BLOG ORLANDO TAMBOSI
Vivemos tempos de pesadelo que importa perceber e combater. O wokismo não é uma moda passageira e inócua. Veio para ficar e para tentar perfurar e demolir as mais sólidas paredes da cultura ocidental. João Pedro Marques para o Observador:
Há
um esforço da gente woke para rejeitar essa designação, para fingir que
o wokismo não existe e que é apenas uma criação fantasmagórica da
direita mais reaccionária. Esse esforço de dissimulação e de ludíbrio é
perfeitamente visível em Portugal, em França e noutros países ocidentais e eu já tive ocasião de escrever sobre ele
pois o wokismo existe, é facilmente identificável e, no que à memória
histórica diz respeito, tem mesmo um programa de acção política, um
programa reivindicativo, com metas muito bem definidas e assumidas.
Onde
poderemos vê-las? Em vários locais, nomeadamente no site BUALA, um
portal criado em 2010 pela activista Marta Lança que tem como um dos
seus objectivos a criação de um corpo de referências de textos
fundamentais sobre temas pós e descoloniais, e que, ao longo dos anos,
tem dado espaço e voz a quem seja simultaneamente woke e africano ou
africanófilo, de activistas como Mamadou Ba a académicos como António
Pinto Ribeiro. Nesse site, a propósito da realização do IV Encontro de
Cultura Visual – Reparações, recentemente realizado no Porto, explana-se
o programa woke
sobre reparações históricas em Portugal, “nas suas múltiplas
vertentes”. Que “vertentes” são essas? Ei-las, nos exactos termos e pela
ordem em que o site BUALA as apresenta:
*Pedidos de desculpa pelas atrocidades do colonialismo e pela prática da escravatura em larga escala;*Implementação de políticas afirmativas (através de quotas étnico-raciais no acesso à universidade e aos lugares de decisão nas estruturas);*Revisão das narrativas históricas e, consequentemente, dos curricula (através da inclusão de narrativas, sujeitos históricos e artistas até agora excluídos da narrativa oficial);*Devolução de objetos saqueados;*Descolonização do espaço público (através do desmantelamento de estátuas racistas e a memorialização às vítimas da Escravatura);*Recuperação de paisagens e apoio às comunidades dilaceradas pelo extractivismo;*Perdão de dívidas odiosas e pagamento de indemnizações.
Tudo
o que a extrema-esquerda tem feito neste âmbito nos últimos anos, desde
a contestação a estátuas e monumentos à crítica a certos manuais
escolares, decorre deste programa político de “reparações” por antigas
injustiças ou violências, e ganha mais sentido e significado à sua luz.
Alguns dos objectivos desse programa têm sido frontalmente assumidos,
como é o caso do ponto 1, isto é, da exigência de pedidos de desculpas
pela prática da escravatura. Outros foram durante muito tempo
disfarçados, escondidos, nomeadamente o ponto 7 que remete para o
pagamento de indemnizações.
Avisei, logo em Maio de 2017,
que o recebimento de indemnizações era o objectivo último destes
activistas de extrema-esquerda. Nessa altura e nos anos seguintes nenhum
deles se deu por achado. Pelo contrário, para não espantar a caça,
todos fingiram que não se tratava disso e apontaram para outras
questões: o ensino, os pedidos de desculpa, etc. Mas os anos passaram, o
pudor inicial também, e a coisa aparece agora preto no branco no ponto 7
do programa woke: “perdão de dívidas odiosas e pagamento de
indemnizações”.
Digamos
que essa parte mais material do programa reivindicativo será a mais
difícil de atingir por mexer no orçamento do Estado e no bolso dos
contribuintes. Mas há outras partes, imateriais, que parecem ao alcance
dos activistas. Uma delas ameaça fortemente a História. Há dias, o
historiador João Paulo Oliveira e Costa escreveu no seu mural de
Facebook que “o dito wokismo é, na sua essência, uma subversão da
História. Alimenta-se da deturpação anacrónica e de incontáveis
omissões. Em regra, é promovido por elites académicas apoiadas por
sectores da comunicação social e do próprio sistema político (…). O
wokismo é, sem dúvida, um combate contra a História. A perigosíssima
tentativa de alterar a memória colectiva em proveito de uma certa
elite”.
Não
podia estar mais de acordo com o meu colega. Peguem, por exemplo, no
ponto 3 do programa woke. O que pretende ele? Alterar as narrativas
históricas e, consequentemente, os curricula dessa disciplina escolar.
Como? O ponto é explícito: “através da inclusão de narrativas, sujeitos
históricos e artistas até agora excluídos da narrativa oficial”. Ou
seja, o que importa é introduzir — e a martelo, se necessário for —
outras narrativas para dentro daquilo a que chamamos História. Não
interessa aos woke se essas narrativas que pretendem inserir no ensino
da História são verdadeiras ou falsas, ou se os sujeitos históricos que
querem ver incensados são reais ou meras ficções. Esses detalhes não os
preocupam nem atrapalham. O que querem é pôr nas páginas dos manuais
escolares a versão que gostariam que fosse verdade e que, muitas vezes,
não passa de mero mito ou de ideologia política. Ora isto é o contrário
do que a História deve ser. A História é crítica e global. Os
historiadores recolhem as recordações dos que viveram no passado,
comparam-nas entre si, confrontam-nas com documentos e vestígios desse
passado, e afastam o que é falso, na procura da verdade. Por norma, os
woke acham que a verdade é um escrúpulo de gente conservadora, um
dispensável fait divers ou um empecilho e dano colateral da sua luta
política.
Vivemos
tempos de pesadelo que importa perceber e combater. É errado pensar que
o wokismo é apenas uma moda passageira e inócua. Não o é. Veio para
ficar e para tentar perfurar e demolir as mais sólidas paredes da
cultura ocidental. O governo do PS não terá perdão se, correspondendo às
pretensões woke, alterar o ensino da História, ajustando-o ao gosto dos
activistas; ou se aceitar e permitir o desmantelamento de monumentos e
estátuas; ou se, numa palavra, ceder ao programa woke de reparações
históricas. Não poderá alegar que o desconhecia, quando ele é, agora,
explícito e claro como água pura. E o PSD, ainda que na oposição, também
perdão não terá se persistir na indiferença sobranceira com que tem
olhado para tudo isto, como se estes confrontos culturais não lhe
dissessem respeito nem ao país.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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