MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Bolsonaro compartilhou convocação de ato para 15 de março. E daí?


Coluna de quinta-feira de Alexandre Garcia publicada pela Gazeta do Povo:
Há uma celeuma muito grande criada porque o presidente Bolsonaro mandou para poucos amigos um retuíte de uma convocação para as manifestações a favor dele no dia 15 de março.
Eu nunca falei dessa manifestação aqui, nem falaria senão houvesse essa polêmica porque eu sou de uma geração de que jornalismo não deve noticiar manifestações programadas porque estará fazendo propaganda.
Os jornalistas da minha época noticiam manifestação depois que ela se realizou. Informam se ela foi um fracasso ou não, as reivindicações e o que aconteceu. Mas terei que falar dela porque foi criada uma polêmica.
Eu recebi esse retuíte. No post não é mencionado o Congresso Nacional, nem os presidentes da Câmara e do Senado. Eu não sei porque todo esse burburinho em torno disso.
A manifestação não é ilegal, não foi proibida e está previsto na linha 16 do art. V – que é uma cláusula pétrea, da Constituição. “Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização (...)”.
As pessoas se desacostumaram com o contato com os políticos em geral. O normal é o sujeito ser eleito e depois sumir. Só reaparecer novamente no período das eleições. Agora é diferente.
Desde 2013, o povo está acostumado a ir para a rua fora do período eleitoral. Vai para a rua para contestar, criticar, fiscalizar e para apoiar. Há sete anos tem sido assim. Tudo começou em São Paulo.
Eu lembro do povo na rua para mostrar a sua força na época das Diretas Já. Mas hoje existe a rede social, que é mais fácil para fazer uma convocação ao público. Esse é um novo Brasil.
A democracia é exercida com mais proximidade por parte do povo, que é o dono da democracia. A democracia é feita em nome do povo, pelo povo e para o povo. O presidente da República, deputados e senadores, os mandatários, têm mandantes: o povo.
Ninguém está livre da crítica e por isso vai haver uma manifestação, mesmo que essa seja a favor do governo atual. O objetivo da manifestação do dia 15 é que o presidente tenha os meios para governar.
Isso acontece por culpa da atual Constituição. A nossa Constituição dá a responsabilidade de governar para o presidente, mas não dá os poderes, que ficam com o Congresso, que não tem essa responsabilidade.

Eu me pergunto se esse barulho que está sendo feito vem aqui do Brasil. Há muito barulho por nada, como dizia Shakespeare. Agora, os que fazem barulho estão ao mesmo tempo fazendo propaganda da manifestação do dia 15 de março.
Clima quente, afinal, serve para alguma coisa

Tem pessoas achando que o primeiro caso confirmado de coronavírus pode cancelar a manifestação prevista. Há um temor a essa manifestação e eu não entendo o por quê. Talvez essas pessoas tenham um pensamento totalitário e não conseguem suportar que haja manifestações populares.
Esse pensamento é o mesmo que veio de longe, o do pensamento único, o que prega o politicamente correto, que embute uma polícia do pensamento – até o pensamento é policiado.
Para quem está com medo da doença, eu darei uma informação científica. O vírus perde força em países tropicais. O clima quente tem que ter algo de positivo. O contágio é mais perigoso e rápido no frio. O brasileiro com coronavírus estava em uma região fria da itália, por exemplo.
Vamos torcer para que esse homem com a doença não tenha saído para o carnaval. Ele tem 61 anos e está hospitalizado. Já os brasileiros que vieram da China e ficaram em quarentena não estavam com a doença.
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Samba de cartilha


O melhor disso foi a cartilha editada por um conselho da prefeitura de Belo Horizonte com orientações sobre o que os foliões deveriam evitar: fantasias de índio, enfermeira sexy, a marchinha clássica de Lamartine Babo etc. Artigo de Fernando Schüler, publicado pela Gazeta:

O Cacique de Ramos teve de se explicar. O bloco desfila com fantasias de índio desde 1960, mas agora a coisa complicou. “Os pioneiros do bloco tinham nomes indígenas e eram ligados à umbanda.” Não entendi a relação com a umbanda. Possivelmente era um salvo-conduto. Alessandra Negrini também não escapou. Teve de se explicar e se saiu bastante bem. “A luta indígena é de todos nós, por isso tive a ousadia de me vestir assim.” Bingo. Em vez de pedir desculpas, um pouco de retórica política. Contra-ataque perfeito.
Curiosa essa invasão da retórica política sobre a indisciplina e a irreverência que sempre marcou (ao menos é isso que imaginávamos) nosso carnaval. Não se trata da sátira política (sempre bem-vinda, aliás), mas o seu contrário: o disciplinamento da sátira pela correção política.
O melhor disso foi a cartilha editada por um conselho da prefeitura de Belo Horizonte com orientações sobre o que os foliões deveriam evitar. Fantasias de índio, enfermeira sexy, a marchinha clássica de Lamartine Babo, touca com tranças, homem vestido de mulher. Esse último item com um requinte: nem de “noiva”.
Talvez tenha sido nosso primeiro carnaval de cartilha, mas presumo que seja o primeiro de muitos.
Nessas coisas todas, o que me surpreende é o excesso de convicção. A certeza de que alguém tem o direito de mandar na vida dos outros. Antônio Risério chamou isso de “fascismo identitário” em seu livro recente. Fascismo, aqui, é o culto do dogma, a negação do diálogo, a sede de controle. Se o termo é adequado cada um pode julgar.
Vai aí uma marca do nosso tempo: a hiperpolitização do cotidiano. Jonathan Haidt trata do tema em seu The Coddling of the American Mind. A vigilância coletiva nos câmpi universitários, os safe spaces, a supressão da divergência e proteção a qualquer coisa que caiba sob o rótulo de ofensivo.

Parece evidente que as redes sociais têm muito a ver com isso. A conexão digital fez com que, subitamente, passássemos a viver juntos. Da multiplicidade que marca as grandes sociedades abertas, passamos a funcionar como uma comunidade. Comunidade de bisbilhoteiros e “reguladores da vida dos outros”, como escutei de um amigo professor tempos atrás.
Sobre a atual histeria identitária, Risério toca na questão central: como é possível que movimentos que iniciaram “como luta pelo reconhecimento do outro tenham terminado como uma luta que rejeita o outro, a diferença, a outridade”? Não vejo resposta simples a essa pergunta. Mas ela deve ser feita. De um movimento múltiplo e generoso, afirmativo de direitos, migramos a uma guerra mesquinha pelo disciplinamento do humor, pela correção da literatura, supressão de marchinhas, regulação de fantasias e festas populares.
Talvez tudo tenha saído um pouco de controle quando as guerras culturais invadiram o mundo da política e qualquer alegação de fragilidade tenha se tornado um caminho fácil para a virtude. Tudo feito à moda banal da radicalização e do exagero que marca a democracia atual.

Há muitos riscos aí. Um deles é a descredibilização dos temas de fato pertinentes à exclusão e o preconceito. Submeter a luta antirracista ao julgamento seletivo e à politização barata é perder de vista a seriedade dos temas que ela de fato envolve no dia a dia.
Há um elemento político: só quem tem ganhado, com a histeria identitária, é um certo direitismo conservador que declara guerra ao politicamente correto e passa a ser visto, por irônico que pareça, como libertador. Há muitos bons trabalhos de sociologia mostrando isso, infelizmente não aqui pelos trópicos.
No mais, arriscamos terminar convertendo o país da transgressão e da antropofagia em uma nação puritana. Depois do ódio político, a chatice cultural. Acabaríamos cantando hinos gospel no carnaval. Nesse dia bateria uma saudade, não tenho dúvidas, de algumas velhas marchinhas que deixamos para trás.
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Guzzo: "Assassinatos em massa no Ceará são herança maldita do PT".


