MEDIÇÃO DE TERRA

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Geopolítica da inovação: quando tecnologia vira poder

 


Por Alexandre Pierro

Por muito tempo, falar em inovação era, quase automaticamente, olhar para o Ocidente. Das universidades europeias ao Vale do Silício, foram décadas em que nações como os Estados Unidos e Europa ocuparam posição central na criação de tecnologias e na definição dos rumos da economia global. Mas, essa lógica já não é a mesma. O crescimento acelerado desses ecossistemas no Oriente, sobretudo na China, levanta uma questão fundamental: quanto que a inovação deixou de ser apenas uma ferramenta de desenvolvimento econômico, para se tornar um instrumento geopolítico poderoso. 

A relação entre inovação e poder não é recente. Durante as duas guerras mundiais e, posteriormente, ao longo da Guerra Fria, os Estados Unidos consolidaram uma posição de liderança tecnológica altamente estratégica. A corrida espacial, a evolução da indústria bélica, a criação da internet e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento ajudaram a transformar sua capacidade de inovar em uma das principais bases da influência. O domínio tecnológico também passou a significar capacidade militar, autonomia estratégica e poder de influência sobre outras nações. 

Muito desse protagonismo se deveu, sobretudo, à construção de um ecossistema de inovação sustentado pela combinação entre universidades, empresas privadas, investimentos públicos e pesquisa científica. Por décadas, para muitos países, olhar para o futuro significava acompanhar os movimentos estadunidenses, de empresas do Vale do Silício e das instituições europeias que definiam boa parte dos padrões tecnológicos globais. 

Contudo, assim como nada na história permanece estático, o mesmo ocorreu nesse sentido. Muito antes da revolução industrial e da ascensão das potências ocidentais, a China já era responsável por inovações que transformaram a humanidade, como a pólvora, o papel, a bússola e a impressão. Hoje, expandiu suas inovações para além da criação de tecnologias: se inserindo em uma estratégia mais ampla de expansão econômica, fortalecimento de cadeias produtivas e aumento da influência internacional. 

Dados recentes ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2024, a China investiu mais de 3,6 trilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento, o equivalente a 2,68% de seu PIB, segundo a WIPO em 2025. Já no Global Innovation Index 2025, o país também aparece como líder mundial em produção de conhecimento e tecnologia, ocupando a segunda posição em patentes por origem - além de ter alcançado, pela primeira vez, o top 10 global de inovação. 

A própria retomada da Rota da Seda pela China evidencia esse cenário, a partir da qual ampliou sua presença em diferentes regiões do mundo com investimentos em infraestrutura, energia, logística, telecomunicações e tecnologia. O movimento cria conexões econômicas que também podem se transformar em influência política e estratégica, fazendo com que a inovação e infraestrutura deixem de ser apenas instrumentos de crescimento interno, e passem a funcionar como mecanismos de aproximação com diferentes mercados e governos. 

Esse avanço é especialmente relevante considerando seu impacto em regiões que, durante décadas, tiveram os Estados Unidos e a Europa como principais referências de desenvolvimento nesse sentido, como a América Latina e a África, onde a presença chinesa vem ganhando cada vez mais espaço. Essa expansão de empresas chinesas e de soluções desenvolvidas no país ajuda a construir uma relação que vai além da venda de produtos em si: envolvendo a criação de ecossistemas digitais, energéticos e industriais extremamente relevantes para sua expansão. 

Estamos diante de uma mudança importante na dinâmica global, em que a disputa pela liderança da inovação já não acontece apenas dentro de laboratórios ou entre empresas de tecnologia. Ela se manifesta na definição de padrões tecnológicos, no controle de cadeias produtivas, na infraestrutura digital, na transição energética e na capacidade de estabelecer parcerias com países em desenvolvimento. Nesse novo cenário, inovar também significa conquistar espaço, criar dependências, estabelecer alianças e ampliar a capacidade de influência - o que fez com que a geopolítica da inovação se tornasse uma das principais disputas do século XXI. 

Alexandre Pierro é doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.        



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Nathália Bellintani


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