É difícil para todos os governos, mas alguns exageram na contenção, correndo o risco de não convencer os cidadãos sobre a sua necessidade. Vilma Gryzinski:
A
partir de sexta-feira, os escoceses não poderão visitar parentes e
amigos, com apenas algumas exceções. Mas – pelo menos por enquanto –
podem encontrar-se num restaurante, dentro do limite máximo de seis por
mesa, e passar um bom tempo conversando e comendo cara a cara. Qual
dessas circunstâncias é mais propícia ao contágio?
Essa
parte não foi abordada pela primeira-ministra da Escócia, Nicola
Sturgeon, ao anunciar as novas restrições decorrentes do ressurgimento
do coronavírus.
Os
quatro componentes do Reino Unido – Inglaterra, País de Gales, Escócia e
Irlanda do Norte – tomam decisões separadamente sobre assuntos como
saúde pública e isso confunde um pouco os dados, sem falar na
coordenação.
Nicola Sturgeon é do partido que quer se separar do Reino e procura sempre dar uma espicaçada em Boris Johnson.
Ela
também assumiu a figura de durona no combate ao vírus, procurando se
distinguir do governo central, embora, isoladamente, a Escócia tenha o
nada satisfatório índice de 733 mortes por milhão de habitantes.
Originalmente
menos tenso e mais extrovertido do que Nicola, Boris Johnson também não
está bem na foto em matéria de medidas que contrariam o bom senso.
Durante
a primeira onda, algumas atingiram o ápice do ridículo, como as que
regulamentavam os passeios com cachorros. O cidadão podia ir de carro
até a área onde levaria seu companheiro canino para exercitar as
patinhas, mas o percurso tinha que ser suficientemente longo para
justificar o uso do automóvel.
Medidas que entravam e saiam de cena, cercadas por exasperação geral, tornarem-se comuns.
Agora,
com as novas restrições, uma das mais discutíveis é o fechamento de
bares e restaurantes às 10 da noite. Também está proibido ficar em pé
nos pubs e pegar bebidas no balcão.
Alguns
especialistas acham que o limite horário vai adensar o movimento,
propiciando assim condições mais favoráveis aos contágios.
Boris
também disse que as Forças Armadas poderiam ser acionadas para fazer
funções burocráticas nas delegacias de polícia enquanto os agentes da
lei saem em massa para multar os infratores das novas regras. Dá para
imaginar a satisfação das duas partes envolvidas. “Ridículo” foi um dos
adjetivos mais gentis.
Um
ex-juiz da Suprema Corte britânica – uma invenção recente -, Jonathan
Sumption, diz que o governo nem sequer tem autoridade jurídica para
colocar a população em “prisão domiciliar” e usa a tática do medo para
promover “a maior afronta a nossa liberdade pessoal de todos os tempos,
incluindo períodos de guerra”.
Mais
complexa é a situação em Madri, onde 37 bairros foram colocados em
confinamento. Como policiar – e explicar – essa colcha de retalhos?
O
objetivo justificável e compreensível da governadora Isabel Díaz Ayuso,
do partido de centro-direita, é tentar evitar um novo confinamento
geral e as consequências devastadoras para setores que já mal conseguem
manter a cabeça fora da água.
Infelizmente,
dificilmente conseguirá. A Espanha, com destaque para a região de
Madri, é o país recordista de contágios da nova onda.
Israel
já está de novo sob confinamento, coincidindo com os feriados
religiosos que culminam no domingo, com o início do Yom Kippur.
Essa
é a semana em que mesmo judeus menos praticantes vão às sinagogas e os
mais ortodoxos concentram-se totalmente no jejum e nas orações.
O
ministro do Interior, Aryeh Dari, que é de um partido ultraortodoxo, o
Shas, disse que só conseguirá convencer os rabinos a permitir orações
apenas do lado de fora das sinagogas, com distanciamento entre os fiéis,
se também forem proibidas as manifestações de protesto e a frequência
nas praias.
“Eu
entendo que as demonstrações são um valor sagrado para muitas pessoas, e
respeito isso, mas para mim e muitos outros as preces são um valor
sagrado”, disse. Não deveria o ministro se ocupar mais de proteger a
comunidade que representa?
Não
é difícil entender as dificuldades dos governos, em todos os países
afetados, em procurar administrar uma doença nova, principalmente depois
que a primeira onda tinha passado e dava a impressão de que o vírus
havia sido controlado.
Convencer
a opinião pública de que está fazendo o melhor possível, em
circunstâncias difíceis, é o melhor equipamento de sobrevivência para
políticos no poder.
Uma
pesquisa recente mostra que mesmo restrições fortíssimas produzem apoio
quando espelham, correta ou incorretamente, as boas intenções dos
governantes.
Na
Itália, onde policiais chegavam a conferir o tíquete do supermercado
para ver se a única pessoa da casa autorizada a fazer compras estava
mesmo se limitando ao percurso necessário, a aprovação ao governo está
em 60%.
Na
Suécia, a exceção do bloco, 56% acham que o governo está administrando
corretamente a crise do vírus. França, 37%; Espanha, 33%; Reino Unido,
30%.
Boris Johnson vai ter que fazer mais do que mandar multar o pessoal da balada que não dispersa depois das dez da noite.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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