Tentaram responsabilizar até Bolsonaro, mas nem um pingo da culpa foi colocado até agora nos que têm obrigação de governar o estado, que continua sob a bandeira do PT. J. R. Guzzo, via Metrópoles:

Houve 150 homicídios no Ceará nos sete dias que se seguiram ao início da greve das polícias militar e civil do Estado – alvo do célebre ataque comandado contra um quartel pelo senador Cid Gomes, na direção de uma motoniveladora.
Os detalhes do caso permanecem obscuros.
Mas deixando um pouco de lado os estados de espírito de Gomes – largamente absolvido por seus companheiros de política e pelos meios de comunicação em geral, por se tratar de um homem de temperamento naturalmente “esquentado” –, fica o problema da população, que paga os salários da polícia e do senador, nas ocasiões em que ele exerce o seu mandato.


Se isso não é uma típica “herança maldita” que o atual governo do Ceará recebeu do governo anterior, o que seria, então?

Do PT para o PT

O problema é que o governo de hoje é o mesmo de ontem – o PT sucedeu ao PT. Os resultados, como se vê, são esses: policiais em motim, bandidos no comando das ruas, cidadãos mortos, roubados e violados em todos os seus direitos.
Nem um pingo da culpa, porém, foi colocado até agora nos que têm a obrigação de governar o Ceará. Já se culpou até o presidente da República – que teria incentivado a greve por causa do apoio que vive dando aos policiais de todo o Brasil.

Nos momentos de maior delírio, chegou-se a dizer que ele, Jair Bolsonaro, deveria sofrer nada menos que um processo de impeachment pelo caso da motoniveladora.

Tudo bem. Só que assim a anarquia que reina no estado não será resolvida nunca.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
 
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O lado bom do pânico envolvendo o coronavírus


Outro lado interessante do pânico em torno do coronavírus é que ele tem o potencial de fazer com que reconheçamos nossas limitações enquanto espécie e sociedade, escreve Paulo Polzonoff Jr. em artigo publicado pelo Gazeta:

Alguns podem considerar estranho alguém falar em “lado bom” de uma pandemia e do pânico que a acompanha. O autor de um texto que sugira isso está sujeito a ser chamado de otimista irracional ou, pior ainda, pode ser acusado de querer tirar proveito filosófico, por assim dizer, de uma verdadeira tragédia para a saúde mundial.
Trata-se, contudo, de uma consequência lógica. O coronavírus já serviu como matéria-prima de reflexão sobre o poder totalitário da China comunista, que em janeiro pôs milhões de pessoas em quarentena, transformando megalópoles em cidades-fantasmas. Depois, serviu para pensarmos esse curioso e deplorável “fetiche da peste” que nos acomete de tempos em tempos, dando origem a um abjeto desejo de purificação da Humanidade.
Agora que a doença se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil, disseminando consigo o pânico que já afetou desde o mercado de commodities até a bolsa de valores e obrigou o ministro da Saúde a se pronunciar, nada mais natural, portanto, do que tentar tirar deste cenário de caos (que deve se intensificar à medida que o inverno se aproxima) algo de bom.
Porque é muito provável que daqui a alguns meses quase todos nós escaparemos ilesos do que hoje parece um bicho-papão onipotente. E, do outro lado deste caos, caberá a nós, os muitos sobreviventes, encontrarmos alguma espécie de sentido e ordem.
Do pó ao pó

O lado bom do pânico em torno do coronavírus, portanto, é que ele nos obriga a pensarmos em nossa mortalidade. E aqui, sem me alongar demais, já aponto o grande paradoxo que é a necessidade de pensar em algo que está estampado todos os dias nos jornais, na TV, nas redes sociais e, de uma forma tão explícita que até anestesia, no cinema.
A morte, ainda que onipresente, nos é cada vez mais estranha. Porque, ao mesmo tempo em que estamos acostumados a um cotidiano de crimes, também nos sentimos à vontade com todo um noticiário científico que fala em velhices saudáveis, mortes cada vez mais tardias e até em delírios de imortalidade.
Somos levados a crer que a morte existe só para o outro – e um outro distante física e socialmente. Até outro dia, a morte por causa do coronavírus era algo que pertencia ao exótico mundo oriental, onde pessoas se alimentam de animais silvestres e trabalham por uma ninharia em fábricas abarrotadas de gente. A mesma coisa acontece depois de acidentes de avião e catástrofes naturais distantes. A morte, tornada notícia, pode até gerar indignação, como no caso do rompimento da barragem de Brumadinho, mas ela é essencialmente antisséptica: mais um conceito do que uma realidade dolorosa e íntima.
A ameaça de uma pandemia, mesmo que as estatísticas demonstrem não se tratar de um vírus especialmente letal, nos coloca diante do espelho e nos faz evocar Sêneca, para quem viver só tinha sentido como uma preparação para a morte. O sábio romano também dizia que viver longamente era fácil. Difícil era morrer como uma pessoa honrada.

Vida digna

O que nos leva a outra questão suscitada pelo coronavírus e as mensagens desesperadas das pessoas no Whatsapp: estamos vivendo uma vida digna? Ou nossa existência só se resume a trabalho, prazer e batalhas travadas nas redes sociais? Mais do que isso, somos seres reais ou já nos deixamos tomar por personagens? Como nossos entes queridos e principalmente nossos inimigos se lembrarão de nós?
São perguntas ancestrais que parecem fora de moda. Ri-se de qualquer busca por algum tipo de transcendência. Mesmo muitos dos que se dizem religiosos vivem numa sociedade essencialmente ateia, para a qual só tem valor aquilo que pode ser observado – categoria que não inclui, obviamente, a realidade além-túmulo.
Nem sempre foi assim. De uma forma que hoje se convencionou chamar de macabra, o homem sempre teve uma relação muito próxima com a própria morte. Estão aí os poetas e filósofos que não me deixam mentir. Mas não só eles. Cientistas, líderes políticos, anônimos esquecidos pelo tempo, todos eles foram levados pela morte, isto é, pela inabalável certeza da finitude, a deixar uma marca positiva no mundo.
Tempos de modéstia

Outro lado interessante do pânico em torno do coronavírus é que ele tem o potencial de fazer com que reconheçamos nossas limitações enquanto espécie e sociedade. Não é pouca coisa, levando em conta que chegamos a um ponto de abundância tal que não raro cedemos à tentação de nos considerarmos onipotentes.
Essa sensação de onipotência se manifesta de várias formas. Política e economicamente, por exemplo, e apesar dos muitos exemplos em contrário, ainda nos consideramos capazes de organizar cientificamente a sociedade e de planejar economias a fim de alcançar uma versão muito particular de Perfeição.
Espiritualmente, buscamos em máquinas capazes de realizar bilhões de cálculos por segundo (invenção do engenho humano) as respostas para nossas origens.
E, no que diz respeito à saúde, essa sensação de onipotência é a mesma a garantir que somos praticamente invencíveis porque dominamos o sequenciamento genético e, com isso, em breve seremos capazes de ultrapassar quaisquer limites éticos (que muitos consideram uma superstição criada por filósofos primitivos) para gerar super-humanos.
Quando, na verdade, a ciência ainda está longe de alcançar feitos aparentemente simples, como definir se um vírus é ou não um ser vivo, e de nos proteger desse “pedacinho de má notícia envolta em proteína”, como bem definiu o escritor Bill Bryson.
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A desgraça política não parte dos organizadores do 15 de março


Os maiores responsáveis diretos pelo que está acontecendo, para não dizer os únicos, são os membros do próprio parlamento, escreve J. R. Guzzo:

Todo mundo pode fazer um pacto de silêncio absoluto e não dizer uma sílaba a respeito, em nome da necessidade evidente de manter aberto o Congresso Nacional, mas não adianta nada, absolutamente nada, fazer de conta que a responsabilidade pela desgraça política de deputados e senadores brasileiros pertence aos organizadores dos protestos previstos para o dia 15 de março.
Sim, são eles que armam na prática a manifestação. Mas os maiores responsáveis diretos pelo que está acontecendo, para não dizer os únicos, são os membros do próprio parlamento. Não haveria ninguém na rua protestando contra os deputados e senadores, no dia 15 ou em qualquer outro dia, se a maioria deles não tivesse a conduta que tem no exercício das suas funções. Agem como criminosos. Com muita justiça, são vistos exatamente assim pelo povo do Brasil.
Não podem os parlamentares, depois de tudo o que têm feito na cara do público nos últimos anos, esperar agora um mínimo de solidariedade ou de simpatia por parte da imensa maioria da população brasileira. É uma tristeza, mas é perfeitamente inútil esconder que é assim.
Não dá, na prática, para defender o Congresso como instituição – e como elemento essencial para a democracia – e ao mesmo tempo aceitar a atuação delinquente que os congressistas de carne de osso mostram todos os dias. São eles próprios, e ninguém mais, que estão destruindo por dentro o respeito pelo poder legislativo.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
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Guzzo: "Povo vai às ruas protestar contra os parlamentares. E a culpa é toda deles".


