Muitas respostas são impublicáveis, mas caso do senador americano
suspeito deusar informação privilegiada para vender ações tem outros
desdobramentos. Vilma Gryzinski:
Ver agentes da Polícia Federal chegar na casa de um senador com
mandado de busca para levar seu telefone celular pode lembrar cenas
recentes envolvendo políticos de alto coturno, ainda vivas na memória
dos brasileiros.
Como o caso envolve um senador americano, parece coisa de filme.
Richard Burr é senador pelo Partido Republicano e, depois da visita,
se afastou da presidência da Comissão de Inteligência do Senado.
Foi nessa posição que recebeu informações fora do alcance do público
sobre a pandemia que se avizinhava, em meados de fevereiro, quando ainda
os Estados Unidos pareciam – apenas pareciam – fora do alcance do vírus
maligno.
Por uma incrível coincidência, ele vendeu ações de empresas que
seriam prejudicadas, como de hotéis. O total específico não é
identificado, mas fica na faixa entre 628 mil e 1,7 milhão de dólares.
E não foi só ele: um cunhado também fez a transição do que viriam a ser papéis incinerados no período suspeito.
Outros representantes do povo, incluindo a senadora mais rica do
país, a republicana Kelly Loeffler, dona do time de basquete feminino
Atlanta Dreams, e a veneranda democrata Dianne Feinstein, também
operaram.
Feinstein, que divide com o marido uma fortuna de 50 milhões de dólares, respondeu perguntas do FBI sobre o caso.
As duas senadoras apresentaram justificativas convincentes de que não
tinha acesso a decisões sobre seus investimentos, justamente para ficar
acima de suspeitas de uso de informação privilegiada em benefício
próprio.
Para apimentar o caso, as transações foram reveladas pela Open
Secrets, uma das organizações investigativas financiadas por George
Soros.
A simples menção do nome do bilionário já faz praticamente todo o
campo da direita enlouquecer de raiva – e o da esquerda se derreter de
encantamento.
As investigações acabaram se concentrando em Richard Burr, um
ex-vendedor de cortadores de grama que se tornou especialista em
biossegurança. Ele próprio pediu uma investigação do comitê de ética –
muitos brasileiros talvez também se lembrem de episódios parecidos.
Detalhe: vendeu suas ações e não comprou outras, como é mais comum.
Ou seja, caiu fora antes do derretimento do mercado exatamente depois
de uma reunião a portas fechadas da comissão com Anthony Fauci, agora
famoso como o especialista em epidemias que aparece ao lado de Donald
Trump – quando não estão discordando.
E ainda escreveu um editorial dizendo que os Estados Unidos estavam
“mais preparados do que nunca” para enfrentar emergências sanitárias.
Acompanhar a sequência de fatos pode, teoricamente, configurar a
materialidade do crime, outra expressão que entrou no vocabulário dos
brasileiros. Fora provocar ataques de fúria insana.
“Não existe crime moral maior do que trair seu país num momento de
crise”, disse Tucker Carlson, o apresentador da Fox News que mais
encarna a direita populista, quando o caso veio à tona, no mês passado.
O cronograma das iniciativas das ações de Burr pode configurar a
materialidade do crime. O senador também pode ser exonerado e ter sua
reputação de volta.
Pelo menos para os que acreditarem que, enquanto a morte de mais de
85 mil americanos até agora estava sendo esboçada pela pandemia, não
infringiu um decreto-lei específico, o STOCK, criado justamente para
erguer uma muralha da China entre a informações que deputados e
senadores recebem no exercício do cargo, muitas vezes sigilosa, e o modo
como fazem investimentos.
Burr diz que mudou seus investimentos simplesmente com base no que
estava lendo sobre os mercados financeiros e os acontecimento na Ásia.
Obviamente, por envolver quem envolve, existe o caso em si e existe o
caso à luz da política ampliada. E não tem nada mais político do que as
eleições presidenciais de novembro.
Como no Brasil, a epidemia do novo vírus aguçou as divisões e levou o
debate a um reducionismo extremo: quem quer a retomada das atividades
econômicas, como Trump e os republicanos em geral, não se importa que
morram mais americanos por causa disso; quem quer manter as quarentenas
(feitas por estados), prefere derreter a economia para sabotar a
reeleição do presidente.
É possível imaginar uma vitória de Trump à luz sinistra da montanha
de mortos, que terá passado bem além dos 100 mil até novembro, e da
transformação da economia bombando numa catástrofe com 33 milhões de
desempregados, fora todos os já conhecidos defeitos dele, exacerbados
pela pandemia?
A resposta está nos estados onde os resultados oscilam entre
democratas e republicanos. Por enquanto, apesar das pesquisas que dão
vitória para Joe Biden, Trump está longe de ter sido varrido do mapa.
Ao contrário, uma pesquisa recente deu Trump com 47% – dois pontos a
mais que Joe Biden – em Arizona, Flórida, Michigan, Carolina do Norte,
Pensilvânia e Wisconsin.
Na Geórgia, um estado em transição para virar gangorra, está empatado
com Biden, que continua a ser prejudicado pelo confinamento no porão de
sua casa e os tropeços de linguagem.
O estado sulista virou um símbolo da disputa sobre o fim da
quarentena. O republicaníssimo governador Brian Kemp chegou a ser
acusado de fazer uma “experiência com sacrifícios humanos” ao decidir,
em abril, a retomada das atividades paralisadas.
A Geórgia sofreu mais de 1.500 mortes por Covid-19, mas a baixa continuou a ser consistente depois do fim da quarentena.
Foi Kemp quem nomeou a loiríssima e sempre grifada Kelly Loeffler
para substituir um senador que se afastou por motivo de saúde. Agora,
ela disputa a eleição direta – um terço dos senadores passará pelas
urnas juntamente com a votação para presidente.
Ter um governador matando de propósito seus constituintes e uma
senadora envolvida no pântano repugnante da utilização de informação
privilegiada na pandemia seria uma situação ideal para a oposição
democrata.
Na falta disso, o caso de Richard Burr vai render. Se a suspeita for confirmada, será amplamente usado na campanha contra Trump.
É justo. O sistema pelo qual um partido vigia o outro – e escava todas as sujeiras que puder – é chamado também de democracia.
Ajuda a manter os representantes do povo na linha ou pelo menos passarem esta impressão.
No meio da pandemia, talvez ajude também a poupá-los da fúria do povo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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