E o peso “deste” fim de época? Os optimistas dirão que se trata de um intervalo num percurso de normalidade conhecida, os pessimistas, como eu, chamam-lhe fim de época: sem medo das palavras. Maria João Avillez para o Observador:
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Já prestes a chegar, passada aquela curva mais íngreme quando se desce
para a praia, a expectativa sobe na antevisão da cor da bandeira. O
ritual repete-se de ano para ano: bandeira verde seria demasiado
“whisful thinking”, talvez amarela? Mas céus, tudo menos a vermelha, mãe
de todas as impossibilidades. Desta vez, porém, não havia bandeira no
areal. E também já não havia toldos. Nem havia banheiros. A ausência dos
toldos às riscas azuis e brancos, até ali sempre alinhados como
soldados de um exército protector, fizera subitamente da areia um outro
oceano infinito enquanto eu imaginava, no barracão da praia, uma
montanha de riscas de pano já bem dobrados, até para o ano. Era o fim da
época. Provavelmente, alguém avisara, mas não dera por isso, nunca
deixo que o Verão me fuja ou me arrede dele, e mais uma vez partira
afoita para o meu Atlântico – meu, do mesmo exactíssimo modo em que uns
sapatos, ou um automóvel, podem ser meus.
O
mar ali é fértil em susto e avaro de calmaria, mas paciência. Nunca foi
de outro modo e já nos conhecemos há tanto tempo que julgo saber-lhe as
correntes, os baixios e outros perigos. Costuma ter a cobri-lo uma tela
de neblinas obstinadas e às vezes – muitas vezes – cachos de nuvens de
um esbranquiçado espesso, que parecem misteriosamente ter ali
estacionado para sempre. Paciência. Outra vez. Requiem por um dia Verão.
Mas nos chamados “dias bons”, com os deuses de feição, o mar amável, a
bandeira verde, os sentidos ficam de imediato alerta, pressentindo o
dom. São dias mais raros e, por isso, sorvidos com volúpia. Poucas
coisas conheço de mais totais, do que um banho de mar no Atlântico num
dia azul de Verão e nunca por nunca ser qualquer outro mar – e sabe Deus
como o Mediterrâneo me inspira – teve a primazia.
E
nos dias “assim-assim”, faz-se de conta. São os de bandeira amarela,
entalados entre a glória do Verão (o verde da bandeira) e o repúdio da
temeridade, sinalizada pelo vermelho. Nesses dias, hesitamos entre a
tentação e o receio do mar, traiçoeiro, dizem, e esperamos: talvez as
águas sosseguem, ou o vento mude, ou… Anda-se a pé, dobra-se a esquina
das rochas, ou vai-se até à lagoa, o mais manso refúgio para os
esfaimados das ondas como sou. Mas não gosto dos dias de bandeira
amarela, são incaracterísticos, de nem uma coisa nem outra, quase
inócuos. (Lembram-me um coro de hesitantes, ou alguns vultos da
República, sempre encostados ao conforto mole do “nim”, parecido com os
muitos “mas” daquele amarelo praieiro e nem sei porque me lembrei disto
agora.)
Mas
seja qual for o humor ditatorial da bandeira, resta-me sempre, nesta
praia ou nas outras daqui – e não se sabe qual a mais imperiosamente
oceânica -, a certeza do cheiro a maresia, como se sabe, o mais
inebriante dos cheiros. E se o Ruy Belo estivesse agora ao pé de mim,
percebia muito bem isto da maresia e destas ondas. E de como pode ser
absoluto o seu efeito sobre a “anima” de uma pessoa, ele que sentia como
ninguém estas moradas atlânticas e tanto as procurava.
Mas
agora já não há bandeira, nem toldos, nem banheiros. O Verão partiu, a
praia é hoje uma imensa terra de ninguém fustigada pelas arrebentações
prodigiosas do equinócio. É o fim da época, com a fininha melancolia que
a tinge. Deve haver poucas coisas tão tristes como o fim da época num
lugar de Verão do qual se esteve (quase) como numa questão de vida ou de
morte.
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Tal como o Verão, aquilo que prezamos como democracia estará também em
fim de época? A liberdade, de pensamento e gesto, o Estado de Direito, a
certeza da independência entre os seus três poderes, insubstituíveis
traves mestras do regime democrático; o cumprimento da lei, a
importância do Parlamento, o trânsito partidário, o poder do voto, o
valor do debate, uma “media”com saúde democrática… Tudo isso, enfim, que
nos educa para uma cidadania decente – e nos protege e defende -,
parece estar nalguns países a atingir o seu prazo de validade com
ameaçadora naturalidade. Admirável naturalidade, de resto, e por isso
deixo aqui um caso, que a ser verdade, volta a radiografar bem a
dimensão da ameaça. Ocorreu no México. Eu sei que é longe e pouca
intimidade temos com o país latino tão distante, mas o exemplo é bom.