O Congresso Nacional tornou-se odioso para grande parte da população única e exclusivamente pelos atos dos seus membros. A indignação não é contra o fato de existir um Congresso no Brasil. É contra aquilo que os congressistas fazem. Só isso. Coluna de J. R. Guzzo para a Gazeta do Povo:

É muito ruim que uma parte da população brasileira encontre razões para sair de casa no dia 15 de março e ir à praça pública manifestar sua hostilidade, desrespeito e desprezo pelo Congresso Nacional. O Congresso é uma peça essencial da democracia – não pode ser considerado um inimigo do povo em nenhuma sociedade que pretenda ter uma vida democrática.

Tão ruim quanto isso são as tentativas, por parte dos que se apresentam como os marechais-de-campo do Estado de Direito, de negar o direito moral dos manifestantes a fazer o seu protesto, ou de acusar de serem inimigos da democracia os brasileiros dispostos a se manifestar no dia 15. Pior que as duas coisas, porém, parecem ser as demonstrações explícitas de cegueira quanto à questão básica disso tudo: de quem é a culpa pelo que está acontecendo?

Os grupos de direita que organizam as manifestações são, certamente, peças fundamentais na criação dessa fervura. As forças que gostariam de eliminar a democracia no Brasil também existem; estão ativas na ofensiva contra os políticos, simbolizados como um todo pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Há nas redes sociais propaganda explícita e agressiva pregando a abolição do Estado de Direito. Também parece haver, dentro do governo, grupos determinados a agir em favor de um regime de força. O presidente e seus filhos atiçam abertamente a fogueira. Tudo isso é verdade.
Mas não estão aí os verdadeiros responsáveis pelo clima criado contra parlamentares e Parlamento. Por mais que façam, nenhum deles conseguiria colocar multidões na rua se essas multidões, por conta absolutamente própria, não estivessem detestando, do fundo da alma, a maioria dos ocupantes de cadeiras no Congresso.
Resumo, em português claro: os responsáveis diretos pela ida do povo às ruas no dia 15 de março são os próprios deputados e senadores, e ninguém mais. Dizer o contrário é mentira. Não mencionar a culpa direta dos parlamentares pelo que está acontecendo pode ajudar a compor belas construções de pensamento, sobretudo quando acabam por jogar a culpa de tudo no presidente da República – mas é apenas mentira.

O Congresso Nacional tornou-se odioso para grande parte da população única e exclusivamente pelos atos dos seus membros. A indignação não é contra o fato de existir um Congresso no Brasil. É contra aquilo que os congressistas fazem. Só isso.
Foram os organizadores do protesto do dia 15, por acaso, que aprovaram o infame “fundo partidário” – assalto à mão desarmada, sem disfarce, ao bolso do contribuinte, para entregar aos políticos dinheiro público que podem usar mais ou menos como querem? Foi a direita, ou os acusados de serem “golpistas”, que aprovaram o “fundo eleitoral”, tão safado quanto o outro ? Quem aprovou a doação de verbas do orçamento aos parlamentares? Quem foi que proibiu a abolição do “seguro obrigatório” para veículos, que o governo tinha decidido? Quem impede o direito da população a ter um acesso mínimo a armas de fogo? Quem protelou a aprovação do pacote anticrime do ministro Sergio Moro? Quem vota o tempo todo a favor dos direitos dos criminosos?
São os deputados e senadores que fazem cada uma dessas coisas, todas elas intoleráveis para a maioria da população. E quando a população quer expressar em público a sua revolta contra o que os congressistas estão fazendo é ela, a população, que acaba acusada de “atacar as instituições”? É o que diz grande parte da mídia, a esquerda em geral e o Brasil moderado do “centro” e do “equilíbrio”. Fica muito difícil convencer a maioria dos cidadãos comuns de que isso possa fazer algum sentido.

É positivamente absurda, enfim, a pretensão cívica de impedir que as manifestações sejam realizadas. Trata-se de um direito elementar de qualquer democracia – no caso do Brasil, esse direito é garantido expressamente pelo inciso XVI do artigo 5º da Constituição, onde se diz que todo o cidadão é livre para se manifestar em público, pacificamente, sem ter de pedir autorização a ninguém. Não se diz, ali, que é proibido fazer manifestações contra o Congresso, e muito menos contra os congressistas.
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Vídeo só conclama o povo a apoiar Bolsonaro no dia 15. Nada mais que isso.


Coluna de Alexandre Garcia, publicada pela Gazeta:

Continua a celeuma em torno de uma suposta ameaça de Bolsonaro sobre o Congresso que estaria em um vídeo que teria sido enviado para alguns amigos dele. Só quem viu o vídeo – e eu vi – sabe que não tem nenhuma ameaça ao Congresso.
Não se fala em Congresso e sim em apoiar o presidente. Por isso, ele mandou para os amigos. Os eleitores de Bolsonaro estão convocados para uma manifestação para apoiá-lo.
Fazer manifestação é bom para a democracia, para que o eleitor não fique só ligado à urna e apareça somente na época das eleições, de dois em dois anos. É muito bom que o eleitor acompanhe, fiscalize, cobre e apoie o seu eleito, seja ele presidente da República, prefeito, governador, deputado federal ou estadual, senador, vereador. Isso faz parte da democracia.

Tem gente fingindo que o conteúdo é outro e ficam repetindo. Como o ministro de Hitler, Goebbels, recomendou: “repita uma mentira mil vezes que ela vira verdade”. Ou tentar induzir as pessoas, como eu acho que aconteceu, sem ter visto o vídeo.
No enunciado da pergunta dizia que o presidente Bolsonaro está ameaçando o Congresso. Diante dessa informação, as pessoas respondiam que isso é um absurdo. Só que esses não viram. Essa indução foi ensinado por Vladimir Lenin na Revolução Russa.
A manifestação do dia 15 de março é pacífica, portanto, não é nenhuma ameaça à democracia, ao contrário. Ameaça à democracia é tentar evitar manifestações pacíficas.
Do outro lado, o comitê Lula Livre está convocando manifestações que serão encabeçadas por Fernando Haddad. Elas vão começar em Porto Alegre no dia 5 de abril, no dia seguinte em Florianópolis e outra no dia 7 de abril, quando se completam dois anos do dia em que Lula foi preso.
Nada contra essa manifestação, isso é democracia. As pessoas acham que Lula foi preso injustamente e por isso vão se manifestar. Fala-se tanto em diversidade, mas não querem aplicar esse conceito em ideias.
As pessoas querem que haja uma ideia única, aquela da polícia do pensamento que é o politicamente correto e de outras ideias malucas que tentam impor. A pluralidade de ideias faz parte da dialética.
Bolsa e dólar

A Bolsa de Valores fechou em queda por causa da excitação em torno do coronavírus. Como disse Warren Buffett, as oscilações da Bolsa fazem uma transferência de recursos do investidor apressado para o investidor paciente.
Quem espera acaba ganhando com as oscilações. A hora que a Bolsa cai o paciente compra e fica esperando o valor subir. Já o impaciente vende as ações por um preço menor e sai perdendo. As ações brasileiras têm um grande futuro.
A mesma coisa acontece com o dólar. Se analisar bem, tem gente feliz da vida porque recebe em dólar e tem as pessoas que estão tristes porque precisam pagar em dólar durante as viagens.

A partir do próximo domingo, as compras feitas no exterior com cartão os valores cobrados serão do câmbio do dia e não o valor do câmbio na hora em que a administradora do cartão for fechar a conta.
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Guzzo: "Ameça do coronavírus deixa futuro do Brasil a cargo da esperança".


