Prometeram-nos liberdade e acabamos mais vigiados que nunca.
Prometeram-nos igualdade e acabamos divididos em castas. Prometeram-nos
paz e acabamos a viver em guerra conosco mesmos. O cerco fechou-se.
Artigo de Helena Matos, via Observador:
O que vai ser? O triunfo da patranhologia da libertação
Como se chamava o rapaz morto há poucos dias pela polícia angolana num mercado de peixe em Benguela?
Tinha 14 anos. E o outro de 21 baleado em Rocha Pinto porque não usava
máscara, qual era o nome dele? Azar o deles não serem afro americanos em
tempos de administração Trump. E aquela mulher que foi espancada pelas forças de segurança na Guiné-Bissau porque não saiu da varanda? Ainda se a agressão pudesse ser enquadrada numa perspectiva dos abusos do colonialismo heteropatriarcal branco!
Só a geografia mudou na mistificação do alegado combate ao racismo e
ao colonialismo porque a mistificação essa mantém-se: há 45 anos
gritava-se que África ia ser para os africanos e garantia-se que por
todo aquele continente floresciam nações livres. Tudo o que não cabia na
grelha da libertação era racismo. Falar daquele que foi talvez o maior
massacre de portugueses, o 7 de Setembro de 1974 em Moçambique? Era
racismo. Denunciar o fuzilamento dos comandos negros das forças armadas
portuguesas na Guiné? Era fazer o jogo dos racistas. Avisar para as
consequências na vida das pessoas fossem elas negras, brancas ou mulatas
da perseguição que estava a ser feita em Angola aos comerciantes? Era
racismo. E racismo obviamente era dizer que só havia tirania e
cleptocracia nos movimentos que a Europa e os EUA diziam de libertação.
(A URSS e a China também, obviamente).
Quando a utopia da libertação de África acabou numa sucessão de
regimes grotescos, as periferias urbanas de várias cidades europeias
encheram-se de gente que vinha a fugir da miséria e das guerras. Mas
continuavam apenas a denunciar-se os crimes do colonialismo e os
falhanços do colonialismo. E das libertações que nunca o foram? Quando
se faz o balanço dessa tragédia? Os africanos arriscam a vida a fugir do
seu continente porquê?
O manto de silêncio que caiu sobre as consequências dessas ditas
libertações permitiu a proliferação dessa patranhologia que é a redução
da escravatura a um fenómeno de brancos escravizando negros. E permitiu
também que a escravatura sobrevivesse nas geografias onde os brancos não
podiam ser culpabilizados como é o caso da Mauritânia.
Mas não só, os argumentários vitimistas aí estão de novo como se não
tivessem lastro. As consequências de sempre: pobreza e exclusão para os
que caem nas malhas dos libertadores. Cátedras, presidências de
fundações e centros de investigação para os libertadores. Na Europa e
nos EUA, claro. Os afrodescendentes estão a ser a carne para canhão dos
libertadores do século XXI tal como os africanos o foram dos
libertadores do século XX.
O que vai ser? Tudo será aceite se for apresentado como um combate contra o mal.
O que faria a HBO caso tivesse no seu catálogo um filme sobre dona
Ana Joaquina, mulata de Luanda, (1788-1859), rica negociante,
proprietária de terras e barcos e uma das maiores comerciantes de
escravos do seu tempo?… Pergunto que livros, quadros, estátuas,
tapeçarias, filmes… escaparão ao crivo de se achar que o passado devia
ser igual ao presente? Discutir o racismo em “E tudo o vento levou” ou o
esclavagismo do padre António Vieira é uma armadilha porque é aceitar
participar num contra-senso: o passado é isso mesmo, passado.
