Como a pandemia expõe o fracasso das políticas sociais e de desenvolvimento no Brasil. Telma Santa Cruz para a revista Oeste:
Um dos mais talentosos letristas da música popular brasileira, Aldir
Blanc se foi dias atrás, vítima da covid-19. E deixou ecoando, entre
tantas estrofes memoráveis, o genial refrão de Querelas do Brasil: “O
Brazil não conhece o Brasil, o Brasil não conhece o Brazil…” A intenção
era provocar as elites nacionais, mais identificadas com a cultura
norte-americana do que com as próprias raízes. Mas é difícil não
detectar também no mote uma crítica ao desconhecimento dos brasileiros
do topo da pirâmide sobre a realidade dos milhões que sobrevivem na
base, ou à margem dela. Ainda mais agora que a pandemia nos colocou
frente a frente, de uma hora para outra, com a miséria que ainda castiga
o
país.
Espere aí, miséria? Mas nós não tínhamos acabado com esse flagelo? Ou
tudo não passou de uma fake news, um ato de prestidigitação do mago
Lula que conseguiu enganar quase todo o mundo? Só isso explicaria o tom
de espanto de certos noticiosos de televisão e alguns políticos diante
da dificuldade de implementar o lockdown, tão disciplinadamente
respeitado na Europa, em nossas favelas e bairros de palafitas. Como se
muitos não tivessem se dado conta de quão absurdo é exigir que as
pessoas lavem as mãos quando falta água encanada. E de quanto pode ser
problemático cobrar o social distancing de famílias amontoadas em
cortiços e barracos.
É como se a pandemia tivesse escancarado uma realidade à qual o Brasil tem preferido fechar os olhos.
Um desses problemas considerados intratáveis por aqui, como o
saneamento, por exemplo, sempre relegados à rabeira das prioridades,
enquanto as atenções são dominadas pela pequena política de Brasília e
suas brigas intestinas. Ao dar visibilidade aos invisíveis no horário
nobre da TV, contudo, a covid-19 acabou por relembrar que a pobreza
segue inabalável no país, apesar de décadas de propaladas boas intenções
de diferentes regimes e lideranças políticas, bem como sucessivos
programas sociais e de desenvolvimento.
É o que acaba de ser confirmado, aliás, por números divulgados pelo
IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a partir de
dados de sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)
Contínua. Relativos ao ano passado, eles indicam que a espantosa parcela
de metade dos brasileiros — nada menos do que 105 milhões de pessoas —
já sobrevivia antes da pandemia com uma média de R$ 438 mensais, ou
apenas cerca de R$ 15 por dia. O que sugere que o tão celebrado resgate
de mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza pelos governos petistas
não teria passado de uma bela narrativa. Ou que, se de fato ocorreu,
graças a programas sociais e ao boom de exportações de commodities, não
se sustentou a partir da recessão de 2014, que eles deixaram como
legado, já que os pobres continuam tão pobres como sempre.
Nesse sentido, a pandemia acabou por expor, também, o fracasso das
inúmeras iniciativas de programas de redistribuição de renda e
desenvolvimento implementados por seguidos governos tanto “de direita”
quanto “de esquerda”, que nunca mostraram resultados efetivos. A
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, por exemplo,
completou em dezembro passado 60 anos — embora tenha sido
temporariamente extinta e mudado de nome, entre 2001 e 2007, numa
tentativa de dissociar sua imagem de escândalos de corrupção. Mas os
moradores dos grotões do Nordeste continuam praticamente tão indigentes
hoje quanto quando foram retratados por Graciliano Ramos, há mais de
sete décadas, em 1938, em seu antológico romance Vidas Secas.
A mesma escassez de resultados se verifica em relação a outras autarquias e bancos públicos de fomento.
É o caso da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, a Sudam —
esta criada há 54 anos, no regime militar, para atrair investimentos,
por meio de incentivos fiscais, para o desenvolvimento da Região Norte e
de seus habitantes. Os quais também permanecem majoritariamente na
penúria.
É certo que de lá para cá o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu o
bastante para nos transformar na nona economia mundial. Ninguém nos
chama mais de subdesenvolvidos, agora somos uma “economia emergente”.
Mas continuamos a carregar a infâmia de uma imensa população miserável,
além da posição vergonhosa de um dos líderes mundiais em desigualdade.
Mudar o nome das favelas para comunidades não ajudou a transformá-las
em lugares adequados para viver. Assim como abrir espaço para negros
em comerciais e novelas, embora louvável, não contribuiu para mudar
substancialmente sua histórica posição de inferioridade em termos de
renda, emprego e educação.