A estrutura de produção, a vida econômica e as relações sociais dependem do que acontecerá ou não com algo que sequer existia 3 meses atrás. J. R. Guzzo, coluna no portal Metrópoles:

É sempre muito perigoso deixar o futuro a cargo da esperança, mas aí é que está: estamos numa situação onde não parece existir muito mais do que isso para contar. A questão é o coronavírus, que vem crescendo desde o mês de dezembro. Surgiu na China, saltou para fora das suas fronteiras, chegou a países desenvolvidos e, agora, inevitavelmente, está batendo às portas do Brasil.
Na melhor das condições, a saúde pública brasileira é uma lástima. Em condições como as de agora, tudo fica apenas mais complicado.

Éramos piores – mas o mundo era menos arriscado.
O fato é que, apesar de todos os progressos obtidos nas últimas décadas, estamos hoje altamente vulneráveis a tudo – sobretudo em situações nas quais o mal tem o grau extremo de malignidade, que é a marca do coronavírus, chinês na origem e agora internacional.

Calamidade
Toda a agenda política do Brasil – as “pautas-bomba” do Congresso, as brigas entre os poderes, as reformas, a radicalização da política e tudo o mais que você possa imaginar – pode estar indo para o espaço, pura e simplesmente, se o coronavírus se transformar, aqui, na calamidade que ameaça ser.

Toda a estrutura de produção, a vida econômica e as relações sociais estão na dependência do que vai ou não vai acontecer com algo que sequer existia três meses atrás. É complicado.

Os atores principais da nossa vida pública, ou os que se imaginam assim, bem que poderiam ter uns momentos de humildade diante de uma realidade em relação à qual não dispõem da mais remota possibilidade de controlar.

Mas acham que estão além e acima de tudo isso. Esperemos.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
 
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Democratas a caminho do centro


A persistência de Biden e a ascensão de Bloomberg mostram que os eleitores democratas querem contra Donald Trump um candidato bom de voto e de capacidade de agregação - o que falta a "Crazy" Bernie. Vilma Gryzinski, na edição impressa de Veja:

Você é a favor do aborto? E da posse de armas? Se a resposta for “em determinadas circunstâncias”, no primeiro caso, ou “dentro de parâmetros responsáveis”, no segundo, você é de centro. E, meu amigo, você está ferrado. Seja nos almoços familiares, seja entre os nomes mais cintilantes da política, ninguém quer saber de você. “Em cima do muro” é o mínimo que vai ouvir, para não mencionar o “isentão”, que é engraçado, mas pode ser usado como uma arma de silenciamento em massa.

O centro político — atenção, não confundir com Centrão, ou “A Bolha”, invenção brasileira geneticamente modificada para se especializar em tenebrosas transações — é o espaço onde a maioria da humanidade, dada a opção, transita. A economia de mercado já mais do que comprovou que é a melhor para promover a maior quantidade de rique­zas para a maior quantidade de pessoas. Aquelas grandes frestas por onde caem os mais vulneráveis ou os menos preparados devem ser compensadas ativamente; humanidade é uma virtude, não um palavrão, e ter opiniões conflitantes sobre assuntos complexos, como transexualidade ou imigração em massa, não significa que alguma das partes deva ser confinada a golpes de humilhação digital ao sétimo dos círculos das redes sociais. “Idealismo sem ilusões” foi uma das expressões genialmente criadas pelos “melhores e mais inteligentes” que John Kennedy reuniu para tocar seu programa de governo, moldar, pioneiramente, a narrativa da própria história e definir sua linha política.
É até doloroso imaginar que o “caminho do meio”, cheio de ideias reformistas para melhorar as condições sociais dos mais pobres e dos menos brandos, sem contar a firmeza de quem olhou a poderosa União Soviética e não piscou, até quase a beirinha do conflito nuclear, hoje está sendo defendido por um bilionário de maus bofes como Michael Bloomberg e um político com estilo mata-borrão como Joe Biden — tudo o que chega perto dele vira mancha informe.

A persistência de Biden e a ascensão de Bloomberg mostram que os eleitores democratas querem varrer Donald Trump do mapa com um candidato bom de voto e de capacidade de agregação. Não com as insanidades de um candidato como Bernie Sanders, que faz sucesso com estudantes (e professores) universitários e celebridades de Hollywood mas dificilmente vai convencer o eleitor que votou em Trump da última vez e está considerando uma alternativa.
Os percalços do caminho centrista, que parecia tão promissor na época da Terceira Via representada por Tony Blair (é melhor nem mencionar esse nome hoje) e Bill Clinton (é melhor nem mencionar o nome Monica Lewinsky perto dele hoje), atormentam atualmente dois dos mais importantes líderes europeus. Emmanuel Macron, tão espetacularmente promissor, patina na versão francesa da Bolha, que não permite desengessar o país, e nem com maioria no Congresso consegue fazer a reforma da Previdência. Seu inovador partido criado do nada anda perdendo integrantes. Angela Merkel vai deixar a Alemanha, sem contar o próprio partido, sem leme. Antes mesmo de assumir, sua sucessora renunciou por não conseguir controlar a virada para a direita da Democracia Cristã. Procurar o “caminho do meio” na política não é para fracos. Ao contrário, é para destemidos.

Publicado em VEJA de 4 de março de 2020, edição nº 2676
 
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Mundo sombrio? Seis em cada sete pessoas têm padrão de vida decente, diz pesquisador.


Índia, o motor asiático: ascensão social em massa.
A pobreza e as disparidades persistem, mas nem tudo é sombrio no planeta, revela livro do estatístico sueco Hans Rosling:

Bombardeadas de informações a torto e a direito, as pessoas hoje em dia têm a impressão de que sabem tudo sobre o mundo — e de que ele vai de mal a pior. O balanço de 2019 é um amontoado de protestos disseminados na América Latina, conflitos no Oriente Médio, avanço do obscurantismo no planeta e relatos de desigualdade extrema, inclusive nos países ricos. Calma, porém: o apocalipse não está na esquina, como prova, com números, o livro Factfulness — O Hábito Libertador de Só Ter Opiniões Baseadas em Fatos (Editora Record). Escrito pelo estatístico sueco Hans Rosling, que morreu em 2017 vítima de um câncer no pâncreas, o título está na lista dos mais vendidos da Europa e dos Estados Unidos. O fundador da Microsoft, Bill Gates, comprou 3,6 milhões de cópias digitais para distribuir nas faculdades. Para o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, trata-se de “uma esperançosa projeção do potencial humano de progredir”. Rosling, de fato, vai na contramão das más notícias. Sob o prisma do que as pessoas conseguem comprar com o que ganham, e não o da renda absoluta — essa é a novidade —, suas planilhas mostram que seis em cada sete habitantes do planeta já desfrutam o que ele qualifica de “padrão de vida decente”, com boa dose de conforto cotidiano. Isso inclui filhos na escola, fornecimento de eletricidade estável e gastos em lazer, como viagens de férias. Assim, a sociedade como um todo está mais avançada do que se pensa. Oitenta por cento da população mundial utiliza contraceptivos e está protegida por vacinas e 88% dispõem de água potável.

Os estudos de Rosling tiveram tal impacto que levaram o Banco Mundial a alterar a forma como classifica os países. Indo além da conhecida divisão entre desenvolvidos e em desenvolvimento, o órgão criou quatro subdivisões de renda diária que redefinem níveis de classe social e reveem o conceito de desigualdade. Há meio século, a maioria das pessoas estava paralisada no piso da pirâmide social e muito afastada do que o termômetro de Rosling aponta como classe média — daí a imagem do camelo e suas duas corcovas separadas por um profundo vale com que ele representa aqueles anos 1970. Só que a roda girou, e a escalada em massa rumo à faixa mediana engoliu uma corcova, em um retrato de mais bem-estar (veja o gráfico). Sim, a pobreza e os contrastes sociais persistem, mas Rosling traz um ângulo que proporciona algum respiro: de cinquenta anos para cá, a miséria global encolheu de 50% para 9%, alçando muita gente a patamares em que as necessidades básicas estão bem equacionadas.

