O governador paulista João Dória se vangloria de cifras matemáticas para as quais não fornece provas. Guilherme Fiuza, via Gazeta do Povo:
João Dória disse que salvou 25 mil vidas com suas medidas de
confinamento no estado de São Paulo. O noticiário está divulgando esse
tipo de coisa sem achar que precisa demonstrar nada. Quem disse isso?
Foi a ciência, responde o governador – única autoridade do planeta que
possui uma equação segura entre percentual de isolamento e mortalidade
por coronavírus. Ele diz que foi a diferença entre o que o Instituto
Butantã projetou sem quarentena e o número atual de óbitos.
Se o que o Imperial College de Londres projetou para a pandemia fosse
levado em conta, a OMS poderia declarar que já foram poupadas milhões
de vidas. Mas a diferença entre projeção e realidade não se deveu a
método de contenção algum – foi apenas um estudo feito com premissas
inadequadas, como admitiu seu próprio autor, o epidemiologista Neil
Ferguson. Quais são as premissas cientificamente seguras para qualquer
projeção envolvendo a pandemia de coronavírus?
No nível da segurança absoluta – que permita constatações com o rigor
matemático como o ostentado por João Dória – nenhuma. Pelo simples fato
de que o vírus é novo e a literatura sobre o seu comportamento não
existe – está sendo criada agora, em tempo real. O governador de Nova
York acaba de informar que os dados sobre a população infectada
registrados na rede hospitalar do estado o surpreenderam completamente.
Um total de 84% dos internados com Covid-19 estavam cumprindo as
medidas de confinamento determinadas pelo democrata Andrew Cuomo – ou
seja, estavam em casa. Esse resultado derrubou boa parte das projeções e
premissas sobre os efeitos do lockdown, e as estimativas estão tendo
que ser refeitas. Mas João Dória, ao contrário do resto do mundo, não
tem dúvidas.
Nós temos – muitas, mesmo que isso não esteja em voga (ter dúvidas)
dependendo do que se queira afirmar. A Organização Mundial da Saúde,
referência para a recomendação do lockdown, atualizou essa diretriz
algumas vezes desde o início do reconhecimento da pandemia. A principal
revisão foi relativa à constatação – frustrando em parte suas projeções –
do surgimento de frentes significativas de contágio dentro das casas. E
esse contágio não seria necessariamente provocado pelas parcelas da
população que continuaram circulando. Um grande contingente
provavelmente se confinou já infectado e assintomático.
Esse fator de incerteza, apresentado pela OMS, sobre a eficácia exata
do confinamento já introduz uma variável desconhecida que desautoriza
qualquer projeção com precisão matemática – como vimos no caso de Nova
York – sobre o avanço do contágio, em qualquer região do mundo. Menos em
São Paulo.
A OMS disse mais: em áreas socialmente vulneráveis – como o Brasil,
incluindo São Paulo – onde pessoas precisam cavar a sua sobrevivência a
cada dia, a circulação controlada (excetuando os grupos de risco e os
sintomáticos) não só é aceitável, como recomendada, naturalmente com
todas as medidas de prevenção de contágio e contra aglomerações. Você
acha que a OMS quis dizer com isso que não tem problema permitir o
avanço da epidemia nessas áreas?
Claro que não. Ela quis dizer que, embora recomende o isolamento
horizontal como a medida mais conservadora (e não salvadora, como mostra
a ocorrência do contágio em casa), a circulação social restrita e
controlada não afronta os códigos de enfrentamento da pandemia – e
estamos falando da OMS, a proponente e avalista planetária do “fique em
casa”, medida que está longe de ser consensual nos meios científicos. Ou
seja, não há um modo absolutamente seguro de proteção contra a pandemia
e não existem certezas absolutas nessa matéria. A não ser em São Paulo.
A flexibilização do lockdown para áreas socialmente vulneráveis é o
reconhecimento de que, para essas populações, o embargo às atividades
extradomiciliares provocará desnutrição, doença e morte – como
ratificado pela FAO (órgão das Nações Unidas para alimentação e
agricultura) e agora pela Unicef (idem para a infância). Essas mortes
não entraram na equação de João Dória – quando nada, pelo fato de que
essa equação não existe.
Apesar de todas as incógnitas colocadas – não por esse texto, mas
pela OMS, pela medicina, pela epidemiologia, pela infectologia, enfim,
pela ciência – tente usar o fator Dória de sobrevivência num exercício
de hipótese. Imagine que 10% da população que o governador de São Paulo
diz ter conseguido manter em casa não tivessem aderido ao confinamento.
Quantas pessoas desse grupo teriam falecido?
Você não saberá, nem o Instituto Butantã, nem o Dória, nem o
Nostradamus, porque dependerá de quantos eram do grupo de risco, de que
faixas etárias, se estiveram em aglomerações ou se circularam
responsavelmente, se tornaram-se ou não vetor de contágio assintomático
para seus familiares, se uma vez infectados desenvolveram sintomas
importantes ou não – e, caso tenham desenvolvido, se trataram
adequadamente ou não – entre muitas outras variáveis.
Matemática de loteria não salva vidas. E se disser que salva, estará zombando delas.
Você não consegue nem saber quantas pessoas foram mortas pelo
coronavírus, porque muitos morreram por outras doenças e portavam o
coronavírus – mas, por uma razão obscura qualquer, essa separação
estatística não chega a você. E se você pedir um rigor maior nas
informações que cercam a pandemia – porque você quer conhecer direito o
problema – será acusado de querer minimizar o problema. E de desprezar
vidas. É o que João Dória faz todos os dias. Ele e seus companheiros de
trancamento dogmático pelo Brasil afora.
Ou o Brasil toma coragem para refutar as bravatas devastadoras, ou
apodrecerá no cativeiro até que os parasitas se considerem satisfeitos –
isto é, nunca.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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