paim,
“segundo Kant, os princípios morais só o são se não se subordinam a
qualquer classe de coação externa e se correspondem a uma exigência
profunda da racionalidade, aparecendo ao homem como autêntico
imperativo. Essa afirmativa não envolve, por certo, a solução do grave
problema da coerência do homem com semelhantes princípios, mas explica
satisfatoriamente a vitalidade da ética cristã. A força do marxismo
reside no mesmo princípio. O mandamento segundo o qual ‘Não explorarás o
trabalho alheio’ parece consistir no ápice de toda uma ética humanista”
[Paim, 1984: 502].
3. Formulação do materialismo histórico.
Competiria a Marx corrigir o rumo da reflexão feuerbachiana operando o
trânsito entre o naturalismo de Feuerbach e o historicismo. A
consciência da necessidade nasce não apenas da exterioridade da
natureza, mas também da própria história humana. O estímulo para o
movimento e a transformação é interior à própria realidade humana. A
necessidade é, portanto, não apenas exigência natural, mas também força
geradora e motora da história. Em lugar do homem abstrato da natureza,
temos o homem concreto e vivo da história, através da classe social. O
homem que adquiriu consciência de classe entra na luta de classes, na
qual consiste a essência da política, ideias que Marx tira dos
doutrinários franceses Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e
François Guizot (1787-1874). A massa humana, que tinha sido idealizada
por Feuerbach, encontra em Marx uma formulação concreta e atuante [cf.
Mondolfo, 1960]. Marx sintetizou esta dimensão na sua frase, presente na
obra A ideologia alemã: “A existência humana determina a consciência”. A
propósito deste ponto, frisa Antônio Paim [1984: 496]: “Resumindo,
temos que o momento Kant-Hegel chega a uma fase de plena configuração
com a esquerda hegeliana, em particular com Feuerbach-Marx. Ao invés da
perspectiva platônica (o outro lado das coisas, a permanência, a
substância), a perspectiva kantiana (meditação limitada à dimensão
humana) desenvolvida no sentido de apreender o homem através de tudo
quanto criou, não um homem dado e acabado ex nihilo, mas envolvido no
próprio processo de sua criação”.
4. Inspiração de Marx em Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825).
Segundo Gurvitch, as teses filosófico-sociológicas em que Marx se
inspirou no pensamento saint-simoniano foram as seguintes: A – A
afirmação de que “a vida social é essencialmente prática”, bem como a
ideia de que “a produção faz o homem” e de que homens e sociedade se
produzem a si mesmos pelo seu esforço. B – A idéia de que certas
estruturas sociais e determinados modos de produção “impedem a sociedade
de entrar em plena posse de seu impulso criador”, sendo que Marx amplia
essa ideia na sua teoria das alienações e das ideologias. C – A
afirmação de que “as obras da consciência real”, ou obras da
civilização, e até as ideologias se integram, de alguma maneira, nas
forças produtivas. D – A inclinação de Marx em favor de uma visão
dicotômica das relações entre as classes, que o leva a considerar o
Estado como seu órgão de domínio de classe. E – A crença de Marx na
desaparição do Estado e a adoção, por ele, de slogans saint-simonianos,
tais como: “o governo das pessoas será substituído pela administração
das coisas”, ou “a cada um de acordo com as suas capacidades, a cada um
segundo as suas obras”. F – A concepção escatológica da história. A
respeito, escreve Gurvitch: “Marx não evita a tentação de uma filosofia
da história que submete à sociologia e que profetiza o fim da história. É
neste aspecto que Marx, apesar dos seus esforços, permanece, mais do
que Proudhon, fiel a Saint-Simon e à sua escola” [In: Saint-Simon, 1965:
40].
5. Inspiração de Marx em Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865).
Segundo Gurvitch, Marx inspirou-se nos seguintes pontos do pensamento
proudhoniano: A – A crítica às “classes altas”, burgueses e patrões,
pela sua ociosidade. B – O conceito de “força coletiva”, que inspira o
conceito marxista de “forças produtivas”. C – A predição acerca da
desaparição do Estado.
6. Comunismo implantado por métodos violentos: a destruição do Estado burguês. Este
elemento permanece claro na obra de Marx e se contrapõe aos esforços
dos socialistas franceses, ingleses e alemães em prol da construção de
uma nova sociedade mediante reformas, com a chegada do proletariado ao
poder através de eleições (como terminou, de fato, acontecendo, ao longo
dos séculos XIX e XX). Marx considerava ser ele o líder da revolução
violenta apregoada. A verdade claudicou diante da militância política.
Marx foi desmoralizando, um a um, todos os pensadores e líderes
socialistas que tinham aderido a um socialismo democrático, diferente do
modelo totalitário por ele apregoado. Fez isso, por exemplo, na
Alemanha, com Ferdinand Lasalle (1825-1864) e, na França, com
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Antônio Paim deixa claro que houve
uma influência muito grande do regime apregoado por Marx sobre o
adotado, na Rússia, após a Revolução de 1917, por Lenine (1870-1924).
Para ambos, somente valia um tipo de socialismo, o denominado comunismo,
imposto pelo líder com absoluto banimento da dissidência e com a
implantação de um regime de poder total. Na Rússia, o regime bolchevique
foi o novo capítulo do “despotismo oriental” czarista [cf. Paim, 2009;
Wittfogel, 1977].
7. Inspiração em Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
Marx recebeu esta influência primeiro na sua formação em Trèves e
depois ao longo de sua permanência em Paris. Para o filósofo genebrino, a
soberania do povo repousa na “vontade geral”. Esta é apropriada pela
“vanguarda do povo”, constituída pelos “puros”, aqueles que se despiram
dos seus interesses individuais para defender o interesse público. Ora,
essa vanguarda é chefiada, no caso da revolução comunista, pelo próprio
Marx, que se converte numa espécie de salvador das massas proletárias.
