Caso se degrade a situação política e social na Rússia, Putin poderá
recorrer à experiência chinesa de combate aos seus opositores, mas o
risco de falhar é grande, pois as condições não são as mesmas. Análise
de José Milhazes para o Observador:
Ainda está longe o fim do combate contra a Covid-19, mas já se pode
afirmar que as relações internacionais irão sofrer profundas alterações e
o bipolarismo voltará a ser uma realidade.
A disputa central terá lugar entre a China, que vai aproveitar a
situação para reforçar a política internacional, e os Estados Unidos,
que tentarão manter a sua hegemonia. Em torno desses dois polos irão
girar satélites como a Rússia, no primeiro caso, e a União Europeia, no
segundo.
Já antes da pandemia se observava uma rápida aproximação entre Pequim
e Moscovo. Vladimir Putin decidiu, em 2014, “virar-se de frente para o
Oriente”, “atirando para trás das costas” a UE e os Estados Unidos.
Este processo teve várias razões. As estruturas das economias da
China e da Rússia completam-se mutuamente; Pequim aumentou
significativamente a importação de petróleo e gás da Sibéria, o que
constitui uma fonte significativa de rendimentos no orçamento da Rússia;
Moscovo depende cada vez mais de Pequim na importação de maquinaria e
tecnologia devido às sanções impostas pela União Europeia e pelos
Estados Unidos; os regimes políticos estão cada vez mais próximos e a
extensa fronteira requer garantias de segurança.
Isto reflecte-se em números: as trocas comerciais entre a Rússia e a
China subiram de 88,8 mil milhões de dólares em 2013 para 110,9 mil
milhões em 2019.
Todavia, esta aproximação poderá acelerar-se ainda mais após a
pandemia. As medidas de combate à Covid-19, a redução das exportações de
petróleo devido ao acordo OPEP+ e a diminuição da procura de gás pela
Europa, devido à recessão económica aí registada, poderão reflectir-se
de forma negativa na economia russa.
Por outro lado, a economia chinesa é a menos afectada pela pandemia e
a sua recuperação, baseando-se, nomeadamente na construção de novas
infraestruturas e no desenvolvimento das suas atrasadas regiões
ocidentais, irá aumentar as importações de petróleo e gás russos.
Tendo em consideração a diferença dos ritmos de desenvolvimento
económico dos dois países, bem como o papel crescente da China nas
relações internacionais, é impossível falar de uma cooperação bilateral
igual.
Além do mais, Moscovo e Pequim concorrem numa zona importante do
ponto de vista da segurança internacional: a Ásia Central. Se a Rússia
vê nas antigas repúblicas soviéticas dessa região uma zona da sua
influência, o Império do Meio desde há muito que lançou uma ofensiva
económica aí, concorrendo cada vez mais nessa região fulcral para a
segurança desses dois países.
Nesta situação, a Rússia deixa de ser um dos polos da política
internacional, não recuperando, nem de longe, a influência da URSS. A
crise económica e social que se irá fazer sentir no país não permitirão
ao Presidente Vladimir realizar à diplomacia musculada e agressiva,
relevante principalmente após a ocupação da Crimeia e da intervenção
militar na Síria. O Kremlin também não terá fartos meios económicos e
financeiros para continuar a sua ofensiva em África e na América Latina.
Mais: a crise económica e financeira coloca mesmo em causa os planos
de Vladimir Putin no interior do país. Ele planeava fazer de 2020 o ano
do seu triunfo com a realização da “votação nacional” com vista a
eternizar-se no poder para além de 2024 ou com as comemorações do 75º
aniversário da vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo. Porém, a
pandemia do Covid-19 veio “baralhar as cartas”. As autoridades russas
não conseguiram provar que o Estado autocrático criado por Putin é mais
eficaz na protecção à doença do que os regimes democráticos da Europa,
revelando uma enorme falta de coordenação entre os poderes central e
regional. O Presidente decidiu chamar a si a distribuição de subsídios,
atirando para cima do governo e das autoridades regionais a superação
dos obstáculos criados pela Covid-19.
Em caso de deterioração da situação política e social na Rússia,
Vladimir Putin poderá recorrer à experiência chinesa de combate aos seus
opositores, mas o risco de falhar é grande, pois as condições na Rússia
são muito diferentes das existentes na China.
O Kremlin não pode apostar no melhoramento das relações com os
Estados Unidos, pelo menos até às presidenciais norte-americanas de
Novembro de 2020. A reeleição de Donald Trump não abre grandes
perspectivas aos contactos bilaterais e, se o escrutínio for vencido por
Joe Biden, elas serão ainda muito mais reduzidas. Tradicionalmente, os
russos sempre lidaram melhor com os republicanos do que com os
democratas.
Além da Rússia, há outro importante protagonista das relações
internacionais que irá sair enfraquecido pela pandemia: a União
Europeia. Por isso, seria sensata a aproximação entre Moscovo e Bruxelas
com vista a conservar e reforçar o papel de ambas no equilíbrio
mundial. Todavia, é difícil acreditar que tal possa acontecer a curto ou
até mesmo a médio prazo. Isso exigirá, entre outras coisas, o termo da
agressão russa no Leste da Ucrânia e o fim da aposta do Kremlin na
destruição da União Europeia. Será também fundamental que a UE garanta a
sua própria sobrevivência e consiga elaborar uma política externa
conjunta.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário