BLOG ORLANDO TAMBOSI
A canção de Belchior não é um elogio fofinho ao “encontro de gerações”: muito pelo contrário, para o narrador não pode haver nada mais deprimente que ter feito tudo, tudo, tudo que ele e os amigos fizeram e ainda ser igualzinho aos pais. A crônica de Ruy Goiaba para a Crusoé:
É
difícil definir o que é mais equivocado nessa história do comercial da
nova Kombi elétrica. Se você não estava em Marte e totalmente
desconectado das redes sociais na última semana, sabe do que se trata: é
aquele em que uma Elis Regina ressuscitada por inteligência artificial e
sua filha, Maria Rita, cantam juntas Como Nossos Pais dirigindo,
respectivamente, uma Kombi velha e uma moderna. O autor da música,
Belchior, aparece como ilustração de uma camiseta. Claro, hipster usando
camiseta do Belchior é outro sinal inequívoco de modernidade.
O
equívoco começa na propaganda em si. A Elis produzida por IA é meio
robótica, com movimentos não naturais: como disse uma amiga, talvez
esteja muito contrariada de ter sido colocada para dirigir uma Kombi uns
40 anos depois de morta. E a peça dá a impressão de que os
publicitários que a criaram, como bons habitantes das redes, só leram o
título da letra de Como Nossos Pais. A canção de Belchior não é um
elogio fofinho ao “encontro de gerações”: muito pelo contrário, para o
narrador não pode haver nada mais deprimente que ter feito tudo, tudo,
tudo que ele e os amigos fizeram e ainda ser igualzinho aos pais.
Mas
talvez as reações ao comercial tenham sido ainda piores. Primeiro
vieram os emocionados: “Aaai, meu Deus, que lindo, que tocante, que
comovente, chorei largado” (muitos moradores das redes sociais, em
especial do Twitter, são uns seres tão à flor da pele que se esvaem em
lágrimas até com propaganda de margarina). Nesse time dos comovidos
estava ninguém menos que Janja, primeira-dama e janjadora-geral da
República: “Sete e pouco da manhã aqui na Argentina e eu me acabando de
chorar”. Certamente, essa Janja emotiva está sintonizada com Lula e quer
dar uma força à nascente indústria automobilística brasileira, aquela
que fez 70 anos sem nunca largar a mamadeira dos subsídios.
Não
demorou para que uma onda oposta se erguesse: vocês NÃO PODEM se
emocionar com essa propaganda porque é capitalismo, é neoliberalismo,
foi Hitler que fundou a Volkswagen, Elis cantava para os sindicatos no
1º de Maio e isso é um insulto à memória dela (também cantou, anos
antes, o Hino Nacional na Olimpíada do Exército, o que fez o patrulheiro
Henfil colocá-la no cemitério dos mortos-vivos do seu personagem Caboco
Mamadô; mas depois se redimiu). O mais engraçado é ver um pessoal mais
empenhado em ser filho e herdeiro de Elis Regina do que a própria Maria
Rita: “Como você ousa ganhar dinheiro com a imagem da sua mãe? Elis é
nossa!”. Vai lá e pede um teste de DNA então, amigo.
Somando
todos os equívocos, quem mais ganhou com essa história foram os
publicitários — que, mesmo sem terem prestado atenção à letra de Como
Nossos Pais, certamente estão levando uma boa grana com o engajamento
que a “polêmica” provocou — e, apesar da Elis-robô, a inteligência
artificial. São mesmo fascinantes as possibilidades que a IA nos
oferece: no próprio Twitter, já sugeriram ressuscitar Dorival Caymmi
para um vídeo com a filha Nana e a neta Alice (Alice e Dorival dirigindo
a Kombi, Nana de verde-amarelo agarrada ao para-brisa dianteiro). Ou o
suposto filho de Gugu Liberato e o Gugu de IA dentro da banheira,
cantando a música do pintinho amarelinho. Sim, o futuro é glorioso.
Prevejo
mudanças de testamento que incluirão uma cláusula proibindo os
herdeiros de fazer o morto dirigir uma Kombi, ou exercer atividades
ainda menos edificantes, no pós-morte. Não tenho herdeiros, mas se me
transformarem em Goiaba-robô juro que volto do inferno para assombrar os
responsáveis. Levem essa IA para lá e me deixem quieto no meu canto,
com minha burrice natural.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Luan
(foto), jogador do Corinthians que é provavelmente o encostado mais
caro do futebol brasileiro (R$ 800 mil por mês para não jogar), estava
curtindo a vida adoidado com nove acompanhantes num motel de São Paulo
quando foi rudemente interrompido por esse exemplo de civilidade e
democracia que são os torcedores da Gaviões da Fiel: arrancado da suíte
em que estava, apanhou muito democraticamente. Dias depois, o UOL
publicou uma reportagem com o título “Corinthians agenda reunião com
Luan confiante em rescisão amigável”. Não sei vocês, mas no meu tempo
“amigável” não significava “forçado a sair do clube depois de levar
surra da torcida”; essa juventude de hoje está muito mudada.


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