8.
Inspiração no pensamento dos liberais-conservadores franceses Benjamin
Constant de Rebecque (1767-1830) e François Guizot (1787-1874). Como
destacou Georgi Valentinovich Plekhánov (1857-1918), um dos mais
importantes estudiosos russos da obra de Marx, ideias básicas da
sociologia do pensador alemão como interesses individuais, interesses de
classe, consciência de classe, luta de classes, encontram a sua origem
nesses pensadores liberais-conservadores, cujas obras Marx leu durante a
sua permanência em Paris. Até a expressão, presente no Manifesto
Comunista: “proletários do mundo, uni-vos” inspira-se na frase conhecida
de Guizot: “burgueses da França, uni-vos” e “enriquecei-vos” [cf.
Plekhánov, 1989].
III– Bolívar segundo Marx
Karl
Marx (1818-1883) não gostava de Simón Bolívar. Deixou claro isso no
verbete que escreveu sobre o Libertador das cinco nações sul-americanas
(Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Bolívia). Charles Dana
(1819-1897), diretor do New York Daily Tribune, contratou o pensador
alemão, que tinha passado a residir em Londres a partir de 1843, para
que redigisse alguns artigos sobre história militar, bem como biografias
e outros assuntos, a fim de publicá-los na The New American
Cyclopaedia, que Dana vinha preparando. O texto de Marx apareceu
publicado, em 1858, no volume III da mencionada obra, com o seguinte
título: Bolívar y Ponte.
Marx
dividiu as matérias para a Cyclopaedia com o amigo e colaborador
Friedrich Engels (1820-1895), que desde 1840 tinha passado a residir
temporariamente na Inglaterra, primeiro em Manchester e depois em
Londres. Na distribuição dos temas, coube a Marx redigir a entrada
correspondente a Simón Bolívar. O pensador alemão alicerçou-se, para o
seu trabalho, em limitada bibliografia por ele consultada na British
Library e que menciona no final do artigo. Estas são as fontes
consultadas: DUCOUDRAY-HOLSTEIN, General e VIOLLET Alphonse, Histoire de
Bolívar, Paris, 1831. MILLER John, General, Memoires in the service of
the Republic of Peru. HIPPISLEY, Coronel, Account of his Journey to the
Orinoco, Londres, 1819.
Consultei
a seguinte edição do ensaio de Marx, publicado em português com o
título: Simón Bolívar por Karl Marx (introdução de José Aricó; epílogo
de Marcos Roitman Rosenmann e Sara Martínez Cuadrado; tradução de Vera
Ribeiro. São Paulo: Martins, 2008, coleção Dialética, 76 p.). Os meus
amigos Antônio Paim e Arsênio Corrêa, do Instituto de Humanidades,
presentearam-me com essa obra e a eles dedico o presente artigo.
O
acervo da British Library apresentava, na época de Marx, alentada lista
de obras sobre o Libertador, que certamente teria dado embasamento a
uma apresentação bem mais equilibrada sobre o pensamento e a obra de
Bolívar. Marx simplesmente despachou o tema com uma consulta a
bibliografia secundária, de forma muito diferente a como agiu em face de
outros temas desenvolvidos por ele na Enciclopédia organizada por Dana e
na imprensa, no New York Daily Telegraph. Convenhamos que a
bibliografia existente sobre Bolívar na Inglaterra de então era bem mais
rica. O autor não caprichou na escolha das suas fontes.
Dividirei
esta parte da minha exposição em dois itens: 1 – A valoração negativa
de Bolívar por Marx. 2 – As razões da visão negativa de Marx acerca de
Bolívar.
1 – A valoração negativa de Bolívar por Marx.
Basta
dar uma olhada ao texto escrito por Marx para que fique clara a visão
negativa deste sobre o Libertador das cinco nações sul-americanas. Num
ensaio de 24 laudas, o autor se refere de forma negativa a Bolívar, a
fim de caracterizá-lo apenas como o “Napoleão das retiradas”. Os seus
triunfos militares não tiveram mérito próprio. Decorreram, ora de
circunstâncias alheias como a presença de inúmeros oficiais e soldados
estrangeiros, ora da pusilanimidade que de forma instantânea se apossou
dos espanhóis em momentos decisivos, ora simplesmente da imprevisível
força do destino. Mas nada que possa ser atribuído às virtudes militares
do Libertador Simón Bolívar.
Acompanhemos
o relato de Marx acerca das “retiradas” do seu biografado. Logo no
começo do ensaio, ao traçar um quadro biográfico do início da vida
pública do Libertador e de informar que ele formava parte das “famílias
mantuanas” que “constituíam a nobreza crioula da Venezuela”, o escritor
destaca o fato de Bolívar ter viajado cedo para a Europa, com a idade de
quatorze anos, tendo residido na Espanha e na França, concretamente em
Paris. O jovem aristocrata, conta Marx, casou em 1802, em Madri, tendo
retornado rapidamente à Venezuela onde a sua jovem esposa faleceu de
febre amarela. Depois disso, Bolívar visitou a Europa pela segunda vez,
tendo estado presente, em Paris, na coroação de Napoleão Bonaparte
(1769-1821) como Imperador dos Franceses, em 1804. Bolívar presenciou,
também, na Itália, a recepção, por Napoleão, da coroa de ferro da
Lombardia, no ano seguinte.