Em sua argumentação, o estatístico sueco mostra que, entre os 7 bilhões de moradores da Terra, embora 1 bilhão ainda viva na faixa das altas precariedades, outros 3 bilhões têm no mínimo acesso a fogão, geladeira, eletricidade e os filhos na escola. Sobra mais uma multidão de 3 bilhões de indivíduos que conseguem investir em lazer e em pequenos luxos, como carro próprio — entre esses, 1 bilhão ainda vão à universidade, frequentam restaurantes e viajam de avião. A nova ordenação dissolve as fronteiras geográficas para reagrupar a humanidade de acordo com o que ela acessa. Rosling se deteve sobre o cotidiano de 300 casas em cinquenta países. Foram destrinchados 130 aspectos, como itens de higiene e pratos de comida. E a conclusão é que muito mais gente do que se imagina galgou posições sociais em todos os cantos, visão que se choca com a da turma liderada pelo francês Thomas Piketty, autor do livro-referência Capital e Ideologia. Para ela, baseada no clássico coeficiente de Gini, a desigualdade se agrava (o Brasil, onde 1% da população concentra atualmente 30% da renda, é um exemplo). Rosling sabe disso, mas pondera: “A visão tradicional ignora a ascensão social de 4 bilhões de pessoas, ou 60% da humanidade, nas últimas décadas”.

Um dos motores da melhora está no avanço dos países asiáticos da segunda metade do século XX para cá, sobretudo a Índia e a China. Em 1858, a Guerra do Ópio chinesa e uma tentativa frustrada de independência indiana deixaram um rastro de miséria, o que só começaria a ser revertido nos anos 50 para se acelerar nos 70 com reformas econômicas. As estatísticas ainda apontam para um fosso regional nos dois países, mas já há localidades ali em que o padrão de vida é tão bom quanto na Inglaterra ou nos Estados Unidos — um morador de Xangai acessa um sistema de saúde superior ao americano. Se as desigualdades, que represam o mercado interno e criam instabilidade social, forem atenuadas, em três décadas chineses e indianos terão rendimento médio semelhante ao dos britânicos.
Mesmo a diferença de renda no Brasil é relativizada por Rosling. Um dos gráficos mostra que os 10% mais ricos ficavam com metade da renda em 1989, mas esse porcentual caiu para 40% em 2015, o nível mais baixo em décadas. “A maioria dos brasileiros saiu da extrema pobreza e está bem instalada na classe média, ponto em que dá para economizar para pagar o ensino médio.” Em resumo: “Em um dos países mais desiguais do mundo, grande parte das pessoas já está no meio”, sustenta. É verdade que a crise dos últimos anos fez o fosso brasileiro se agravar, mas o otimismo de Rosling não esmorece. A tirar pela lógica que regeu a humanidade até este momento, mesmo com solavancos ela sempre avança.


Publicado em VEJA de 4 de março de 2020, edição nº 2676
 
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Brasil está melhor que a ditadura chinesa no combate ao vírus


Não há gente batendo cabeça, brigas entre “autoridades” e medidas desconexas entre si. A abordagem é científica, técnica e objetiva. J. R. Guzzo:
Coisas que começam bem não estão destinadas, obrigatoriamente, a acabar bem – mas não se discute que é muito melhor começar bem do que mal. É o caso do Brasil diante do Conavid- 19 (também podem me chamar de coronavírus), a mais agressiva de todas as epidemias que se espalharam pelo mundo nas últimas décadas, desta vez com origem na China.
Por todas as deficiências ou calamidades da nossa saúde pública, e da situação de alto risco que o país vive de forma quase permanente, as expectativas, mais uma vez, eram as piores possíveis. Não é o que está acontecendo. O Brasil, ao contrário de tudo o que se poderia temer, os serviços de saúde do governo, a medicina em geral e a alta competência dos infectologistas brasileiros estão reagindo muito bem ao início do ataque.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o dr. David Uip, diretor do Instituto Emilio Ribas de São Paulo, principal centro de infectologia do Brasil e coordenador do Centro de Gerenciamento do Coronavírus, e mais toda uma equipe médica de primeira linha estão fazendo o que tem de ser feito.
Estão se saindo melhor do que a China, que combate a epidemia com métodos de ditadura, e a Itália, que não a está combatendo adequadamente com métodos da democracia. Não há gente batendo cabeça, brigas entre “autoridades” e medidas desconexas entre si. A abordagem é científica, técnica e objetiva – e não política.

A primeira e bem sucedida quarentena, envolvendo brasileiros que vieram diretamente da China, foi uma mostra de competência. Agora, com o vírus s espalhando pelo mundo, as coisas ficam mais difíceis. Mas o Brasil está se revelando capaz, até o momento, de comprovar que em matéria de saúde pública, como observou a revista The Economist, a honestidade funciona bem mais que a esperança.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
 
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Siga o prestígio: o que há por trás do fetiche do impeachment de Bolsonaro.


Toda vez que um tuiteiro puxa as calçolas pela cabeça porque um tuíte de Bolsonaro vai acabar com a democracia, o que ele quer é prestígio. Bruna Frascolla, para a Gazeta do Povo:

Ultimamente o Brasil tem assistido a uma coqueluche de “motivos de impeachment” para Bolsonaro. Os motivos vão desde golden shower a briga com jornalista, e toda semana aparece um. Seria um erro dizer que todos os que embarcam na onda são lulistas. Afinal, há muitos antipetistas entre eles. E, embora seja possível enxergar um movimento tucano nesse sentido, a filiação partidária é insuficiente enquanto explicação geral. Ou alguém crê que toda criatura que fala sem parar de impeachment de Bolsonaro é lulista ou tucana? Para entender o fenômeno, é preciso analisar o funcionamento geral da sociedade.
A moeda do prestígio

Pessoas de evidente e inegável utilidade para as suas comunidades são premiadas com uma moeda invisível chamada prestígio. Como qualquer moeda, as pessoas podem tê-la em variadas proporções. E, como em qualquer sistema de preço, a cotação em prestígio varia conforme a lei da oferta. Médicos e enfermeiros são ambos úteis à sociedade, mas médicos são mais raros do que enfermeiros – logo, são mais prestigiados.
Que o prestígio cresça conforme a raridade, em vez de ser algo intrínseco a uma profissão, podemos comprovar olhando para um país onde há abundância artificial de médicos: Cuba. E que o prestígio está atrelado à utilidade para a sociedade, vemos com o fato de a profissão do ladrão não se tornar respeitável à medida que caia a criminalidade.

O prestígio, portanto, se origina do bem comum – que é uma noção lentamente trabalhada pela sociedade.
Tal como as moedas financeiras, a moeda do prestígio pode ser falsificada. Um médico normal e um médico homeopata podem ser igualmente prestigiados por se presumir que ambos, igualmente, sejam muito benéficos à sociedade. Mas só um deles tem, de fato, conhecimento eficaz. Economistas que defenderam o congelamento de preços para resolver o problema da “inflação inercial” nos anos 1980 eram, todos eles, muito prestigiados – porque se estimava que o seu raro conhecimento econômico fosse importante para o bem comum.
Passar-se por inteligência benéfica implica cunhar moeda falsa de prestígio e é algo que perturba esse incessante processo social de decidir o que é bom.
Outra semelhança entre a moeda do prestígio e as moedas financeiras é que ambas podem ter validade em ambientes restritos. Um homem que chegue à Turquia com os bolsos cheios de reais se considerará pobre. Do mesmo jeito, um dervixe turco no Brasil é um Zé Ninguém porque entre nós não se prestigiam dervixes.
As moedas financeiras podem ser criadas em comunidades ainda menores que países: até bairros e escolas podem criar moedas internas. No caso do prestígio, isso é ainda mais comum do que entre as moedas financeiras. Com o Brasil tão inflamado em tribalismos políticos, isso é bem visível. Um homem pode pretender cuspir em cem “fascistas” para obter prestígio e respeito, mas esse prestígio obviamente estará restrito à sua facção. Afinal, o brasileiro comum acha reprovável sair cuspindo nos outros, pois suas mães ensinaram que isso é muito feio.
A moeda dos nichos

Podemos futucar os bolsos de um viajante estrangeiro para descobrir a moeda que ele carrega e, assim, descobrir sua nacionalidade. Do mesmo jeito, se encontramos alguém que parece se orgulhar de uma conduta estranha, devemos considerar isso a moeda do seu nicho, da sua facção. Uma jovem deputada é assassinada no meio da rua, seus fãs colocam uma placa em sua homenagem e um homem se orgulha de arrancar essa placa e quebrá-la perante a turba. Essa é uma atitude da qual o comum dos brasileiros se orgulharia?
Não. Logo, para descobrir por que ele se orgulha disso, é preciso encontrar a sua turma. Encontrando-a, entendemos que essa turma acredita que contra uma psolista vale qualquer coisa, que ela é incapaz de pensar na deputada apenas como um ser humano assassinado, uma pessoa que até tem uma família e pessoas que gostam dela por razões não-políticas. Quebrar um símbolo daquela pessoa é algo benigno dentro dos estreitos limites daquela facção, que entende a destruição do Inimigo como o bem da sua diminuta e facciosa comunidade. O mesmo raciocínio vale para a conduta dos cuspidores de “fascistas”.
No entanto, as facções políticas às vezes convencem a sociedade de que elas lhe são benignas e de que tudo o que fazem tem em vista o bem comum. Esse, definitivamente, não é o caso da direita que surgiu após o PT.
Por mais que, com razão, se afirme que a democracia se faz de pluralidade, o máximo que a direita conseguiu foi o reconhecimento de sua legitimidade. E ninguém de fora da facção a reconhece como benéfica em si mesma. Trocando em miúdos, nunca deu muito prestígio ser de direita — nem mesmo quando Bolsonaro se elegeu.

Já a esquerda, ao contrário, teve a cotação em prestígio altíssima desde quando os militares, movidos pelo anticomunismo, decretaram o AI-5. A partir daí, opor-se a opressões arbitrárias passou a ser algo identificado com a esquerda. A esquerda descobriu junto com os militares que, por alguma razão, o Brasil gosta de democracia. Ela largou as diatribes contra a democracia burguesa. Munida de muitos professores em suas fileiras, a esquerda pôde fraudar a história e passar-se por defensora perene da democracia brasileira, mesmo que tenha conspirado contra Jango para implantar uma ditadura totalitária.
Felizmente, a esquerda perdeu esse prestígio. O processo começou com a descoberta do Mensalão e culminou com a redução da esquerda ao culto da personalidade de Lula. O politicamente correto lançou a pá de cal e a esquerda deixou de ser identificada com a defesa da democracia ou mesmo com a defesa dos pobres para se tornar fiscal de fantasia carnavalesca.
Hoje, a esquerda nada mais é que um catecismo dogmático que inclui a fé inabalável na Inocência de Lula e na malignidade de todos os homens brancos que não são Lula, Ciro Gomes, Freixo, etc. A esquerda está se tornando aquilo que a direita mais xucra nunca deixou de ser: uma facção de malcriados, sem nenhum respeito fora do nicho.
A moeda comum

Transformar a esquerda em passado seria mais fácil se o Anti-Esquerda que venceu o PT nas eleições não fosse um simplório. É verdade que ele defende ditadura, mas, infelizmente, é só mais um político brasileiro a fazer isto. Homenagens a Cuba infestam a vida escolar dos alunos há décadas e a catástrofe da Venezuela, sob o nosso nariz, também encontra defensores perenes. Uma coisa, porém, é um elegante Professor Doutor da USP defender ditaduras que outros intelectuais também defendem – outra, completamente diferente, é um simplório defender uma ditadura que não conta com simpatia de intelectuais.
A universidade e o mundo das artes funcionam como Casas da Moeda de prestígio da sociedade brasileira. Desde a última ditadura, elas passaram pelo mesmo processo de esquerdização que a classe média. Mas, durante o petismo, seguiram o rumo contrário do grosso da classe média e se aprofundaram na partidarização. (Explicar isto envolveria um estudo do Reuni e dos editais para artista). Gostemos ou não, queiramos ou não, o Brasil não tem uma vida intelectual independente de agentes estatais.

Essa emissora de moeda franca passou a se colocar a favor do item mais bem-aceito no Brasil fora de nichos: a democracia. Defenda a democracia e encontrará no Brasil um apoio de setores amplos.
Agora, definir democracia é outra história. Nessa operação, joga-se a água junto com o bebê. A democracia virou, na cabeça de gente aspirante a prestígio, coisa refinada e chique. Dizer “sou democrático” está se tornando o novo análogo de dizer algo como “leio um tratado filosófico por semana”. Aí é muito fácil chamar o atual chefe do Executivo de antidemocrático. O chefe do Executivo, os taxistas mal-humorados, os tiozões do zap-zap, o pai de Tati Bernardi e todos os merecedores das cusparadas de Zé de Abreu.
Democracia, mesmo, só quando todos os votantes e votados beberem chá com o mindinho esticado.
A cunhagem falsa

Toda vez que um tuiteiro puxa as calçolas pela cabeça porque uma declaração, tuíte ou compartilhamento de Bolsonaro vai acabar de vez com a democracia, o que ele quer, com essa ação extravagante, é o prestígio. “Olhem como sou democrático e chique!” é o subtexto. Assim o antipetista de outrora mostra a todos que sua própria imagem é muito diferente daquele simplório do Planalto. Serve unicamente ao propósito de cuidar de sua própria imagem.
Isso prejudica a sociedade porque passa a falsa impressão de que há uma vigilância sobre o presidente e um incansável zelo pelas liberdades democráticas (que nem dependem só do presidente). Se há muita gente fazendo estardalhaço a cada coisa dita ou não dita por Bolsonaro, parece difícil crer que este governo não esteja sob vigilância de liberais autênticos.
Mas não está. O maior exemplo disso talvez seja o fato de Weintraub ter criado em 12 de dezembro, numa única canetada, nada menos que 5 universidades federais: “a Universidade Federal de Jataí (UFJ), Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape), Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar) e Universidade Federal de Catalão (UFCat).” Nem Dilma fez isso! Lula passou 8 anos no poder, e criou 14 federais; Bolsonaro, em apenas 1 ano, criou 5!
Então o estado de coisas é o seguinte: a esquerda grita que Bolsonaro é um novo Pinochet (um ditador com Chicago boys), e os antibolsonaristas egressos do antipetismo, que se dizem liberais, engolem a lorota. Como cobrir declaração e inventar teoria conspiratória é mais divertido do que ler diário oficial, ficamos, em meio a essa gritaria, achando que narcisistas simulando pânico são vigias da democracia. Mas quem vigia?
O Brasil não tem um ditador. Tem apenas mais um presidente democrático. Nossos presidentes, democráticos ou não, são patrimonialistas e fazem demagogia com empregos públicos. Bolsonaro, porém, é o primeiro presidente brasileiro a contar com fiscais de declarações em vez de fiscais de ações. Se a imprensa e a opinião pública fossem assim em 1967, Costa e Silva não precisaria de um AI-5.
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Fiuza: "Democracia sem povo".


É grave a crise. Os progressistas de auditório estão reunidos neste momento numa junta supraparasitária para decidir quem vai de madrugada pichar umas suásticas no Congresso. Guilherme Fiuza:

A resistência democrática perdeu a paciência e resolveu falar grosso. Ela exige que o presidente da República feche o Congresso Nacional.