Foi protagonizado pelo seu Presidente, Manuel Lopez Obrador, em cuja
eleição grande parte do país depositou as maiores esperanças, após
décadas (demasiado) longas de ocupação do palco político pela direita.
Pois bem: do dia para a noite, Lopez Obrador decidiu proceder a um
“referendo” para que os mexicanos se pronunciem se sim ou não devem ser
julgados os presidentes da República que antecederam Lopez Obrador no
poder. São cinco, nenhum anda a contas com a Justiça, nenhum tem
processos judiciais em curso ou, sequer, abertos. Segundo o que leio (El
País) “cabem poucas dúvidas jurídicas sobre o impossível encaixe legal
de um gesto destes. Numa democracia é a Justiça, os seus juízes e
fiscais que tomam estas decisões. E não o poder executivo, nem o
legislativo, nem as a votações populares”.
Que
o acto é exclusivamente político, é verdade. Que um presidente tenha
ousado semelhante ideia e avançado para a sua concretização, parece
mentira. O México será muito longe, mas longe ou perto, as regras da
democracia são únicas e as mesmas, o mau uso que delas se faz é que
começa a rolar para os abismos. Isto, para variar das nossas
poucas-vergonhas caseiras e já repararam como elas se tornaram
sucessivas? Todos os dias há um novo episódio, como nas séries, mas
infelizmente a nossa é péssima.
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E o peso “deste” fim de época? Os optimistas dirão que se trata de um
intervalo num percurso de normalidade conhecida, os pessimistas, como
eu, chamam-lhe fim de época: sem medo das palavras, ou sabendo lidar com
elas. O fim da “normalidade “ que era a nossa; do como éramos,
fazíamos, escolhíamos e nos relacionávamos; o fim dos códigos que regiam
esse mundo, onde, mais forte ou mais frágil, havia chão debaixo dos pés
e há aqui qualquer coisa de quase apocalíptico com a qual vai ser
preciso aprender a lidar. Aprender (literalmente) uma nova vida. O solo
que pisamos hoje é deslizante e traiçoeiro, vive-se às apalpadelas, no
escuro do desconhecido. Os mais racionais consolam-se com (excesso?) a
esperança de uma vacina que “qualquer dia estará aí”, confiando até que o
Inverno pode não ser tão madrasto quanto as previsões ou, até (!), que a
energia vital da vida vencerá o medo e a dúvida. No entretanto, não se
sabe com quem aprender estes dias, nem em que livros ler de que passarão
a ser feitos. Ou a que fonte ir bebê-los.
Perguntas
sem respostas, claro. Talvez seja melhor assim. Banir a curiosidade e
dispensar a imaginação, em vez de antecipar – mobilando-a – a nova época
impressa globalmente no mundo, talvez não seja má ideia.
P.S.:
Li e tive muito pena. Imensa pena. A carta enviada por um grupo de
católicos ao Patriarca de Lisboa, por ter ele assinado um manifesto onde
se fundamentavam as discordâncias quanto ao ensino da disciplina de
Cidadania e da punição atribuída a dois alunos que deixaram de
frequentar essas aulas, enferma do mesmo que aqui apontei há oito dias: o
nível de irracionalidade e “inseriedade” que afecta hoje, ferindo de
morte, qualquer debate intelectual e político. Segundo li no título de
um jornal, D. Manuel Clemente e um outro Bispo estariam em má companhia
nesse manifesto, porque os seus signatários são de extrema direita
(quais?). No corpo da notícia já só seriam “alguns” (quais?). Haverá
“justificação” mais à mão, mais corriqueira, mais inserida no ar do
tempo, mais politicamente correcta, mais obsessiva e, claro, mais falsa?
Ocasião desperdiçada. Mas pior: como católicos que se afirmam, escrevem
e assumem, a figura de D. Manuel Clemente, o seu percurso, o seu
exemplo, a sua cultura, não mereceriam a estes signatários uma confiança
no seu critério e no entendimento dos actos que pratica? Ou seja, não
hesitaram, em nome do tal ar do tempo – esse sim, “sagrado” – em lhe
passar um atestado de irresponsabilidade cívica, coisa muito feia. Quem
esperava outro fôlego e melhor substância neste escrito católico, não se
terá lembrado que a boa fé e a seriedade moral e intelectual também
podem estar em fim de época.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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