Marx
não conta nada acerca da esposa de Bolívar, a aristocrata María Teresa
del Toro Alayza (1781-1803), de origem nobre como a esposa do pensador
alemão, Jeny von Westphalen (1814-1881). Talvez houvesse semelhanças
demais entre Marx e Bolívar neste ponto. Ambos casaram com jovens
aristocratas. E ambos amaram profundamente as suas esposas. Bolívar, ao
ponto de jurar não se casar mais, embora tenha ficado viúvo na casa dos
vinte anos. Marx morreu pouco depois de Jeny, tendo confessado ao seu
amigo Engels em carta datada de 1881: “Você sabe que há poucas pessoas
mais avessas ao patético-demonstrativo do que eu; contudo, seria uma
mentira não confessar que grande parte do meu pensamento está absorvida
pela recordação de minha mulher, boa parte da melhor parte da minha
vida”. Semelhanças profundas entre dois personagens incompatíveis, pelo
menos do ponto de vista de Marx. Seria melhor, na desconstrução da
imagem de Bolívar, passar por cima dessa circunstância, que aproximava o
escritor do herói sul-americano.
Marx
tampouco fala nada da viagem que Bolívar realizou em companhia do seu
jovem mestre Simón Rodríguez (1769-1854), um rousseauniano de tempo
completo, a várias outras cidades italianas, nem menciona o juramento
que o jovem fidalgo fez no Monte Sacro, em Roma, no sentido de libertar
as nações sul-americanas do jugo espanhol. Semelhança no empenho heroico
de cumprir com uma missão que o destino apresentava a Marx, assim como a
Bolívar? Era melhor, também, não fazer alusão ao juramento romântico do
biografado.
De
regresso à Venezuela, conta Marx, Bolívar rejeitou a proposta do seu
primo, José Félix Ribas (1775-1815), para que se incorporasse à
revolução nascente contra a dominação espanhola, tendo preferido aceitar
uma missão diplomática em Londres, com a finalidade de comprar armas e
buscar o apoio do governo britânico para a causa sul-americana. Bolívar
somente conseguiu dos ingleses, segundo a narrativa de Marx, a
“liberdade de exportar armas em troca de dinheiro vivo”. De volta à
Venezuela, o general Francisco de Miranda (1750-1816), comandante das
forças insurgentes, o convenceu para que aceitasse o posto de
tenente-coronel do estado-maior, sendo destinado para o comando da
estratégica fortaleza de Puerto Cabello.
Como
comandante militar dessa importante praça, Bolívar revelou-se um
irresponsável traidor da causa venezuelana. Conta Marx no seu relato:
“Quando os prisioneiros de guerra espanhóis, que Miranda costumava
confinar na fortaleza de Puerto Cabello, conseguiram dominar de surpresa
os guardas e tomar a cidadela, Bolívar, apesar de os prisioneiros
estarem desarmados, ao passo que ele dispunha de uma guarnição numerosa e
uma grande quantidade de munição, partiu precipitadamente durante a
noite com oito de seus oficiais, sem informar [aos] seus próprios
soldados (…) e se recolheu à sua propriedade de São Mateus. Ao tomar
conhecimento da fuga do seu comandante, a guarnição retirou-se
ordeiramente do local, que foi ocupado de imediato pelos espanhóis
comandados pelo general Monteverde. Esse acontecimento fez a balança
pender em favor da Espanha e obrigou Miranda, sob as ordens do
Congresso, a assinar o Tratado de La Victoria, em 26 de julho de 1812,
devolvendo a Venezuela ao controle espanhol” (p. 34). Não contente com a
sua covarde fuga, Bolívar aprisionou Miranda e o entregou aos espanhóis
que o trancafiaram numa masmorra em Cádiz, onde o comandante das forças
venezuelanas veio a falecer meses depois.
Como
prêmio pela sua traição, Bolívar recebeu das autoridades espanholas o
passaporte para sair da Venezuela. O general Monteverde declarou: “A
solicitação do coronel Bolívar deve ser atendida, como recompensa pelos
serviços que ele prestou ao rei da Espanha ao lhe entregar Miranda”
[Marx, 2008: 35].
Os
triunfos dos exércitos venezuelanos contra os espanhóis são explicados
por Marx a partir de dois fatores: a crueldade destes para com os
nativos e a covardia dos oficiais ibéricos que fugiam quando o confronto
se apresentava. A propósito, escreve Marx: “Quanto mais avançavam,
maiores se tornavam seus recursos, pois os excessos cruéis dos espanhóis
funcionaram em toda parte como sargentos recrutadores do exército dos
independentes. A capacidade de resistência dos espanhóis se
desarticulou, em parte pelo fato de três quartos de seu exército
comporem-se de nativos, que passavam para as fileiras opostas a cada
encontro, e em parte pela covardia de generais como Tízcar, Cajigal e
Fierro, que a qualquer oportunidade abandonavam suas tropas” [Marx,
2008: 36]. Nada de grande planejamento da parte de Bolívar e muito menos
de heroicos esforços do Libertador para manter em alto o moral das
tropas. As circunstâncias, não os homens, venciam as batalhas em favor
dos venezuelanos!
Bolívar,
no entanto, segundo Marx, era atuante numa frente: os desfiles, rodeado
de belas damas. Eis como relata a entrada triunfal do Libertador em
Caracas em fins de 1813: “Bolívar foi então homenageado com uma entrada
apoteótica. De pé sobre um carro triunfal, puxado por doze jovens
vestidas de branco e enfeitadas com as cores nacionais, todas escolhidas
entre as melhores famílias de Caracas, Bolívar, com a cabeça descoberta
e uniforme de gala, agitando um pequeno bastão, foi conduzido por cerca
de meia hora, desde a entrada da cidade até sua residência.
Proclamando-se ‘Ditador e Libertador das Províncias Ocidentais da
Venezuela’ (…) criou a ‘Ordem do Libertador’, formou uma tropa de elite
que denominou de sua guarda pessoal e se cercou da pompa própria de uma
corte. Entretanto, como a maioria de seus compatriotas, ele era avesso a
qualquer esforço prolongado, e sua ditadura não tardou em degenerar
numa anarquia militar, na qual os assuntos mais importantes eram
deixados nas mãos de favoritos, que arruinavam as finanças públicas e
depois recorriam a meios odiosos para reorganizá-las (…) [Marx, 2008:
37].
Tendo
recebido o general Bolívar, em 1814, da assembleia popular de Caracas a
incumbência de, à frente do poder na Venezuela, negociar com os
neogranadinos a unificação de forças para melhor enfrentar os espanhóis,
o “Napoleão das retiradas” perpetrou mais uma. Junto com os seus
oficiais, fugiu para a Ilha Margarita e dali passou a Cartagena de
Índias, não com a finalidade de negociar a unificação de forças com os
neogranadinos, mas para perpetrar um golpe contra as autoridades locais.
Assim registra Marx essa nova aventura do seu biografado: “Se Ribas,
Páez e outros generais houvessem acompanhado os ditadores em fuga, tudo
se haveria perdido. Tratados como desertores (…) na Ilha Margarita,
zarparam (…) para Cartagena. Ali, para coonestar a sua fuga, divulgaram
um manifesto justificatório, redigido numa fraseologia pomposa” [Marx,
2008: 39].
Depois
que essa tentativa foi frustrada por parte dos habitantes de Cartagena,
“A Heroica”, Marx conta que Bolívar se dirigiu para a cidade de Tunja,
no centro do país, onde estava reunido o Congresso da República Federal
da Nova Granada. Apesar das aventuras golpistas, Bolívar foi incumbido
por esse Congresso de submeter a província rebelde de Cundinamarca e,
depois, marchar para o porto de Santa Marta, o único que ainda
conservavam os espanhóis. Apesar de as autoridades regionais revoltadas
terem sido submetidas mediante a tomada de Bogotá por Bolívar, ele
permitiu aos seus soldados que saqueassem a cidade durante 48 horas.
Depois,
em lugar de marchar sobre o porto de Santa Marta, no Mar Caribe,
Bolívar desviou o curso para Cartagena, a fim de se apossar da cidade
que o tinha expulsado e a submeteu a severo cerco. A tentativa não deu
em nada “senão (na) redução de seu exército, por deserção ou doença, de
2.400 para uns 700 homens”. Foi uma vergonhosa trapalhada que permitiu
às tropas espanholas sediadas em Santa Marta receberem reforços da
Espanha, o que obrigou Bolívar a desviar a marcha para Kingston, na
Jamaica, onde permaneceu por oito meses. Entrementes, os companheiros
que o “Napoleão das retiradas” tinha abandonado na Venezuela resistiram
ferozmente aos espanhóis, tendo alguns deles sido presos e fuzilados,
como seu primo José Félix Ribas “a quem Bolívar devia sua reputação”
[Marx, 2008: 41].
Nas
suas andanças pelas ilhas do Caribe ao longo do ano 1815 Bolívar
conheceu, no Haiti, Felipe Luís Brion (1794-1821), natural de Curaçao e
que prestava os seus serviços como oficial da Marinha ao Reino da
Holanda chefiado, na época, pelo irmão casula do imperador Napoleão I,
Luis Napoleão Bonaparte (1778-1846). Com apoio do presidente do Haiti,
Alexandre Pétion (1770-1818) a quem Bolívar prometeu libertar os
escravos das nações que libertasse, organizou um pequeno exército de
neogranadinos que tinham fugido de Cartagena e de ex-escravos haitianos.
Brion, por sua vez, conseguiu junto aos ingleses armar um navio de
guerra. Bolívar convenceu-o a acompanhá-lo numa invasão à Venezuela.
Brion aceitou e, nomeado Almirante por Bolívar, que agia como Comandante
da expedição, rumaram para as costas venezuelanas. Desembarcaram
primeiro na Ilha Margarita, onde receberam o apoio do general Arizmendi,
chefe dos insurrectos, tendo conseguido armar 13 navios para
transportar os 800 homens com que contava.
Diante
do confronto iminente com os ibéricos, aconteceu o que era de se
esperar: nova fuga do “Napoleão das retiradas”! Quando o pequeno
exército se aproximava da cidade de Valencia, guardada pelo general
espanhol Morales com um minguado contingente de 200 soldados e 100
milicianos, de súbito o comandante Bolívar fugiu de novo. Marx cita as
palavras de uma testemunha ocular da covardia bolivariana: o comandante
perdeu “toda a presença de espírito, não disse palavra, fez meia-volta
no ato com o cavalo, fugiu a toda velocidade para Ocumare, passou pelo
vilarejo num galope desabalado, chegou à baía próxima, apeou de um
salto, entrou num bote e embarcou no Diana, ordenando a toda a esquadra
que o seguisse até a ilhota de Buen Ayre [Bonaire] e deixando todos os
seus companheiros privados de qualquer auxílio” [Marx, 2008: 43].
Reabilitado
pelos patriotas venezuelanos, de forma paradoxal, após mais essa
covarde evasão, Bolívar voltou a assumir as funções de Comandante
supremo com a promessa de não se imiscuir na administração civil.
Seguiram-se, ao longo de 1815, novas derrotas das forças venezuelanas.
Em julho desse ano, no entanto, os patriotas conseguiram aplicar forte
derrota aos espanhóis, a partir da invasão, pela retaguarda destes, de
um contingente comandado pelo general Manuel Piar (1774-1817) que,
desembarcando na Guiana com apoio de Brion, os pegou de surpresa. O
triunfo das forças revolucionárias comandadas por Bolívar foi
significativo.
Mas
o triunfo dos revolucionários patriotas não sedimentou uma paz
duradoura na Venezuela. O general Pablo Morillo (1775-1837), importante
oficial espanhol, veio da Metrópole com a missão de implantar novamente o
antigo poderio ibérico. Embora o número das forças comandadas por
Bolívar fosse superior ao dos espanhóis, a errática estratégia
bolivariana conspirou contra um desfecho feliz. Ao longo da segunda
metade de 1815 e durante os anos de 1816 até 1818, os patriotas sofreram
severas derrotas dos seus inimigos.
