Num país onde o presidente já teve três ministros da Saúde em dois meses
e exibe a cada dia sua incapacidade de governar em meio a dificuldades,
não poderia haver combinação pior. J. R. Guzzo, em sua coluna no Estadão:
Faz sentido o cidadão brasileiro ser proibido de trabalhar e, ao
mesmo tempo, continuar obrigado a pagar impostos, até o último centavo e
nem um minuto depois do prazo? É claro que não faz. Mas no Brasil de
hoje é cada vez mais perigoso ter a lógica do seu lado – não tente ter
razão, porque você será punido. Experimente, a propósito, pedir ao
prefeito Bruno Covas que não cobre a parcela de junho do IPTU,
porque há dois meses não entra um tostão no seu bolso. Só a ele? Não: a
Covas ou a qualquer outro dos 5 mil prefeitos que há por aí. Vão chamar
o guarda municipal, dizer “fique em casa” e lhe socar uma multa no
lombo.
Há nestes tempos de covid-19
uma quantidade cada vez maior de coisas que não fazem o menor nexo –
mas são consideradas perfeitamente normais pelos que mandam nas 27
repúblicas mais ou menos independentes em que o País foi dividido após a
decisão do STF de abolir a federação brasileira em nome da saúde pública.
A epidemia parece ter tornado ilegal a tarefa de pensar. O resultado é
não apenas a destruição do sistema de produção, do trabalho e da vida
social, mas da liberdade. Quem não concorda com o pensamento único está
errado em princípio. Quando as coisas ficam assim, é inevitável a
vitória do disparate.
Sinceramente: você acha possível confiar, de verdade, em figuras como
João Doria ou Wilson Witzel? A mesma pergunta poderia ser feita em
relação à maioria dos demais governadores, ou aos prefeitos, deputados e
senadores. Não é preciso fazer nenhuma pesquisa de Ibope para saber a
resposta. Mas o fato é que foi entregue aos políticos o poder de decidir
o que é essencial ou não para você. Esqueça o que está escrito na
Constituição; são eles que resolvem no momento quais são os seus
direitos e quais são suas obrigações. É 100% irracional.
Acaba de ser aprovada na Câmara dos Deputados, com mais de 250 votos,
uma lei vinda do Senado que dá ao síndico do prédio o poder de proibir
que os moradores façam festas ou recebam amigos em seus apartamentos –
ou deixem os convidados usar o estacionamento de visitas. Nem na
Alemanha de Hitler ou na Rússia de Stalin há registro de algo parecido.
Leitos são retirados de hospitais públicos e transferidos para
“hospitais de campanha” – onde passam a ser explorados por ONGs
privadas, que recebem dinheiro do erário para fazer isso. Não se pede
comprovação para qualquer coisa que é dita por um militante do
“distanciamento social” – o governador Doria, por exemplo, disse que
salvou “25 mil vidas” com as medidas que tomou. Fica por isso mesmo.
Passou a valer no Brasil a ideia de que a atividade econômica mata
pessoas. O cidadão é proibido de circular de carro, ir à academia de
ginástica ou cortar o cabelo no barbeiro, mas permite-se que ônibus e
metrôs circulem superlotados. O prefeito Covas ameaça repetidamente os
paulistanos com as proibições maciças de um lockdown (tem preguiça, até,
de pensar em português) sem fornecer a mais remota demonstração
científica de que isso sirva para alguma coisa útil. Ao contrário: em
Nova York, a cidade mais atingida pela epidemia em todo o mundo, mais de
80% das vítimas da covid-19 estavam em casa, cumprindo quarentena,
quando foram infectadas. Os políticos que passaram a dar ordens na sua
vida são os mesmos que se recusam a suspender os salários do
funcionalismo público. Não só isso: acabam de dar aumento à polícia do
DF, onde um soldado ganha a partir de agora R$ 6,5 mil por mês.
Num país onde o presidente já teve três ministros da Saúde em dois
meses e exibe a cada dia sua incapacidade de governar em meio a
dificuldades, não poderia haver combinação pior.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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