Não adiantou, tampouco, valorizar a “estética dos excluídos” na dramaturgia, na música e na cultura pop.
Porque nossas mazelas sociais, como se sabe, são estruturais. E vêm
se mostrando resistentes a todos os remédios que lhes são
tradicionalmente prescritos. A começar por investimentos públicos
crescentes aplicados sem gestão eficaz — talvez porque não adiante
despejar dinheiro em programas de nome publicitário se parte das verbas
acaba ficando pelo caminho para sustentar a burocracia criada para
mantê-los.
A pobreza no Brasil continua impenetrável também aos esforços de uma
infinidade de organizações não governamentais, as ONGs, mastodôntica
estrutura paralela ao Estado, alimentada em grande parte com dinheiro
público. E resiste até mesmo à multiplicação de leis de proteção social e
emendas à chamada “Constituição Cidadã” — um dos traços fundadores de
nossa demagogia populista, que age como se fosse possível eliminar a
miséria à base de canetadas.
O pior é que esse drama social, não solucionado nos tempos de bonança, se tornará ainda mais desafiante após a pandemia.
A retração do PIB projetada para este ano é de 4,7%, a maior em mais
de um século. O Banco Mundial já prevê, por exemplo, que cerca de 5,4
milhões de brasileiros engrossarão as estatísticas de pobreza extrema, a
daqueles que têm de se manter vivos com menos de US$ 1,90 por dia ou R$
330,00 por mês.
Esse agravamento da pobreza e a constatação de que as abordagens
adotadas até agora não têm surtido resultado poderiam ser um estímulo
para repensar a ótica estatizante que tem prevalecido até agora nas
políticas desenvolvimentistas, tanto da “esquerda” quanto da “direita” —
seja lá o que esses termos significam no Brasil dos últimos tempos.
Parece razoável refletir sobre o conceito do Estado como o principal
indutor do desenvolvimento e agente de redistribuição de renda. A
questão é fonte de polêmica permanente entre economistas, mas no caso
brasileiro trata-se apenas de constatar fatos: o número crescente de
pobres e miseráveis vale em si como atestado do fracasso de nosso modelo
atual de Estado como promotor de desenvolvimento social.
O que temos é justamente o contrário, uma estrutura perversa de perpetuação de pobreza e desigualdades.
Em parte, em consequência de um sistema tributário injusto, que
penaliza os mais pobres, ao taxar pesadamente o consumo, ao contrário da
renda, como ocorre na maioria dos países. Mas sobretudo porque esse
Estado utiliza a quase totalidade da receita fiscal, subtraída dos
trabalhadores e do orçamento das famílias, para sustentar uma máquina
obesa e de baixa produtividade, que parece existir unicamente para
servir a si própria, já que pouco devolve à população na forma de
serviços públicos.
Pesa contra sua eficácia, ainda, a deformação do sistema
previdenciário, que captura renda da maioria para favorecer a elite do
funcionalismo, privilegiada com salários e benefícios muito acima dos
auferidos pelos trabalhadores da iniciativa privada. Arquitetou-se,
assim, no conjunto, um modelo paradoxal no qual o Estado distribui com
uma mão o que retira dos pobres com a outra. Há cálculos segundo os
quais um beneficiário médio do Bolsa Família perde pelo menos um terço
do valor recebido ao pagar os impostos embutidos no preço de alimentos,
remédios e demais produtos que consome.
A má notícia é que esse Estado cartorial e patrimonialista deverá
avançar ainda mais sobre o pescoço dos cidadãos daqui em diante.
Crises levam historicamente ao aumento da intervenção estatal na
economia. Mas enquanto nos países sérios o foco tem sido reativar a
produção e minorar os efeitos sociais da pandemia, com a contrapartida
da redução de custos do funcionalismo, aqui o movimento vai em sentido
contrário. Os políticos se recusam até mesmo a congelar despesas com
pessoal. Quando não afrontam diretamente o contribuinte que aperta o
cinto ao aumentar salários em plena pandemia, como ocorreu nesta semana
em relação aos policiais do Distrito Federal.
Tamanhos contrassensos e paradoxos tornam mais urgente do que nunca
um debate sobre o tipo de Estado que convém ao país, a partir de uma
visão menos ideológica e mais pragmática, focada em resultados. Até
porque esse que está aí, já endividado e falido, será incapaz de bancar
os investimentos necessários à retomada do crescimento ou sustentar por
muito tempo os programas de auxílio emergencial. O que vamos fazer
diante disso? Repetir as fórmulas do passado ou pensar em novos
caminhos? O Brasil no fundo do poço pode estar na hora da verdade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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