A
respeito desses fatos escreve Marx: “Para enfrentar cerca de 4 mil
espanhóis, que Morillo não tinha conseguido concentrar, Bolívar reuniu
mais de 9 mil homens, bem armados, equipados e fartamente supridos de
tudo o que era necessário para a guerra. Não obstante, no fim de 1818,
ele havia perdido umas doze batalhas e todas as províncias do rio
Orinoco. Dada a maneira como Bolívar dispersava suas forças superiores,
elas eram sempre derrotadas quando em separado” [Marx, 2008: 46].
No
entanto, o Libertador mudou a sua estratégia aconselhado pelo
ex-chanceler venezuelano Juan Germán Roscio (1763-1821) que se
desempenhava como o seu assessor jurídico. Duas providências foram
adotadas pelo Comandante das forças insurgentes: em primeiro lugar,
convocar um Congresso Nacional que votasse novos tributos para financiar
a guerra; em segundo lugar, organizar um grande exército que garantisse
aos venezuelanos a ofensiva contra as forças realistas. Rapidamente as
forças comandadas por Bolívar chegaram a 14 mil homens bem armados.
A
20 de julho de 1818 os espanhóis eram expulsos de todas as províncias
venezuelanas. Reunidos num congresso provisório na cidade de Angostura,
os patriotas decidiram instaurar um triunvirato semelhante ao Consulado
que tinha investido de poderes a Napoleão Bonaparte em 1802. Imitando a
jogada que tinha posto em prática o primeiro cônsul francês, Bolívar
dissolveu o Congresso e o Triunvirato, instaurou um Conselho Supremo da
Nação e se colocou à testa dele. Como chefes militar e político foram
nomeados, respectivamente, Brion e Francisco Antonio Zea (1770-1822).
Consolidada
precariamente a independência venezuelana, Bolívar conseguiu se ver
livre de um concorrente incômodo: o general Piar. A respeito, escreve
Marx: “Sob as falsas acusações de ter conspirado (…), planejado um
atentado contra a vida de Bolívar e aspirado ao poder supremo, Piar foi
levado a julgamento por um conselho de guerra presidido por Brion,
condenado, sentenciado à morte e fuzilado em 16 de outubro de 1817”
[Marx, 2008: 45].
Restava
ao exército libertador um duplo repto: fazer frente a uma nova força
espanhola chefiada pelo general Morillo que ameaçava chegar até Caracas
ou desalojar os espanhóis da Nova Granada que, pela voz do general
Francisco de Paula Santander (1792-1840), pedia ao Libertador o auxílio
das forças venezuelanas. A respeito, Marx escreve: “Os oficiais
estrangeiros lhe sugeriram fingir que tencionava desferir um ataque
contra Caracas para libertar a Venezuela do jugo espanhol, e com isso
induzir Morillo a enfraquecer Nova Granada e concentrar suas forças na
defesa da Venezuela, enquanto o próprio Bolívar deveria rumar
subitamente para oeste, unir-se aos guerrilheiros de Santander e marchar
sobre Bogotá”.
A
nova estratégia deu certo. Os espanhóis descuidaram a proteção da Nova
Granada para concentrarem as suas forças na defesa de Caracas. Num
arrojado lance que lembra a travessia do general cartaginês Aníbal
(248-182 a.C.) escalando com os seus elefantes os Alpes para surpreender
as legiões romanas, Bolívar dirigiu-se direto das planícies
venezuelanas para os Andes, a fim de chegar a Bogotá no menor tempo
possível. Realizou, nesse caminho, a arriscada escalada dos Andes,
partindo de uma altitude baixa e galgando as geadas cumes da Cordilheira
na Sierra del Cocuy (Páramo de Pisba), na província de Boyacá. Nesse
trajeto vários dos seus soldados provenientes das cálidas planícies
venezuelanas (que integravam a combativa divisão de lanceiros) pereceram
de frio ao enfrentarem uma altitude superior aos 5 mil metros. A
caminho da capital neogranadina, o exército libertador derrotou os
espanhóis em três batalhas sucessivas travadas em 1º de julho, 25 de
julho e 7 de agosto de 1819, tendo ficado as duas últimas (Pântano de
Vargas e Ponte de Boyacá) como marco histórico da independência
neo-granadina.
Vale
destacar que essa campanha realizada por Bolívar é apenas mencionada en
passant por Marx, ignorando totalmente o valor militar de que deu prova
o Libertador nessas jornadas, reconhecidas pelos historiadores como
fruto de uma corajosa e arrojada estratégia militar, comparáveis às
campanhas desenvolvidas por Napoleão nos Alpes, quando da sua primeira
chegada à Itália.
O
triunfo das tropas neo-granadinas e venezuelanas foi acachapante e
garantiu a libertação definitiva da Nova Granada, tendo aberto a porta
para a independência definitiva da Venezuela do jugo espanhol. Com a
libertação dos dois países nascia a República da Colômbia. A partir daí
Bolívar colocou em pauta a libertação dos restantes três países ainda
dominados pela Espanha: Equador, Peru e Bolívia. Foi uma política bem
pensada, arrojada e que consolidou a fama de Bolívar como excelente
estrategista.
Consolidado
o triunfo sobre os espanhóis nas gestas de agosto de 1819, Marx resume
de forma bastante genérica o que se passou depois. Para o autor de O
Capital, tudo não passou de uma circunstância que possibilitou a Bolívar
juntar uma grande soma de dinheiro. Do ponto de vista militar, Bolívar
desperdiçou a oportunidade que tinha de esmagar os espanhóis, graças à
presença, nas filas de combatentes neogranadinos e venezuelanos, de
grande contingente de soldados europeus.
A
respeito, Marx frisa: “(…) Com um tesouro de uns 2 milhões de dólares,
obtidos dos habitantes de Nova Granada mediante contribuições forçadas, e
dispondo de uma tropa de aproximadamente 9 mil homens, um terço dos
quais compunha-se de ingleses, irlandeses, hanoverianos e outros
estrangeiros bem disciplinados, coube-lhe então enfrentar um inimigo
despojado de todos os recursos e reduzido a uma força nominal de 4.500
homens, dois terços dos quais eram nativos e, por conseguinte, não
podiam inspirar confiança nos espanhóis. Com Morillo em retirada (…), os
quartéis-generais inimigos ficaram a apenas dois dias de marcha um do
outro. Se Bolívar tivesse avançado com arrojo, suas simples tropas
europeias teriam esmagado os espanhóis, porém ele preferiu prolongar a
guerra por mais cinco anos” [Marx, 2008: 48].
O
certo é que, no decorrer dos anos de 1820 e 1821, as forças
neogranadinas e venezuelanas se tornaram mais fortes. Bolívar comandava
um exército de 6 mil homens de infantaria, entre eles a legião britânica
com 1.100 soldados, além de 3.000 cavalarianos “llaneros” sob o comando
do general Páez. Contando com a sorte que fez com que fracassasse a
expedição que, da Espanha, comandava o general Enrique José O´Donnell
(1776-1834), os patriotas desalojaram definitivamente os espanhóis da
Venezuela e o Libertador pôde, então, centralizar os seus esforços
bélicos na libertação dos países do sul e partir para o Equador, o Peru e
a Bolívia.
Marx
faz uma avaliação genérica dessa campanha, destacando dois aspectos: de
um lado, o caráter centralizador e autocrático de Bolívar e, em segundo
lugar, fazendo ênfase no decisivo papel desempenhado pelos auxiliares
do Libertador, notadamente o “Marechal de Ayacucho” o nobre general
venezuelano Antonio José de Sucre y Alcalá (1795-1821) nas batalhas
travadas contra os espanhóis. Na avaliação de Marx, aquilo de que mais
gostava Bolívar era o poder ditatorial, sem esquecer as entradas
triunfais, os manifestos e a promulgação de constituições.
A
propósito, frisa: “(…). Essa campanha, que se encerrou com a
incorporação de Quito, Pasto e Guaiaquil à Colômbia, foi nominalmente
liderada por Bolívar e pelo general Sucre, mas os poucos êxitos
alcançados pelo corpo do exército deveram-se inteiramente a oficiais
ingleses, como o coronel Sands. Durante as campanhas contra os espanhóis
do Baixo e Alto Peru, em 1823-1824, Bolívar já não julgou necessário
manter a aparência de ser o comandante supremo, delegou toda a condução
dos assuntos militares ao general Sucre, e se restringiu às entradas
triunfais, aos manifestos e à promulgação de constituições. Por meio de
sua tropa de guarda-costas colombianos manipulou a votação do Congresso
de Lima, que, em 10 de fevereiro de 1823, transferiu para ele a
ditadura; ao mesmo tempo, garantiu sua reeleição como presidente da
Colômbia, mediante um novo pedido de renúncia. Nesse meio tempo, sua
posição se havia fortalecido, em parte graças ao reconhecimento formal
do novo Estado pela Inglaterra, em parte pela conquista das províncias
do Alto Peru, as quais este unificou numa república independente, sob o
nome de Bolívia. Ali onde as baionetas de Sucre imperavam, Bolívar deu
livre curso a suas inclinações para o poder arbitrário, e introduziu o
Código Boliviano, numa imitação do Código Napoleônico. Seu projeto era
transplantar esse código da Bolívia para o Peru e deste para a Colômbia,
a fim de manter esses Estados subjugados às forças colombianas, e
manter a Colômbia submetida mediante a legião estrangeira e os soldados
peruanos. (…) Como presidente e libertador da Colômbia, protetor e
ditador do Peru e padrinho da Bolívia, atingiu o auge da sua glória (…)”
[Marx, 2008: 52].
Bolívar
desejava realizar a unidade dos países por ele libertados, ampliando o
seu poder a toda a América do Sul, que deveria se tornar uma espécie de
República Federativa, a fim de perpetuar o seu nome pelo mundo afora.
Esse foi, no sentir de Marx, o “sonho bolivariano” que teve, porém, um
breve momento de realização, em decorrência das traições dos seus
dominados e devido, também, à doença que o afetava, a tuberculose, fato
que é omitido pelo nosso ensaísta.
Em
relação ao “sonho bolivariano”, escreve Marx, na parte final da
biografia: “O que Bolívar realmente almejava era erigir toda a América
do Sul como uma única república federativa, tendo nele próprio seu
ditador. Enquanto, dessa maneira, dava plena vazão a seus sonhos de
ligar meio mundo a seu nome, o poder efetivo lhe escapou rapidamente das
mãos. Informadas dos preparativos de Bolívar para introduzir o Código
Boliviano, as tropas colombianas do Peru promoveram uma insurreição
violenta. (…). Sob a pressão de suas baionetas, assembleias populares
reunidas em Caracas, Cartagena e Bogotá, para a última das quais Bolívar
se deslocara, tornaram a investi-lo de poderes ditatoriais. Uma
tentativa de assassiná-lo no quarto em que ele dormia, da qual o ditador
só escapou por ter pulado da sacada em plena escuridão e se escondido
embaixo de uma ponte, permitiu-lhe introduzir, durante algum tempo, uma
espécie de terrorismo militar. Mesmo assim, ele não pôs as mãos em
Santander, apesar deste haver participado da conspiração, ao passo que
mandou executar o general Padilha, cuja culpa de modo algum fora
provada, mas que, como homem de cor, não pôde oferecer resistência”.
