Em 1573 um conto de Boccacio foi proibido, mas voltou ao domínio público depois de “corrigido”. Não é tão parecido com o que se faz hoje, com livros para adultos alvos de “comités de sensibilidade”? Armando Gonçalves Pereira para o Observador:
Li
muitas vezes à minha filha, para ela adormecer, “O Gato do Chapéu”, do
Dr. Seuss, autor famoso nos Estados Unidos, mas não em Portugal. A
tradução, numa excelente edição da Gradiva, era em verso. Nunca li o
original, mas as quadras em português eram bem ritmadas e tinham uma
musicalidade que as tornavam eficazes para adormecer, tanto quem as
ouvia com quem as lia. Este foi o único livro de Dr. Seuss que alguma
vez li (ou vi, porque também tinha desenhos).
Mas
eis que a editora americana que detém os direitos dos livros de Dr.
Seuss optou por navegar a onda “woke” retirar da circulação dois títulos
do mesmo autor, com o argumento de que continham estereótipos de
japoneses. Isto, partindo de uma editora que legalmente é a única
habilitada a publicar o autor, é na prática um ato de censura imposto
por um privado. Não se trata de uma proibição legal (por enquanto), mas
tem quase o mesmo efeito prático, uma vez que torna muitíssimo mais
difícil o acesso aos livros.
Stephen
Colbert, o apresentador do “Late Night Show” da CBS, disse que estava
de acordo – que lhe parecia razoável uma editora retirar certos livros
do Dr. Seuss do mercado para isolar as crianças dos estereótipos –, o
que me faz pensar que ele, se pudesse, faria o mesmo. Ou talvez não.
Talvez dissesse isso apenas para parecer alinhado com os tempos e não
perder audiência.
Há
464 anos foi pela primeira publicado o Index Romano de Livros
Proibidos, por iniciativa do Papa Paulo IV. A censura católica durou
quatrocentos anos. O objetivo era nobre, como sempre: formatar bons
leitores e protegê-los de leituras perniciosas.
O
Index era afixado nas portas das igrejas, pelo que, paradoxalmente,
fazia publicidade a livros que, de outra forma, poucos saberiam que
tinham sido escritos.
Tal
como em “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, no qual um livro de
Aristóteles sobre a comédia foi escondido por um monge preocupado com o
efeito perverso que ele poderia ter sobre a humanidade – escondido, mas
não destruído –, também os livros que a Igreja proibia não eram todos
destruídos, sendo alguns exemplares conservados, escondidos dos olhares
comuns e apenas acessíveis a leitores devidamente autorizados.
Por
vezes os livros não eram proibidos de forma definitiva. Narrativas,
romances cavalheirescos ou contos eróticos ficavam guardados nos
arquivos inquisitoriais até serem devidamente purgados, como se no
Purgatório estivessem. Por exemplo, um conto de Boccacio foi proibido,
mas voltou ao domínio público depois de “corrigido”: os “monges que
traficavam ilicitamente raparigas para as suas celas” foram substituídos
por “estudantes que discretamente levavam raparigas para os
dormitórios”. Isto foi em 1573. Não é espantosamente parecido com o que
se faz hoje, em que até livros para adultos, como os de Agatha Christie,
são alvos de “comités de sensibilidade”?
Quem
censura ou “corrige” autores falecidos julga-se num nível ético de tal
forma elevado que se sente legitimado para impor ao presente e ao
passado a sua visão moral do mundo. Está a afirmar, implicitamente, que
os seus princípios são absolutos e eternos e podem, por isso, ser
utilizados para condenar um autor de qualquer época.
Se
os princípios morais fossem absolutos e eternos, então não teriam
certamente uma origem humana – existiriam para além dos tempos e das
mudanças de compreensão dos homens. A moral do censor seria então uma
moral revelada, a que só os iluminados, como ele, teriam acesso.
Daqui se infere que o “wokismo” tem, por isso, a natureza de uma religião.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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