Como o FBI foi usado politicamente para arruinar a imagem de um militar
com relevantes serviços prestados à nação. Eis o retrato do
"progressismo" norteamericano, por Alexandre Borges, via Oeste:
Você pode nunca ter ouvido falar do general aposentado Michael Flynn,
mas o surrealismo do que aconteceu a ele desde 2016 deveria interessar a
todos, em qualquer lugar do mundo, preocupados com direitos individuais
e uso do aparato estatal para perseguição de oponentes políticos. E não
estamos falando de uma república de bananas.
Se o que está aparecendo sobre o caso Flynn aconteceu na América, é
de perguntar qual o limite hoje para as ações da burocracia estatal em
países com tradição não tão sólida de competência e impessoalidade da
polícia, Judiciário independente e limites à mão de ferro de governantes
com pouco apreço às leis. Se um dos militares mais respeitados e
condecorados do país pode ser alvo de perseguição política tão abjeta e
com resultados tão eficientes e rápidos contra ele, como o cidadão comum
pode se sentir protegido? É uma pergunta legítima.
Tudo começa quando Flynn, eleitor registrado do Partido Democrata que
serviu anos ao governo Obama, passa a colaborar para a campanha
presidencial de Donald Trump no início de 2016, chegando a ser cogitado
para a vaga de vice-presidente na chapa republicana. Flynn conquistou a
admiração de Trump ao longo do ano. Logo após a vitória, em novembro,
Trump anunciou a escolha do general para o prestigioso cargo de assessor
de segurança nacional e sua inclusão no time de transição. Naquele
momento, Flynn passou a ter, como qualquer integrante do círculo mais
próximo do presidente eleito, um alvo pintado nas costas.
Durante a campanha de 2016, iniciou-se uma estratégia infame, já
totalmente desacreditada, de associar Trump ao governo russo, o que
propiciou o começo de uma investigação politicamente motivada e
coordenada pelo primeiro escalão do FBI, em conluio com membros da
administração Obama, para fabricar provas ou evidências para validar as
acusações.
Se não há fatos, como diria Nelson Rodrigues, pior para os fatos.
Como parte do trabalho de futuro assessor de segurança nacional do
país, em dezembro de 2016 Flynn teve contatos telefônicos com o
embaixador russo na época, Sergei Kislyak. Numa das conversas,
grampeadas pelos serviços de inteligência, Flynn diz a Kislyak que o
futuro governo Trump, que começaria no mês seguinte, poderia rever as
sanções que estavam sendo impostas naquele momento por Obama, um erro
que custaria muito caro a um general com trinta anos de serviços
prestados ao país e sem nenhuma mancha no currículo.
No mês seguinte, o escritório local do FBI em Washington conclui que
não há nada de errado nas relações entre a campanha de Trump e o governo
russo e emite um documento interno em que se diz que as investigações
seriam encerradas. Então, o primeiro escalão do FBI, nos últimos dias de
Obama como presidente, entra em campo e diz que a investigação deve
continuar, a despeito da conclusão dos investigadores. Assim, é vazado
para a imprensa que Flynn havia conversado com Kislyak em dezembro e que
ele tinha sugerido que as sanções aos russos seriam revistas.
Dias depois, o diretor-geral do FBI, James Comey, envia agentes para
conversar com Flynn na Casa Branca, onde o general trabalhava como
membro do time de transição, num procedimento que o próprio Comey acabou
admitindo como completamente fora dos protocolos da instituição. Os
agentes deliberadamente induziram Flynn a acreditar que o encontro era
somente um procedimento burocrático e de rotina, motivado apenas pelo
vazamento de suas conversas com Kislyak para a imprensa — feito
provavelmente por eles mesmos para provocar o escândalo e a pressão
pública pela manutenção das investigações.
Os agentes do FBI tiveram acesso às transcrições das conversas
grampeadas e fizeram perguntas a Flynn com a intenção de que caísse em
contradição e se incriminasse, mesmo sem ter ideia de que estava sendo
investigado e, naquele momento, interrogado, como ficou provado em
documentos internos que só agora estão sendo revelados ao público. Flynn
deu respostas imprecisas e omitiu informações na conversa, caindo na
armadilha.
Empossado em janeiro de 2017, Flynn caiu depois de menos de um mês no cargo. Seu inferno estava só começando.
Em dezembro daquele mesmo ano, o general foi formalmente acusado de
mentir para o FBI e ter falado em nome do país antes de ser oficialmente
empossado como assessor de segurança nacional, com base numa lei do
século 18 raramente utilizada para fundamentar processos. Flynn é
ameaçado pelos procuradores de que será preso, assim como membros de sua
família passariam a ser alvo de investigações. Aconselhado por seus
advogados, de um escritório com ligações muito próximas a Obama,
declarou-se culpado, sendo condenado a cinco anos em liberdade
condicional.
Há um ano, todo o circo armado pelo Partido Democrata na investigação
do pastel de vento que tentava relacionar a campanha de Trump com o
governo russo, depois de consumir centenas de milhões de dólares do
contribuinte americano, terminou com a formalização de que tudo não
passou de uma armação política fabricada para desgastar Trump. Daí ficou
evidente também que toda a perseguição ao general Flynn, com a
participação do FBI e do próprio escritório de advocacia, era
politicamente motivada, e o ex-assessor de segurança nacional caminha
para a tardia mas justa e necessária reabilitação de sua imagem.
Os julgamentos de crimes de bruxaria na pequena Salem, Massachusetts,
iniciados em 1692, ficaram no ideário popular norte-americano para
sempre. Mais de 200 pessoas se sentaram no banco dos réus e 19 foram
consideradas culpadas e enforcadas. O termo “caça às bruxas”, muito
usado por Trump, parece cada vez menos exagerado agora que novos
detalhes sobre o caso Michael Flynn emergem no noticiário. A vergonhosa
atuação do FBI, a Polícia Federal americana, serve de alerta para o que
acontece quando o Executivo de qualquer país trata o aparato de
segurança do Estado como sua milícia particular.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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