Neste
último episódio, Marx faz ênfase na covardia de Bolívar, que somente
aplicou a pena capital naquele que não podia reagir, um oficial mulato, o
general colombiano José Prudencio Padilla (1784-1827) herói da batalha
de Maracaibo, que selou a independência da Venezuela. Com a sua
autoridade contestada pelos colombianos, Bolívar refugiou-se no casarão
de San Pedro Alexandrino, perto de Santa Marta, no litoral caribe da
Colômbia, “quando faleceu repentinamente”, escreve Marx.
A
realidade é que o Libertador foi vítima de tuberculose, que o afetou ao
longo dos últimos anos. A vida de Bolívar extinguiu-se, assim, na luta
entre dois inimigos: a doença e a reação dos seus libertados, como
destacou com maestria Gabriel García Márquez (1927-2014) no romance
histórico intitulado: El general en su laberinto [1989].
2 – As razões da visão negativa de Marx acerca de Bolívar.
Várias
interpretações foram elaboradas pelos estudiosos do marxismo em relação
à apresentação escrita por Marx sobre o Libertador. Destaquemos, de
entrada, a mutante versão “eclesiástica” elaborada pelos intelectuais do
Kremlin, ainda na época do Império Soviético, sobre o escrito de Marx.
Para
os especialistas russos, como frisa o estudioso marxista argentino José
Aricó (1931-1991), na sua Introdução – O Bolívar de Marx, [in: Marx,
2008: 9], as opiniões dos americanistas soviéticos, influenciados de
forma decisiva por Vladímir Mikháilovich Mirochévski (1902-1978) e sua
escola, “(…) coincidiram com a visão de Marx sobre Bolívar, tornando-a
extensiva a uma caracterização negativa das guerras de independência
latino-americanas. Enfatizando o limitado caráter nacional e popular do
processo revolucionário que conduziu à constituição dos Estados
independentes, viram nele apenas ‘um assunto próprio de um punhado de
separatistas crioulos que não contavam com o apoio das massas
populares’. O juízo formulado por Marx foi transposto inclusive para as
demais personalidades do movimento de libertação e até para o próprio
movimento”.
No
entanto, essa posição canônica dos especialistas do Kremlin mudou nos
anos posteriores. A parcial avaliação de Marx sobre Bolívar foi
atribuída, então, à parcialidade das fontes por ele consultadas,
destacando – falsamente – a ausência de fontes melhores.
Os
americanistas soviéticos escrevem, de forma a salvar a isenção
intelectual do seu ícone: “Marx, como é natural, não possuía à sua
disposição, naquela época, outras fontes senão as obras dos autores
mencionados, cuja parcialidade era então pouco conhecida. Por
conseguinte, era inevitável que Marx elaborasse uma opinião unilateral
sobre a personalidade de Bolívar, como se reflete nesse ensaio. Essa
ambição de poder pessoal, ampliada nas obras mencionadas, não pôde
deixar de influir na atitude de Marx para com Bolívar” [cit. por Arigó,
in: Marx, 2008: 9].
Arigó
coloca outra razão que explica a pinimba de Marx contra Bolívar: o fato
de este ter ancorado na valorização das revoluções bonapartistas, à
sombra do pensamento hegeliano e nesses “países sem história” (presentes
em Ibero-America) como pensava o filósofo do Espírito Absoluto. Ora, o
que Hegel (1770-1831) destacou foi uma espécie de retardamento da grande
revolução proletária, consistente numa “expressão linear de uma relação
de força já previamente consolidada dentro da esfera
econômico-produtiva” [Arigó, in: Marx, 2008: 20]. Explicação,
convenhamos, um tanto obscura que visa, apenas, a salvar a boa reputação
de Marx entre os marxistas. Bolívar era rejeitado por Marx porque
encarnava uma abstração da ciência burguesa esconjurada pelo autor de O
Capital.
Quanto
à minha explicação sobre a parcialidade de Marx para com Bolívar, faço,
apenas, duas anotações. Em primeiro lugar, a sociologia marxista se
dava bem no contexto dos denominados por Weber (1864-1920) de “Estados
Contratualistas”, aqueles que surgiram ao ensejo da formação de classes
sociais que lutavam pela posse do poder. Não tendo conseguido se
eliminar mutuamente, as várias classes firmaram “contratos” a partir dos
quais emergiu o moderno Estado, a partir da luta de classes [Cf. Weber,
1944: I e IV volumes].
É
o caminho assinalado por François Guizot (1787-1874) para explicar a
formação da Europa moderna, na sua obra intitulada História da
Civilização na Europa desde a queda do Império Romano até a Revolução
Francesa [cf. Guizot, 1864]. A Europa viu nascerem Estados Modernos ali
onde houve feudalismo de vassalagem, que possibilitou a diferenciação
das sociedades e a emergência de classes “com consciência de classe”.
Como destacou Plekhanov (1856-1918), Marx se louvou desses conceitos
sociológicos conservadores, adotados por Guizot e que, no tangente às
classes sociais e à sua dinâmica, tinham sido já tratados por Benjamin
Constant de Rebecque (1767-1830) nos seus Princípios de Política (1810).
Já
em relação ao tipo de “Estado Patrimonial”, estudado por Weber e Karl
Wittfogel (1896-1988), não se deu essa diferenciação em classes sociais,
mas o Estado moderno se configurou como alargamento de uma autoridade
patriarcal primigênia sobre territórios, pessoas e coisas
extrapatrimoniais, passando a administrá-lo tudo, como “propriedade
familiar ou patrimonial”.
Assim
teriam surgido, no Oriente, os Estados Patrimoniais ao ensejo do
“despotismo hidráulico”, que teve também a sua manifestação na Península
Ibérica, bem como na Rússia czarista e nos Impérios pré-colombianos
inca e asteca. Teria Marx uma dificuldade especial para lidar com essas
formações sociais, onde o poder, como diz Raimundo Faoro (1925-2003),
“tem donos” [cf. Faoro, 1958]. Ora, essa era a realidade imperante na
América Latina, por força da forma em que espanhóis e portugueses
conquistaram o Novo Mundo, como se se tratasse de um bem de família,
submetido domesticamente aos soberanos na “empresa do rei”. Um Estado
surgido da luta de classes simplesmente inexistiu na América Latina. Daí
a dificuldade para Marx entender este quadrante da história moderna. A
ação libertadora de Bolívar ficava, portanto, presa a essa penumbra.
Em
segundo lugar, do ângulo da formação intelectual, poderíamos reconhecer
algumas contradições presentes no pensamento de Marx. No caso da
avaliação negativa de Bolívar por parte do pensador alemão, a principal
contradição decorria de uma rejeição profunda e emocional que Marx tinha
experimentado em face de uma personalidade que não se ajustava às suas
expectativas revolucionárias, o seu genro Paul Lafargue (1842-1911), que
o destino colocou como parceiro conjugal da sua amada filha, Jenny
Laura (1845-1911).
Médico
de origem franco-cubana, Lafargue se orgulhava de ter escrito um ensaio
polêmico que se intitulava O direito à preguiça, publicado pela
primeira vez, em 1880, no semanário L´Égalité. Ora, um socialista judeu,
como Marx, que valorizava o trabalho como fonte de redenção da classe
operária e que acreditava no papel messiânico da classe explorada, à
sombra do messianismo político de Saint-Simon (1760-1825), certamente se
revoltou contra alguém que se gabava, na empreitada escatológica para
libertar os trabalhadores, de fazê-lo de costas para o trabalho, a
partir do ócio. “Semeei dragões, mas colhi pulgas”, afirmou Marx de
certa feita em relação aos seus genros, Paul Lafargue e Charles Longuet
(1839-1903).
Marx,
efetivamente, teria dificuldade em aceitar uma afirmação de Lafargue
como esta: “Uma estranha loucura está a apossar-se das classes operárias
onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta atrás de si
misérias individuais e sociais que, há dois séculos, atormentam a triste
humanidade. Esta loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão
moribunda pelo trabalho, levada ao depauperamento das forças vitais do
indivíduo e da sua prole” [Lafargue, 1977: contra-capa]. Marx afirmaria
que aquilo que confere valor às mercadorias é o “trabalho social” que as
produziu. A riqueza, portanto, dele provém. Não é o trabalho que
empobrece os operários, mas a apropriação, pelos capitalistas, da
mais-valia decorrente do trabalho das classes operárias, nas sociedades
capitalistas [cf. Marx, 2003, I: 10-20; 60-75].
Com
a sua concepção anti-trabalho que se aproximava da visão
contrarreformista imperante na Península Ibérica, Lafargue virou uma
espécie de embaixador informal das ideias comunistas no meio ibérico.
Mas o sogro jamais o perdoou por ter negado a “ética do trabalho”
presente no Capital. Lafargue seria uma espécie de “bode expiatório” que
carregava sobre si a infelicidade ibérica de não contar com a
valorização do trabalho. Cubano e herdeiro dessa concepção nobiliárquica
ibérica que fazia do trabalho “castigo pelo pecado original”, Lafargue
possibilitou que a imaginação do sogro enxergasse, à sua sombra, outra
figura herdeira dessa perniciosa tradição de ética do não trabalho, o
festeiro e guerreiro Bolívar, o “Napoleão das retiradas”.
Lafargue
e Jenny Laura praticaram o suicídio em 1911, se injetando uma
substância letal. Na mensagem de despedida, Lafargue escreve que comete o
suicídio “antes que a velhice imperdoável me arrebate”. Lenine
(1870-1924), tornando-se porta-voz dos comunistas, escreveu a respeito:
“Um socialista não pertence a si mesmo, mas ao partido. Pode ser útil à
classe operária. Por exemplo, escrevendo nem que seja um artigo ou um
apelo. Não tem direito a suicidar-se”.
O
principal ideólogo da revolução bolchevique, terminava assim o seu
discurso em homenagem a Paul e Laura Lafargue, quando do suicídio deles
em 1911: “A revolução russa deu início às revoluções democráticas em
toda a Ásia, e 800 milhões de homens participam agora no movimento
democrático, em todo o mundo civilizado. Multiplicam-se cada vez mais na
Europa os sinais precursores do fim da época em que dominava o
parlamentarismo burguês, dito pacífico, época que cederá lugar à dos
combatentes revolucionários do proletariado, organizado e educado no
espírito das ideias do marxismo, que deitará por terra o poder da
burguesia e instaurará a ordem comunista” [Lenine, in: Lafargue, 1977:
6].
Lenine
assinalava, assim, o caminho da revolução comunista: vingaria
principalmente ali onde tinha amadurecido o “despotismo oriental ou
asiático”, na Rússia inicialmente e, depois, na China. Na Europa, onde a
classe operária fez as reformas participando da luta parlamentar, um
comunista feito Lenine não cogitava em mudanças significativas. Mas “a
prova da História seria outra”, com as reformas parlamentares feitas
pelos sociais-democratas na Alemanha, na França e na Inglaterra. A
balança da História se inclinaria a favor de Eduard Bernstein
(1850-1932) e os socialistas democráticos, que decididamente se
afastaram dos comunistas e do modelo de socialismo despótico apregoado
por Marx.
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Ricardo
Vélez-Rodríguez - Mestre em Filosofia (PUC/RJ). Doutor em Filosofia
(UGF). Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do
Centro de Pesquisas Estratégicas "Paulino Soares de Sousa". Coordenador
do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Professor Emérito na
Escola de Comando e Estado Maior do Exército.
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