Não diziam que devíamos lutar contra a censura? Não ficaram para trás
os tempos do inominável lápis azul? Ora, ora, tudo isso era nos tempos
em que a censura era censura e não um combate ao discurso do ódio. Agora
a censura chama-se combate ao discurso do ódio e não falta quem se
disponha a ser censor – diz-se activista – em nome desse combate (há
mais combates para outras censuras). Empresas, universidades, artistas…
correm pressurosos a querer praticá-la. Competem até para ver qual se
esforça mais. Qual leva o seu zelo mais longe: enquanto atulham o seu
discurso com referências ao que foi proibido no passado eles mesmos estão a proibir conferências e a justificar que se eliminem livros das bibliotecas.
Enganaram-nos não foi? Prometeram-nos um futuro diferente do passado e
afinal tudo o que abominámos no passado volta mas sem vergonha do que
é. A HBO justifica com o palavreado de uma redacção de escola primária o
ter retirado do seu catálogo o “E tudo o vento levou”: “é um filme de
época que retrata preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, eram
comuns na sociedade americana. Representações racistas que não eram
corretas na altura e continuam hoje em dia. A HBO Max acredita que
manter o título sem uma explicação ou denúncia das mesmas seria uma
irresponsabilidade. Estas representações são contrárias aos valores da
WarnerMedia e, por esse motivo, quando a HBO Max voltar a incluir o
filme no seu catálogo será mediante uma explicação do seu contexto
histórico e de denúncia sobre as mesmas, bem como mostrar como foram
originalmente criadas, já que fazê-lo de outra forma seria assumir que
estes preconceitos nunca existiram.”
Estas turbas ululantes, ignorantérrimas, a tresandarem a
superioridade moral, não têm o direito de se impor como tutores do que
vemos, ouvimos e estudamos. Muito menos destruir e impor a sua lei
particular. Há quem se sinta ofendido? Percebo perfeitamente. Acho
insuportavelmente mau e boçal muito do que se vê e ouve por aí. Mas nada
me dá o direito de exigir a sua proibição.
O que vai ser? As castas privilegiadas do regime vão lutar para mostrar qual delas manda mais.
Em Lisboa, um prédio ocupado passou mediaticamente em segundos a centro de apoio a carenciados.
Porquê? Porque quem o ocupou está do lado certo do poder dentro da
Câmara Municipal de Lisboa (CML) e das redacções. Ou seja do BE. Ninguém
averiguou porque deixou, em 2016, a CML de apoiar naquela mesma zona de
Arroios um centro de apoio aos sem-abrigo que era gerido pela Igreja.
(Na época a CML declarou: “há uma metodologia de trabalho do centro
paroquial que não se coaduna com o programa municipal de apoio aos
sem-abrigo da Câmara Municipal de Lisboa e, aparentemente, não
resolúvel“. Pelos vistos aquele ajuntamento folclórico que agora ocupou o
prédio já tem uma metodologia conforme ao programa municipal!) Muito
menos alguém teve curiosidade de investigar como estavam a ser aplicadas
pelos ocupas as
inúmeras normas que regem todo e qualquer um que meta ombros à tarefa
de montar um centro de apoio a pessoas sem abrigo fora do activismo da
extrema-esquerda: existia por acaso o processo individual
“permanentemente actualizado” de cada utilizador? Estava afixada em
local visível a licença de funcionamento? E as “condições, critérios e
procedimentos de admissão”? Escusam de dizer que isto não é assim tão
importante pois é importantíssimo: se a gestão do dito centro não fosse
daquela tropa fandanga era o suficiente para se falar de ilegalidades,
situações de risco e choverem ameaças de multas.
Mas se isto é o que aconteceu eis o que vai acontecer: vamos ter mais
ocupações. Para já vão-se penalizar as tentativas de desocupação: muito
convenientemente os seguranças que fizeram a desocupação do edifício
são apontados como podendo ter exercido funções que lhes estão vedadas.
Na próxima ocupação dificilmente haverá desocupação. Nos primeiros
tempos dirão que no prédio ocupado vai funcionar um centro anti-racista;
uma associação cultural; um centro de apoio a vítimas… Depois nem
isso.O BE faz prova da sua superioridade face à lei na Almirante Reis. A
CGTP na Alameda. O PCP na Festa. Entretanto a polícia recebe ordens
para apreender manjericos de papel nas varandas dos bairros populares.
Para o próximo ano os manjericos podem ser obrigatórios. Não interessa: a
normalização do absurdo moldou-nos para aceitar os abusos do poder.
O que vai ser? Exigir segurança é um crime para quem vive fora da bolha das castas.
12 de Junho. Amadora. Homem agride e deixa inconsciente PSP que defendia mulher e bebé. Agressor entrou na habitação da ex-companheira pela janela, onde estava também a filha de ambos, uma bebé com 20 dias. Belas.
Motorista de autocarros da empresa Vimeca foi esfaqueado esta
sexta-feira, quando tentava impedir que os passageiros entrassem sem
pagar numa paragem Lisboa. Um comerciante foi brutalmente espancado por um cliente, a quem pediu que usasse máscara de proteção contra a Covid-19 para entrar no estabelecimento de que é proprietário, no Campo Pequeno, em Lisboa.
Na cidadela, esse mundo onde a casta põe a máscara para ir de
bicicleta ou de carro de serviço aos espectáculos que louvam o regime,
logo dirão que estas notícias são populistas. Estes episódios só lhes
interessam caso em algum deles se detectem sinais de violência policial.
Ou mais grave ainda indícios de que as vítimas reagiram.
Os governos, como acontece com o francês, mandam as polícias carregar
sobre os manifestantes quando se sentem directamente ameaçados. Recordo
que esse bem-amado por conta dos euros que hão-de vir, ou seja o presidente Macron, teve de ser retirado de um teatro no meio de uma exibição de força
que noutro contexto e com outros protagonistas teria motivado uma
cadeia de notícias (estão a ver os títulos com Trump?) Em Espanha, Pablo
Iglesias, o tal que abominava polícias e defendia os ajuntamentos à
porta dos governantes de direita, tem agora a sua casa guardada por
dezenas de efectivos e duríssimas medidas de segurança. Mas a salvo
na sua bolha-cidadela tudo lhes parece excessivo para garantir a
segurança a quem tem de usar os transportes públicos, vive nos bairros
das periferias ou tem um pequeno comércio e não se pode permitir o luxo
de pagar um segurança (em muitos casos, em Portugal já se acumulam
seguranças e agentes policiais nos chamados gratificados). Falar sobre a
nossa segurança é um direito que deixámos que nos retirassem. Podia ter
sido doutro modo mas preferimos o engano à verdade e o tacticismo à
coragem.
O ocidente é hoje uma grotesca cidade aberta cujos governantes
retiraram para as suas cidadelas enquanto mandam os seus povos
penitenciar-se perante as turbas a que os deixam entregues: tapem essa
estátua. Não digam a palavra descobrimentos. Não vejam esse filme. Não
leiam esse livro… Paguem é os impostos, sobretudo paguem os impostos. Os
directos e os indirectos. Mais as taxas que eram só para os ricos e
acabam sempre a ser pagas pelos pobres.
Há uns meses estes governantes davam estatuto de especialista em
economia, clima e relações internacionais a uma miúda que da vida só
conhecia os microfones dos jornalistas e a mesada dos pais. Depois
vieram os avisos dos cientistas de que uma epidemia estava para chegar e
os mesmos governantes que anteriormente se fiaram numa adolescente para
nos dizer como nos devíamos governar e salvar o mundo do apocalipse,
disseram que não ia ser nada. Depois disseram que ia ser o fim do mundo
se não fizéssemos o que eles diziam, sendo que num dia diziam uma coisa e
no outro o seu contrário. Agora fazem inventários de estátuas a
esconder.
Enganámos, enganámo-nos e enganaram-nos.
Prometeram-nos liberdade e acabámos mais vigiados que nunca.
Prometeram-nos igualdade e acabámos divididos em castas.
Prometeram-nos paz e acabámos a viver em guerra connosco mesmos.
Acabámos cercados.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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