BLOG ORLANDO TAMBOSI
O maior perigo neste momento é o Ocidente forçar a Ucrânia a arriscar sem os meios necessários, com a ideia de que o fruto está maduro, e depois desistir se a Ucrânia não apresentar resultados. Rui Ramos para o Observador:
Tal
como os milhares de especialistas instantâneos que se atropelam nas
televisões, também eu não sei o que se passa na Rússia. Mas faço ideia
do que se está a passar no Ocidente a propósito da guerra na Ucrânia, e é
preocupante. Resumindo, passámos de uma situação em que ninguém
esperava que a Ucrânia resistisse um par de semanas, para outra em que
todos esperam – e quase exigem – que a Ucrânia vença num par de dias. A
sublevação do exército privado de Prigozhin pôs toda a gente a falar da
ditadura de Putin como um fruto maduro. Seria só estender a mão. Há já
quem avise os ucranianos, de relógio na mão: ou provam que são capazes
de ganhar agora, ou acabou-se e terão de aceitar a partilha do país com
Putin.
Esta
inversão de expectativas é insensata. Tornou-se hábito, a propósito da
Ucrânia, aludir ao risco de uma III Guerra Mundial, com recurso a armas
nucleares. Não se pode excluir. Mas por enquanto, o que temos visto no
terreno, tanto quanto nos é dado ver, não é a III Guerra Mundial, mas
uma espécie de I Guerra Mundial, com soldados em trincheiras e duelos de
artilharia. Para replicar mais fielmente as condições de 1914-1918, até
a aviação, decisiva nas outras guerras do século XX, terá sido limitada
pelas defesas anti-aéreas. Ambos os lados parecem suficientemente bem
instalados em posições defensivas para transformarem as ofensivas do
lado contrário em sangrias mais ou menos infrutíferas, tal como
aconteceu durante anos na I Guerra Mundial.
Muita
coisa pode acontecer, mas faz pouco sentido exigir que a Ucrânia
resolva a guerra numa só contra-ofensiva, tanto mais que os países do
Ocidente lhe continuam a racionar recursos fundamentais. A oportunidade
para esse tipo de golpe decisivo poderá ter passado há meses, mas a
Ucrânia não tinha então os tanques, os mísseis, os aviões, e o treino
necessários. O Ocidente não pode esperar que a Ucrânia vença antes de
completar o seu armamento. De facto, os ocidentais esperam ainda mais
coisas. Nesta guerra, a Ucrânia provou que é uma nação e que tem um
exército, ao contrário do que muitos pensavam. Mas há ocidentais para
quem isso não chega. A revista The Economist da semana passada era a
esse respeito instrutiva. A ideia é levar a Ucrânia, no meio de uma
guerra, com um quinto do seu território ocupado e as suas cidades sob
ataque diário, a fazer grandes reformas, a apurar a democracia, a
erradicar a corrupção, a tornar-se uma Suíça. Só assim poderia
justificar a ajuda ocidental e uma futura integração na NATO.
Esta
guerra não dá jeito nenhum aos ocidentais, ao contrário do que diz a
propaganda de Putin. Não lhes dá jeito renunciar ao gás russo, nem lhes
dá jeito aumentar as despesas militares. Por isso, demoram a armar a
Ucrânia, supostamente com receio de uma escalada, e por vezes é como se
andassem à procura de álibis para a deixarem cair: ou porque não é capaz
de vencer imediatamente, ou porque não é tão transparente como a Suíça.
Mesmo o alarme acerca da possibilidade de Trump regressar no ano que
vem, e entender-se com Putin, parece mais um meio de pressionar a
Ucrânia: ou ganha já, ou desiste.
O
Ocidente vê agora Putin como fraco, e tem razão. Mas Putin também vê
fraquezas no Ocidente, e também tem alguma razão. Daí que este seja um
conflito existencial para todos. Pode ser que haja um golpe de sorte, no
campo de batalha ou fora dele, como a insurreição de Prigozhin pareceu
durante umas horas. Oxalá. Mas talvez esta guerra tenha de ser vencida
como a I Guerra Mundial, por uma combinação de persistência militar e
estatísticas económicas. O Ocidente precisa de estar pronto para isso.
Há que ajudar a Ucrânia – e saber ter paciência.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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