O editor de livros
Carlos Andreazza faz boas ponderações, em texto publicado no Globo,
sobre a programada manifestação do próximo dia 26 de março, a pretexto
de que "todos os políticos são iguais". A quem interessa esse tipo de
argumentação? Ora, ao tiranete Lula e a outros oportunistas, como Marina
Silva e Ciro Gomes. O bandido urbano Boulos já se assanha:
Antes que o leitor se
jogue à rua “contra tudo isso que está aí”, proponho que reflita e
avalie sobre ao que — e a quem — serve uma mobilização que tenha como
gatilho a sentença falaciosa de que “políticos são todos iguais”.
No artigo “Supremo
legislador”, de dezembro de 2016, tratei de uma das consequências
perigosas do desprezo pela classe política, “aquela que, à guisa de
combater o geddelismo no trato da coisa pública, acabava por
desqualificar também o valor da política — exercício sem o qual restará o
arbítrio”. Disto decorreu a ascensão desequilibrada do Judiciário,
representado pelo Supremo Tribunal Federal, a poder preponderante,
protagonista de acentuada inclinação governante, não apenas porque dono
da última palavra na República, mas porque detentor da última palavra em
tempos de vocação criativa, extravagante, personalista, guloso já
avançado sobre as atribuições do Parlamento, agora também assanhado por
impor despesas ao Executivo.
Essa era uma das
consequências. Há muitas mais. É espantoso, para abordar outra, que não
se possa fazer hoje sequer uma ressalva aos excelentes trabalhos da
Justiça Federal de Curitiba, simbolizada pelo juiz Moro, e do Ministério
Público do Paraná, que tem rosto nos procuradores que compõem a
força-tarefa da Lava Jato, sem que o crítico seja atacado como defensor
da impunidade de tipos como Eduardo Cunha.
Por quê?
Brecha para o
messianismo, fresta para o autoritarismo, atalho para aventureiros como
Marina Silva ou Ciro Gomes, veio pelo qual há quem se sinta à vontade
para pedir intervenção militar — picada que já resultou, aliás, em
Congresso invadido —, é do ódio da política que emana a intocabilidade
desses juízes e procuradores, convertidos em heróis, em salvadores da
pátria, e desejados como justiceiros, aos quais, portanto, dá-se licença
para qualquer excesso. Eles podem, já ouvi, porque prenderão Lula.
Lula... Lula, no
entanto, está solto. E é o maior beneficiário de outra consequência —
talvez a menos exibida — da criminalização da atividade política. Num
cenário de terra arrasada, em que os partidos são comparados ao PCC, em
que ninguém presta, e todos são bandidos, neste campo desqualificado, só
quem se pode fortalecer é o pior entre os piores. Concordo com a
síntese de Reinaldo Azevedo: se todos os políticos são iguais, Lula é o
melhor.
Por quê?
O encadeamento dos
fatos e aquilo em que desaguam — que tanto mobilizam os analistas — não
são matéria à percepção do senso comum, de modo que o povo, aquele que
elege o presidente, não atribui ao governo Lula o fundamento para a
sucessão de irresponsabilidades na gestão da economia. Tampouco, pois,
faz pesar sobre ele a severa recessão em que a política econômica
petista cuspiu o Brasil. Isso só serve para coxinha desmontar petralha
em rede social. Para o brasileiro médio, a culpa da tragédia é de Dilma
Rousseff, que não teria sabido dar sequência à obra do antecessor. Para o
brasileiro médio, Lula é associado a um tempo de prosperidade — dane-se
que artificial e ora muito custoso — que os que vieram depois não
conseguiram sustentar.
Se são todos os
políticos pilantras, Lula — de palestras há tanto expostas — ao menos
não é surpresa. Se estão todos no mesmo saco, melhor será ficar com
aquele conhecido, em cujo governo havia dinheiro para o consumo. O
endividamento é obra de Dilma. E ela já foi devidamente punida. Ponto.
Superada a
insustentável narrativa do golpe, a que melhor se enreda agora — a mais
influente — pode ser resumida em uma pergunta: fizeram o impeachment
para que desse nisso? Ou: se o PT abarcava todos os males, por que a
desgraça continua? O leitor note como patriotas do naipe de Guilherme
Boulos já desdobram essa questão.
Convém olhar para a
História do Brasil. Neste país, os poucos eventos que se assemelharam a
uma ruptura política, mesmo aquele decorrente do golpe republicano de
1889, nunca desaguaram em nova ordem, mas em baías de recomposição do
sistema, de reacomodação da elite, de sobrevivência de coronéis como
Lula. Se a Lava-Jato encarna algo novo e relevante, e não tenho dúvida
de que encarne, dúvida tampouco tenho de que as forças políticas
hegemônicas — as que governam também a cultura e a informação —
paralelamente já costuram a rede em cujas tramas permanecerão; teia para
a qual não serão poucos os fios cedidos por manifestações prolixas como
a convocada para 26 de março.
Engana-se (ou quer
enganar) quem diz que o PMDB — sócio menor neste arranjo — seja o
controlador do tear. É o PT — entranhado na máquina do Estado, senhor de
universidades e redações — a força política e culturalmente dominadora,
aquela que opera por permanecer e cujo regresso à Presidência as sempre
boas intenções dos protestos difusos podem acelerar.
Ou não entendi coisa alguma, e a galera irá às ruas para fechar o Congresso, decapitar Brasília e instaurar um novo regime?
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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