Para de embromar, Bolsonaro. Nós da resistência democrática não aguentamos mais. Já tivemos que engolir Reforma da Previdência, Lei da Liberdade Econômica... Liberdade, companheiro? Tá de sacanagem com a nossa cara? Que porcaria de fascismo é esse?
Quer reformar? Tudo bem. Mas mete um decreto! Manda os militares dizerem no grito que mudou a lei e fim de papo. Aí vocês vêm e discutem tudo democraticamente com o parlamento... Vocês acham que ninguém tá vendo? Vocês acham que um insulto desses vai passar batido pra nós, vigilantes incansáveis da patrulha democrática? Como fica a imagem do Brasil lá fora? Quem vai respeitar um autoritarismo que respeita as instituições – e ainda por cima permite que todo mundo fale o que bem entende?
A ONU, o Macron e as ONGs já estão de saco cheio de falar de girafa. Você quer que a gente viva de quê, Bolsonaro? Você acha que o nosso estoque de fake news é infinito? Pensa que notícia falsa cai do céu? Não é assim não, companheiro. Isso dá trabalho. Se coloca no lugar de uma Cassandra cansada de guerra que precisa dar dez piruetas intelectuais e mandar ver no rebolado jornalístico pra dizer que você está montando um ataque ao Congresso Nacional? Como a gente pode fazer o nosso trabalho em paz com um autoritarismo frouxo desses que nos obriga a falar tudo por ele?
Basta. Chega. Não dá mais. O escândalo eleitoral por si só já seria suficiente pra encerrar a nossa tolerância com esse governo. Qual era o certo pra uma candidatura fascista? Botar as milícias pra obrigar o povo a votar no candidato fascista, correto? Então olha o absurdo: deixaram a população votar por ela mesma! Pela própria consciência! Diante dessa falta de manipulação escandalosa a gente foi obrigado a inventar uma milícia de WhatsApp e anunciar que a eleição de 2018 foi o Golpe das Tias. Olha o papelão que esse fascismo inoperante nos obrigou a fazer logo de saída. Brincadeira.
Tudo bem, deixamos o governo tomar posse. Demos um voto de confiança ao fascismo – com fé de que ele não ficaria no marasmo e logo sairia arrebentando as minorias e todo mundo que não fosse branco hétero. Outro vexame: a violência caiu em todas as faixas da sociedade no primeiro ano de governo. Vocês têm ideia do tamanho desse trauma? Por acaso calculam quantos humanistas de butique tiveram que se sacrificar fazendo cara de paisagem, cerceados no seu trabalho de contar história triste e fermentar o inimigo imaginário? Chega de dourar a pílula: o nome disso é censura!
Mas o Bolsonaro não quis saber e continuou afrontando as leis – mantendo no cargo todos os ministros que a imprensa demitiu, o que configura flagrante crime de responsabilidade contra o direito à conspiração. Como disseram os maias, molons, moluscos e parasitas associados: quem vai parar esse fascista? Ou melhor: quem vai trocá-lo por um fascista de verdade fantasiado de democrata, materializando enfim o fetiche da resistência de boa aparência?
É grave a crise. Os progressistas de auditório estão reunidos neste momento numa junta supraparasitária para decidir quem vai de madrugada pichar umas suásticas no Congresso – de forma que os vassalos do Lula no STF possam dar uma liminar aos liberalóides proibindo manifestações populares. Eles garantem que assim a democracia no Brasil estará salva.
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Equador confirma 2º caso de coronavírus na América do Sul


A América do Sul tem agora dois casos confirmados de coronavírus. As autoridades de saúde do Equador confirmaram neste sábado (29), o primeiro caso de coronavírus no país. A paciente é uma mulher de 70 anos que chegou da Espanha há duas semanas. A confirmação do Equador acontece após o Brasil ter tido o primeiro paciente sul-americano infectado na quarta-feira, 26. O brasileiro é um idoso de 61 anos havia chegado recentemente da Itália, onde há pelo menos 889 casos (o terceiro país com mais casos confirmados depois de China e Coreia do Sul). Na América Latina, que inclui o México e a América Central, há no total cinco casos confirmados. O México confirmou três casos, o último na sexta-feira, 29, que se somam aos infectados de Brasil e Equador.
Segundo a ministra da Saúde do Equador, Catalina Andramuño, a paciente infectada mora na Espanha. Ela chegou ao Equador no dia 14 de fevereiro, vinda de um voo direto da capital Madrid, não havia demonstrado nenhum sintoma a princípio. Na Espanha, há 32 casos confirmados, de acordo com atualização diária da John Hopkins University, com base em dados dos governos e de organizações de saúde. A paciente equatoriana está sendo tratada em um hospital preparado pelo governo equatoriano para atender a ocorrências de coronavírus, conforme informou o governo local. As autoridades do Equador também estão monitorando cerca de 80 pessoas que tiveram contato com a mulher. Uma jovem que retornou da Itália há quatro dias e apresenta sintomas suspeitos também está sendo monitorada no país, mas, segundo as autoridades equatorianas, ela deve ser liberada já na semana que vem. O Equador instaurou nesta semana um esquema de maior vigilância em aeroportos para passageiros que chegam de países com grande número de casos, como China, Coreia do Sul, Irã e Itália. A principal preocupação é que o coronavírus torne-se uma pandemia global. Já são mais de 6.000 casos da doença causada pelo novo coronavírus fora de território chinês, segundo números deste sábado, 29. Ao todo, são mais de 86.000 casos e mais de 2.900 mortes, a maioria na China.

Brasil confirma segundo caso de coronavírus


O Ministério da Saúde confirmou mais um caso positivo de coronavírus no Brasil neste sábado, 29. O paciente infectado também retornou de uma viagem na Itália. Esse é o segundo caso da doença confirmado no País. O primeiro caso também aconteceu em São Paulo e ocorreu em um paciente que voltou da Itália. O primeiro caso foi confirmado na segunda-feira, 24, em um empresário de 61 anos na capital paulista que está em isolamento domiciliar. Acompanhe as últimas notícias sobre o coronavírus em tempo real. O ministério ainda não informou mais detalhes sobre o paciente. Em nota, disse apenas ter sido notificado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo no fim da tarde deste sábado sobre a confirmação. O primeiro caso também aconteceu em São Paulo e ocorreu em um paciente que voltou da Itália. O primeiro caso foi confirmado na segunda-feira, 24, em um empresário de 61 anos na capital paulista que está em isolamento domiciliar. Acompanhe as últimas notícias sobre o coronavírus em tempo real. O ministério ainda não informou mais detalhes sobre o paciente. Em nota, disse apenas ter sido notificado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo no fim da tarde deste sábado sobre a confirmação. (Estadão)

Desigualdade de sexos: coronavírus é pior para homens e idosos.


E ninguém ainda sabe o motivo da única boa notícia da epidemia que tira o mundo dos eixos: a ausência de mortes de crianças abaixo dos 9 anos. Vilma Gryzinski:

Contra argumentos não há fatos e a irracionalidade que acompanha a expansão do coronavírus é a maior comprovação disso.

Até profissionais do mundo da saúde estão, irresponsavelmente, contribuindo para tocar o terror. Uma dessas “contribuições” veio da Inglaterra, onde o tradicional sangue frio inglês anda fervendo.

“Médicos qualificados” mencionados pela imprensa – sem nomes, claro – declararam que protocolos sobre classificação de risco poderiam significar que, numa crise de grandes proporções, pacientes idosos em estado muito grave não teriam acesso a leitos de UTI e respiração artificial.

Em inglês, o procedimento é chamado de protocolo dos “three wise men” – uma referência aos sábios conhecidos na tradição latina como Reis Magos.
No caso, significa que três especialistas de cada hospital escolheriam quais doentes teriam acesso a recursos, obviamente, limitados.

O princípio é que “todos os pacientes são igualmente importantes”, mas isso não significa que todos receberão o mesmo tratamento.

Tradução: os mais velhos e com menos chances de sobrevivência ficam no fim da fila. Não é, obviamente, uma hipótese única para o caso de uma epidemia de coronavírus que ultrapasse a capacidade de atendimento do sistema de saúde.

Escolher quem vai viver e quem vai morrer é, de muitas maneiras, um dos maiores ônus dos profissionais de saúde nas grandes emergências.
Isso está muito, muito longe de acontecer no caso do coronavírus. Muito provavelmente nunca acontecerá, pelo menos fora da China, onde o pior também parece já ter passado do pico.

Mas os três meses que transcorreram desde que foi identificado o primeiro caso da doença, agora oficialmente chamada Covid-19, permitiram uma quantidade razoável de indicadores numéricos.

O melhor deles, entre tantas más notícias: não houve nenhum caso de crianças abaixo de nove anos vitimadas pela doença respiratória.

Ao contrário do que acontece com os surtos de gripe, que afetam as extremidades etárias, o novo corona está poupando as crianças, não só da letalidade, mas da infecção.
Algumas crianças, mesmo infectadas, possivelmente nem desenvolvem sintomas da doença. O vírus também poupa recém-nascidos com mães doentes, segundo um estudo, ainda limitado, feito na China – uma alegria para quem se lembra do que o vírus zika fez tem regiões do Brasil.

Na população em geral, 80% têm sintomas leves, comparáveis a um resfriado comum. Nas crianças, parecem ser mais amenos ainda. Fora as especulações sobre a imunidade recebida das mães, as causas ainda estão sendo estudadas.

Em compensação, o coronavírus é mais letal para homens. E quanto mais velhos, pior.

O índice geral de mortalidade é de 2,8% para o sexo masculino e 1,7% para mulheres. Disparidade similar ou até maior foi registrada com outras doenças virais que afetam o sistema respiratório, como as síndromes Sars e Mers.

“As mulheres combatem esses vírus melhor”, disse para o New York Times a pesquisadora Sabra Klein.

O sistema imunológico mais engatilhado é, notoriamente, responsável pela enorme disparidade entre os sexos no número de afetados por doenças autoimunes. Lúpus e artrite reumatóide são doenças tipicamente “femininas”, com 80% de vítimas mulheres.

Até a faixa dos 49 anos, a taxa de mortalidade do coronavírus não passa de 0,4%. Salta para 8% nos que têm de 70 a 79 anos e chega 14,8% na faixa acima dos 80.

Obviamente, os números disponíveis até agora para os estudos mais amplos são referentes à China, com as características locais dos pacientes, um leque enorme que vai ao uso do cigarro – altíssimo, principalmente entre os mais velhos – a indicadores como pressão alta e diabetes.
O coronavírus já fez um estrago monumental, afetando a economia global numa escala cujas consequências ainda estão sendo avaliadas.

Um dos cálculos reduz o crescimento da economia mundial este ano de 2,9% para 2,5%.

Mesmo quem não tem um centavo em investimentos ficou mais pobre depois dessa semana catastrófica para as bolsas, culminando na Sexta-Feira Negra.

O corona vai provocar uma recessão recorde? impedir a reeleição de Trump? Derrubar Bolsonaro? Matar milhões nos Estados Unidos? Acabar com o capitalismo?
Todos os que participam do grande debate público têm a obrigação moral e ética de tomar muito cuidado com o que especulam (ou até desejam, sem muitos disfarces).

Uma doença contagiosa que mata especialmente idosos e se espalha pelo mundo num ritmo que ainda está em fluxo já é suficientemente preocupante.

Quem incentiva histeria em massa corre o risco de ficar na mesma ala reservada aos idiotas terminais como Nicolás Maduro.

“É preciso erguer a voz e dar o alerta. Que o coronavírus não seja uma arma de guerra utilizada contra a China e contra os povos do mundo em geral”, disse o elemento.

Alguém quer ficar nessa companhia?
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Festival Coronavírus: seis curtíssimas metragens.


A diretora-geral de saúde avisa: “Não nos devemos beijar todo o dia e a toda a hora”. Eu fique ceguinho se já me ocorreu beijar, uma vez que fosse, a dra. Graça Freitas. Eis a sarcástica crônica semanal de Alberto Gonçalves no Observador:

Pacientes zero

Face à discrepância entre o número de suspeitos (uma resma deles) e o número de casos confirmados (nenhum), o primeiro-ministro já veio serenar as massas e prometer entusiasmado que, “mais tarde ou mais cedo”, Portugal terá o seu primeiro paciente com o coronavírus. Falar é fácil. E, para o dr. Costa, mentir é facílimo. Certo é que o tempo passa e até agora nada. No momento em que escrevo, cinco dezenas de países exibem vítimas da doença e nós continuamos sem uma para contar a história aos repórteres televisivos exaustos de entrevistar a mulher do mecânico à porta de casa. Em matéria de coronavírus, estamos como na economia: na cauda da Europa e nos fundilhos do mundo. O país é tão pelintra que nem os micro-organismos querem nada connosco. O bicharoco é igual aos terroristas islâmicos: se se apanhar por cá, no dia seguinte atravessa a fronteira para causar baixas em lugares civilizados. Etc. (Aceitam-se sugestões de novas graçolas alusivas à situação).

O costume dos suspeitos

A propósito, de que modo se determina que um indivíduo é suspeito de sofrer do coronavírus? Dito de outra maneira, o que distingue os suspeitos do coronavírus dos suspeitos da gripe comum? Dito ainda de uma terceira forma, se amanhã for ao médico por causa de um resfriado, quais as probabilidades de que me receitarem Ilvico em vez de me submeterem a 35 horas de exames? O que decide, o tipo de espirro? As férias recentes em Hubei, China? O palpite dos clínicos? A cara do “utente”? Uma lista secreta de quotas para suspeitos a preencher por cada hospital ou centro de saúde? E porque é que, mudando um bocadinho de assunto, a quantidade de suspeitos sem doença cresce diariamente? O INEM recebeu ordens para caçar transeuntes com pingo no nariz? Por fim, quem nos garante que os suspeitos da gripe comum não padecem realmente do coronavírus? E que os suspeitos não confirmados podem ficar aliviados com a eficácia das análises? Convinha que as autoridades nos esclarecessem, logo que alguém esclarecesse as autoridades.

Os nossos homens em Toyoake

Do governo às entidades da saúde, dos jornalistas aos moços que cuidam dos “alertas CM”, o país está mortinho, salvo seja, por encontrar o primeiro português infectado com o coronavírus. Por sorte, há dois. Por azar, tiveram a desconsideração de o “contrair” (sic) para os lados do Japão, que não fica à mão de redacções televisivas sitas em Carnaxide, ou Almoxarife ou Alcabideche ou lá o que é. E além das dificuldades logísticas, há as exigências simbólicas: o herói que Portugal procura não pode ser um estrangeirado. É urgente que, no meio de tantos suspeitos, se arranje depressa um Zé Carlos Santos, residente num subúrbio e possuidor de uma família disposta a entreter os repórteres. Não duvido de que estaremos entre os melhores do mundo em matéria de pacientes. Com ou sem vírus, paciência é o que não nos falta.

Walking (não exactamente) dead

À semelhança do sr. Canas, que através de jantaradas com o “eng.” Sócrates se prepara há 40 anos para ser juiz do Tribunal Constitucional, é possível que a dra. Temido se tenha preparado durante 45 anos para ser ministra da Saúde. Eu preparo-me há 50 para ser governado por anedotas ambulantes. Mas ainda não estou pronto. Sobre as pessoas que viajaram por zonas afectadas, a dra. Temido afirmou: “Quem provenha destas regiões onde há transmissão do vírus deve ter cuidados especiais, designadamente mantendo-se isolado (…)”. Ou seja, quem passeou por Roma ou Seul deve, mal aterre por cá, fugir dos familiares à espera no aeroporto e correr para locais ermos, por exemplo o topo de colinas, shoppings falidos ou as instalações da Qimonda, onde ficará a vaguear, género zombie, por tempo indeterminado. A alternativa seria testar os passageiros que chegam da China e tal, mas tamanha irresponsabilidade custaria um dinheirão, aliás necessário para “injectar” no Novo Banco e em alguns velhos. Entretanto, fomos informados de que as declarações da dra. Temido constituíram um lapso. Não era preciso: toda a gente sabe que a própria existência da dra. Temido é um lapso.

Beijem-me, idiotas

É preciso notar que nem todas as autoridades produzem disparates imediatamente desmentidos. Algumas dizem asneiras que ninguém desmente. A directora-geral de saúde avisa: “Não nos devemos beijar todo o dia e a toda a hora”. Eu fique ceguinho se já me ocorreu beijar, uma vez que fosse, a dra. Graça Freitas.

A Oeste tudo de velho

Por falar em beijinhos, resta o prof. Marcelo. Na noite de 17 de Junho de 2017, o prof. Marcelo chegou a Pedrógão Grande e declarou: “O que se fez foi o máximo que se poderia ter feito”. No dia 25 de Fevereiro de 2020, o prof. Marcelo afirmou: “Tudo está a ser feito para lidar com o coronavírus”. É nestas alturas que invejo os que sabem rezar. Se soubesse, rezaria para que o bicho mantenha o desprezo por um lugarejo cujos líderes são criminalmente irresponsáveis, cujas autoridades não têm autoridade nenhuma, cujos hospitais assistem à morte de infelizes em salas de espera e cujo povo sente orgulho de semelhante circo, e confia no circo para o proteger. Para a portugalidade é que não há cura.
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